Desde que a Assembleia Nacional aprovou uma lei estabelecendo "um direito à assistência para morrer" na França, muitas unidades de cuidados paliativos, que dão suporte a milhares de pacientes em fim de vida, têm demonstrado preocupação com o seu futuro. Isso é particularmente verdadeiro para instituições católicas, como a clínica Sainte-Élisabeth, em Marselha, para as quais o cuidado da vida, o próprio fundamento de sua vocação, é incompatível com a possibilidade de provocar a morte.
Cécile Mérieux – enviada especial à Marselha Em 15 de julho de 2026, o Parlamento francês aprovou o projeto de lei que introduz a "assistência para morrer". A reforma foi aprovada por uma margem estreita — 291 votos a favor, 241 contra e 29 abstenções —, refletindo a complexidade dessa questão bioética, que permanece sendo objeto de debate. O texto foi imediatamente submetido ao Conselho Constitucional, em 16 de julho de 2026, para análise. Entre os insatisfeitos estão as instituições católicas de cuidados de fim de vida, que questionam o futuro de seus serviços voltados aos pacientes mais vulneráveis. A reforma aprovada estabelece que toda instituição deve atender à solicitação de eutanásia feita por um paciente. Incertezas Para o Dr. Hubert Tesson, médico da unidade de cuidados paliativos da clínica Sainte-Élisabeth, a exigência de realizar a eutanásia contraria os valores da instituição. "Temos uma carta de princípios que estabelece que não provocamos a morte dos pacientes", explica ele. "Embora os médicos tenham o direito à objeção de consciência, a instituição é obrigada a providenciar a eutanásia do paciente, essa é uma responsabilidade da direção, e o farmacêutico é obrigado a dispensar os medicamentos letais. Não sabemos o que será de nós nessas condições." Firmemente contrários à administração de tais procedimentos que põem fim à vida, o médico e seus colegas estão preocupados com o futuro da clínica. Restaurando o valor da vida Embora a lei apresente o "auxílio para morrer" como um direito pessoal que permite aos pacientes manter o controle sobre suas vidas até os momentos finais, a equipe médica sente-se profundamente envolvida no que é, aparentemente, uma decisão individual. "Existe um elemento de reciprocidade na relação", explica o Dr. Hubert Tesson. "Às vezes discuto isso com os pacientes: a noção de responsabilidade mútua. É uma forma de reciprocidade que enobrece ambas as partes e que ressoa junto ao paciente que pede para morrer." Para o médico, manter e valorizar essa "conexão humana" até o último momento da vida é fundamental. "O paciente percebe que sua existência importa", enfatiza ele. "Isso restaura a sensação de que sua vida tem valor. É algo verdadeiramente profundo." Liberdade ilusória O médico teme que essa reforma relacionada ao fim da vida banalize os pedidos de eutanásia. Em sua visão, o fato de a lei permitir encerrar a vida dos pacientes levará muitos deles a considerar essa opção. "Até agora, os pacientes sequer se faziam essa pergunta; no fundo, isso representa uma perda de liberdade, de certa forma", lamenta o médico. Além desses dilemas internos, o médico teme pressões externas, por parte de famílias e da sociedade, para antecipar o fim da vida. Uma Ruptura no Apoio ao Fim da Vida Após a votação, Marie-Lyse Meunie, voluntária da pastoral hospitalar na clínica Sainte-Élisabeth, foi tomada inicialmente por decepção e "um pouco de raiva". "Senti que essa lei foi totalmente mal concebida e contrariava o espírito dos cuidados paliativos", diz ela. "Senti um peso, um fardo esmagador que agora recairá sobre os pacientes e suas famílias." Para Marie-Lyse Meunier, embora essa reforma represente uma "ruptura" com o passado, ela também é um "chamado" para se dedicar mais plenamente a apoiar aqueles que estão no fim da vida. "Isso me motivará a focar ainda mais profundamente no que realmente importa", diz ela, mantendo o entusiasmo apesar das circunstâncias. "Para mim, é inconcebível que um paciente parta carregando um fardo pesado e questões existenciais não resolvidas." Ela fala de momentos de paz encontrados no limiar de vidas difíceis, de pedidos de perdão e, por vezes, do recebimento de sacramentos. São resoluções alcançadas in extremis, desfechos que talvez não sejam mais possíveis se os tempos naturais forem artificialmente acelerados. Fragmentação da missão hospitalar A equipe do Sainte-Élisabeth está unida na oposição à possibilidade de realização de eutanásia na clínica; no entanto, esse consenso institucional não é absoluto. Segundo o Dr. Tesson, as abordagens variam, o que ameaça a coesão profissional. "Há um grande desafio em manter o senso de comunidade nessas instituições, uma comunidade definida tanto por uma missão compartilhada quanto pela conexão humana", alerta o médico. "A missão dos serviços hospitalares tende a se fragmentar. A medicina tem a tarefa de cuidar da vida, mas agora também lhe é solicitado administrar a morte. Isso é suficiente para deixar qualquer um desorientado." Esperança em meio à adversidade Diante desse revés para o departamento, o Dr. Tesson recusa-se a desistir: "Estou convencido de que, frente a essa adversidade, canalizaremos nossa energia para aprimorar ainda mais a qualidade do cuidado que oferecemos ao indivíduo". Esse sentimento é compartilhado pelos voluntários da capelania: "Vejo essa lei como um chamado para resistir um pouco mais, para sermos criativos", afirma Maris-Lyse Meunier. "Não, não nos deixaremos vencer. Todos nós compartilhamos a missão de servir à vida!"