O “melhor vinho” de Enrico e Chiara Corbella Petrillo

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O “melhor vinho” de Enrico e Chiara Corbella Petrillo
Fonte: VATICANO

Um diário, um fluxo de pensamentos sobre a vida, a morte e a fé em um Pai que não engana, em um Evangelho que sustenta e cura. É o livro “Somente o melhor vinho”, publicado pelas Edições San Paolo e escrito por Enrico Petrillo, 14 anos após a morte da jovem mãe romana, cujo processo de beatificação está em andamento. Um suposto milagre ocorrido nos Estados Unidos está sendo examinado.

Benedetta Capelli – Vatican News Há 18 anos, em 21 de setembro, Chiara Corbella percorria a nave da igreja de São Pedro, em Assis, indo ao encontro de seu esposo, Enrico Petrillo.

Jovens, belos, apaixonados — também por São Francisco —, entusiasmados e voltados para o futuro, tinham uma sólida certeza: eram filhos de um Deus que os amava em suas fragilidades, quedas e erros; um Deus que coloca a verdade no coração de cada pessoa, uma verdade que não pode ser mal interpretada.

Em 21 de setembro de 2018, a Diocese de Roma abria o processo de beatificação de Chiara, que havia morrido seis anos antes, em 13 de junho, aos 28 anos, em decorrência de um carcinoma na língua, descoberto quando estava grávida de Francesco, seu terceiro filho.

Maria Grazia Letizia e Davide Giovanni eram os filhos que Chiara e Enrico haviam acolhido, conscientes das dificuldades que enfrentavam, e acompanhado durante suas poucas horas de vida, batizando-os e entregando-os “nas mãos do Pai — dizia Chiara — com uma serenidade e uma alegria desconcertantes”.

É uma história que surpreende, fascina, suscita perguntas e curiosidade e se torna terreno de “invasões bárbaras”, escreve Enrico Petrillo no livro Somente o melhor vinho, publicado pelas Edições San Paolo e lançado no início de setembro.

Um diário, “remédio para a dor”, no qual o autor aborda os temas da doença, da viuvez, do aborto e da fé: “O ato de acolher e devolver tudo às mãos de um Pai que não é um patrão, mas o Rei da História”. [ In Evidence ] Para Francesco Há um verso de O prisioneiro, de Giovanni Pascoli — “Porque a dor é ainda mais dolorosa quando silencia.

Se você a esconder, dará frutos” —, que combina bem com o espírito do livro de Enrico Petrillo, nascido após uma longa reflexão e que se transforma em uma tomada de consciência clara e livre.

Não há meias-tintas em suas palavras: há a sua verdade, o seu melhor vinho. “Escrevi este texto — lê-se no livro — pensando sobretudo em Francesco, para que ele conheça melhor sua mãe, Chiara, sua história e, em parte, também a mim, seu pai.” Assim Enrico contou aos meios de comunicação do Vaticano como nasceu a publicação: “Estou muito emocionado.

Surpreende-me e maravilha-me ter conseguido escrever um livro que nasceu do desejo de colocar por escrito alguns pensamentos para me curar das muitas dores que trazia dentro de mim, como se fosse um remédio.

Ao reler esses pensamentos, comecei a perceber que talvez eles pudessem fazer bem a alguém, além de mim.

Então enviei o manuscrito às Edições San Paolo, que me responderam.

Somente o melhor vinho faz referência ao episódio das bodas de Caná, o primeiro milagre do Senhor, que transformou a água em vinho.

O que sempre tocou um pouco o meu coração e a minha vida, porém, é o fato de que o Senhor, até o fim, sempre oferece o melhor vinho.

Essa é um pouco a sua pedagogia.

Ele não engana, como fazia o mestre-sala, que primeiro oferecia o vinho bom e depois servia aos embriagados o de qualidade inferior.

O Senhor não engana.

O Senhor é um Deus bom.

Este é o pano de fundo que eu gostaria que permanecesse neste livro.

