Muito além das penitências comuns, o combate às desordens da alma nos aproxima da morada de Deus em nosso interior e renova nossa vida cristã ano após ano.
Pe. Rodrigo Rios – Vatican News Sempre antes de iniciar a Quaresma, procuro orientar meus dirigidos e paroquianos a elaborarem uma ficha de práticas penitenciais. Entre elas, destaca-se o vício a combater. De todas as práticas, esta possui um caráter especial de crescimento humano e deve ser observada com atenção. Mas o que seria isso, afinal? É o momento em que a pessoa olha para dentro de si e identifica algo que a escraviza , algo que, apesar das sucessivas tentativas de superação, ainda gera frustração. Geralmente, pensa-se nos vícios mais comuns, como o álcool, as drogas lícitas ou não e o consumo de conteúdos inapropriados, como a pornografia. Contudo, a proposta aqui também abrange aqueles vícios que são frutos de uma desordem interior. Vários são os exemplos nesse âmbito: fofoca, reclamação, maledicência, impaciência, impulsividade, tom de voz altivo, julgamentos, críticas constantes, etc. É aquilo que tentamos controlar, lutamos para vencer, mas cujas fragilidades nos fazem sucumbir repetidamente. Para combater um vício que já se enraizou e que, inconscientemente, trava nosso progresso, convém não lutar contra ele diretamente, mas sim de forma indireta. Muitos dirigidos me dizem: "Padre, eu tento não falar mal dos outros, mas não consigo. Quando o pensamento vem, tento renunciar, mas logo depois já caí na maledicência". Para esses casos, indico o combate por outra via. O vício representa uma força que, ao se manifestar, já possui grande intensidade. Uma forma eficaz de combatê-lo é estabelecer uma virtude contrária, algo que seja o oposto absoluto. Exemplos práticos: - Vício da reclamação: Estabeleça o dom do louvor contínuo. Proferir palavras de bendição faz com que o coração se volte para o que é bom, convertendo a situação em graça. - Vício da fofoca: Pratique o silêncio. Pode-se estabelecer 30 minutos de adoração silenciosa ao Santíssimo Sacramento por dia ou realizar um retiro em total silêncio durante um final de semana na quaresma. Um investimento na santidade Ao se propor a combater um vício a cada quaresma, teremos 40 dias de um olhar intenso para nossa realidade interna. Com certeza, ao final desse período, vitórias já poderão ser sentidas. Se anualmente nos propusermos a isso, em pouco tempo estaremos livres de atitudes que condenamos, mas que antes não tínhamos forças para abandonar. Reflita, caro leitor: quantas quaresmas você já vivenciou como católico praticante? Imagine se, em cada uma delas, você tivesse focado em um vício específico. Se já participou de 20 quaresmas, hoje teria eliminado ou mitigado 20 desordens em sua vida. Com certeza, seria um ser humano muito melhor! Muitos santos escreveram sobre o autodomínio e o autoconhecimento como formas de reconhecer a presença de Deus em nós. Santa Teresa d’Ávila ensinava que nosso interior é como um "Castelo", pois nele habita o Rei. Para chegar à morada central, é preciso percorrer diversos ambientes, enfrentando desafios e recebendo mercês divinas. Ao combater os vícios e estabelecer as virtudes contrárias, a alma devota aproxima-se dessa sala central. Não tenhamos medo desse percurso e que o bom Deus seja o nosso guia, pois Ele nos conhece melhor do que nós mesmos!