Passamos a vida inteira lutando contra as dúvidas a respeito de Deus quando certas coisas acontecem, mas o Senhor pensa sempre no melhor para você.

Evidentemente, o vinho é uma metáfora da felicidade: uma festa sem vinho é como uma festa de crianças, hoje, sem Coca-Cola.” [ Photo Embed: Enrico Petrillo nos estúdios da Rádio Vaticano – Vatican News] Tem-se a impressão de que você permaneceu em silêncio, apesar das entrevistas e dos testemunhos, inclusive no exterior, sobre a sua história e a de Chiara.

Por que surgiu essa necessidade de esclarecer tantas coisas vividas por você e também por Francesco, seu filho?

Sim, o desejo é oferecer os parâmetros corretos, precisamente para não enganar ninguém com interpretações diversas.

É a história do meu casamento com Chiara, por isso quis contar aquilo que vivemos, justamente porque pensei que fosse um tesouro precioso.

E não fui apenas eu que pensei assim, mas também os meus amigos e aqueles que haviam conhecido Chiara.

Surpreendido pelas muitas coisas que estavam acontecendo, percebi a necessidade de contar a nossa história no primeiro livro, Nascemos e nunca mais morreremos, e agora novamente, porque durante esses anos vivi muitas invasões de campo e muitos mal-entendidos.

Vou dar um exemplo.

Francesco estava no ensino fundamental II e abriu o livro didático de religião, no qual havia uma parte dedicada a Chiara.

Ali estava escrito que ela havia renunciado ao tratamento para que ele pudesse nascer.

Uma criança que lê algo desse tipo volta para casa arrasada, porque não é verdade que ela tenha renunciado ao tratamento: ela o adiou.

Houve muitas situações assim, inclusive livros que estavam prestes a ser publicados e dos quais me dissociei.

Todos amam Chiara, e isso é algo maravilhoso, porque talvez Chiara tenha acolhido os filhos, acolhido tudo e acolhido também a mim.

Mas isso não dá a ninguém o direito de dizer o que deseja, sobretudo sem considerar as consequências para uma criança que está crescendo.

Hoje Francesco tem 15 anos e, portanto, está menos vulnerável do que antes, mas protegê-lo não foi fácil, especialmente protegê-lo de nós, católicos.

Quando íamos dar algum testemunho, as pessoas tocavam nele por ser filho de Chiara, e ele se perguntava por quê, manifestava incômodo.

Por um lado, é bonita essa fé que precisa de algo tangível, mas também precisamos estar mais inseridos na realidade e ter maior sensibilidade em relação aos outros.

Existe, portanto, uma dor de fundo neste livro.

Foi ela o motor que me impulsionou a dizer que precisava escrever esses pensamentos. [ Photo Embed: Livro “Somente o melhor vinho”] Há uma ênfase particular na viuvez.

Percebe-se que algumas pessoas quiseram colocar em você uma roupa que lhe ficava apertada.

Ser viúvo — você escreve — não é uma vocação, mas uma condição.

Experimentei na própria carne e em minhas dificuldades aquilo que depois escrevi.

Sim, afirmo isso com certa segurança, até porque a própria Igreja Católica permite que uma pessoa se case novamente.

Muitos me disseram que, depois de um amor tão grande, não seria possível abrir-se a uma nova experiência.

Sei que aquilo que vivi com Chiara foi maravilhoso, mas talvez justamente por isso eu tenha parâmetros diferentes.

Certamente não foi simples para as pessoas com quem me relacionei no passado, porque não era fácil para elas: sentiam-se em segundo lugar.

Chiara, porém, faz parte da minha história e certamente não posso esquecê-la. [ Photo Embed: Enrico Petrillo nos estúdios da Rádio Vaticano – Vatican News] No livro, você escreve que o seu casamento se completou com a morte de Chiara.

No casamento, o cônjuge, seja homem ou mulher, é o caminho para o outro.

Isso significa que dei o meu amor a ela e, por meio desse amor, posso encontrar o amor de Deus.

Não posso encontrá-lo em outro lugar, porque aquilo é um sacramento.

Muitas vezes, o casamento também pode ser um lugar difícil, nem sempre é fácil, mas é uma relação de amor constante.

Portanto, quando o casamento se completa, está completo.

Eu fui o caminho percorrido por Chiara para chegar à eternidade.

Chiara foi minha companheira de viagem até determinado momento.

Agora não tenho dúvidas de que, do Céu, de algum modo ela reza por nós e vela também por mim, mas já não é mais o meu caminho.

Encontro-me novamente em um discernimento vocacional e é por isso que a viuvez é uma condição.

Deus nos dá a liberdade, e a liberdade de amar é bela.

Deus quer a sua felicidade.

Você se refere frequentemente à pedagogia do amor como “uma injustiça maravilhosa”. “Em nossa história — escreve — fomos consolados por um Deus suspenso na cruz conosco.” Você também menciona um coração partido, imagem sugerida por Francesco: um coração que se abre, que se parte, voltado para o outro, pronto para amar, mas, sobretudo, pronto para ser amado.

Francesco brincava com seus carrinhos enquanto eu o embalava nos braços e lhe dizia, entre tantas coisas, que existia um Pai que o amava mais do que eu.

Em determinado momento, ele olhou para mim e disse: “Então você precisa quebrá-lo”.

Eu não entendia o que deveria ser quebrado, mas ele insistia, dizendo que, para entrar no carrinho, era preciso quebrá-lo.

De repente, compreendi o que ele estava me dizendo: para fazer o amor entrar no coração, é preciso parti-lo.

Ele olhou para mim e disse que era exatamente esse o sentido.

É claro que ninguém gosta de sofrer, mas, na realidade, para permitir que o amor entre, é necessário um sofrimento. [ Photo Embed: Chiara em Medjugorje] No livro, você pede que Chiara não seja transformada em uma heroína da luta contra o aborto. “Este não é o centro da vida dela.

Não a utilizem em propagandas políticas.

A política é outra forma de caridade somente quando serve aos mais frágeis, não quando se serve deles.” A história de vocês é marcada pela perda de dois filhos, ambos com graves dificuldades, que vocês acolheram e depois deixaram partir.

Acolhemos nossos filhos porque o Senhor os deu a nós e, consequentemente, os acompanhamos até onde Ele quis.

Não houve obstinação terapêutica em relação a eles.

Nós os acompanhamos porque encontramos o Senhor.

Para mim, essa é uma diferença importante, porque o centro não é Chiara ser a heroína da luta contra o aborto.

O centro é que Chiara viveu como filha e, dessa condição de filha, deriva um modo de ser.

Deriva o fato de que não se rouba, não se mata, não se aborta e de que é preciso ser acolhedor.

Transformar Chiara em uma bandeira significa desviar o olhar.

Os santos servem porque são caminhos que conduzem ao Céu.

Portanto, se Chiara é santa, como parece ser, isso significa que imitar a sua vida, assim como imitar a vida de São Francisco, leva ao Céu.

Nunca participamos voluntariamente de manifestações contra o aborto, porque existe uma diferença entre evangelizar e fazer política.

O Evangelho é vivido: quanto menos palavras você usar, melhor.

Acrescento ainda que Chiara era amiga de todos.

Entre suas melhores amigas havia uma jovem budista, outras não batizadas e outras ateias.

Nenhuma delas se sentia de algum modo constrangida diante de Chiara; pelo contrário, sentiam-se acolhidas.

Quando colocamos uma bandeira política ou um rótulo, de alguma forma fechamos um caminho, excluímos alguém.

Chiara, ao contrário, acolheu tudo, e eu gostaria que cada pessoa pudesse continuar sentindo-se acolhida por ela, porque, no fim, nesse abraço está o Senhor, que é a razão de tudo.

Chiara é um espelho que nos permite vislumbrar algo além.

Há 14 anos, Chiara nasceu para o Céu e, desde então, cresceu ao seu redor a fama de santidade.

Como se vive a espera por uma futura beatificação, caso venha a acontecer?

Pessoalmente, isso não muda nada.

Para mim, antes Chiara era uma amiga, depois foi minha esposa e agora é uma doce companheira de viagem.

Sendo santa ou não, Chiara continua sendo Chiara.

Eu a conheci profundamente, e o dom que recebemos é um dom imenso, que transborda de amor a ponto de se tornar amor também para o mundo inteiro.

Não sei se sou digno disso, se me sinto capaz.

Durante esses anos, para além de tantas instrumentalizações, acredito que você tenha recebido uma manifestação muito forte de carinho e amor.

Há algo em particular que o tenha tocado?

Existe alguém que, em sua opinião, tenha compreendido profundamente?

Além dos muitos amigos íntimos, verdadeiramente próximos, irmãos com quem chorei muito e com quem continuo caminhando até hoje, a maior consolação chega ao meu coração todas as vezes que vejo tantas pessoas participando dos aniversários, apesar das longas viagens, ou fazendo uma peregrinação ao túmulo de Chiara.

Eu realmente não sei quem organizou essas coisas.

Tudo isso me enche de admiração e me permite vislumbrar não os meus projetos, mas os projetos de outra pessoa, porque tenho a impressão de que essa história continua a se construir sozinha. [ Photo Embed: A família de Chiara Corbella Petrillo na Basílica de São João de Latrão para o encerramento da fase diocesana do processo de beatificação] Há novidades sobre o processo de beatificação?

Há uma grande movimentação, um grande desejo e muita expectativa em relação a isso.

Agora posso dizer, porque o postulador tornou isso público em 13 de junho passado, durante o aniversário da morte de Chiara: há um milagre ocorrido nos Estados Unidos, muito, muito bonito.

Estão sendo realizadas todas as avaliações necessárias.

Trata-se de uma cura maravilhosa. “Chiara — você escreve — tornou-se uma personagem pública.

Não me opus à sua fama de santidade porque desejo que vocês possam conhecê-la melhor para conhecerem melhor Aquele que a amou.

Não me arrependo, ainda que às vezes tenha doído.

Eu faria tudo novamente.” O que doeu?

Muitas coisas doeram.

Soube que, antes do Concílio Vaticano II, era necessário esperar 50 anos para abrir um processo de beatificação.

Era também uma forma de respeitar a dor.

Comigo isso não aconteceu.

Por um lado, esperar faz sentido, mas, por outro, Deus oferece seus santos no tempo que deseja.

Talvez hoje, por meio de sua vida, Chiara ajude a esclarecer muitos dos problemas éticos que enfrentamos, muitas nuances extremamente difíceis com as quais nós, homens e mulheres do nosso tempo, precisamos lidar.

Fico feliz que isso tenha acontecido hoje e também me sinto honrado por Deus, de algum modo, ter me escolhido para isso.

No fim, o que chega até mim é o amor.

No entanto, não nego que houve muito, muito sofrimento.

Este livro também me assusta porque, de algum modo, eu me expus.

Durante esses 14 anos, procurei preservar a mim mesmo e preservar Francesco.

Acredito também que o ser humano seja espontaneamente atraído pela beleza e pela felicidade, mesmo sem compreendê-las plenamente.

Quando você vê Chiara naquela fotografia, com o curativo e aquele sorriso estranho que o inquieta, olha para ela e se pergunta por que está sorrindo apesar de tudo o que aconteceu.

No fundo, ela está lhe dizendo que entendeu, que compreendeu o sentido. [ Photo Embed: Chiara Corbella Petrillo] Como Francesco está se preparando para o futuro, no qual poderá enfrentar também uma provável beatificação da mãe?

Espero tê-lo preparado.

À medida que crescia, naturalmente fazia perguntas mais profundas, e procurei responder-lhe de maneira adequada.

Ele me confidenciou um pensamento — espero que não fique chateado por eu contar.

Alguns meses atrás, disse que se incomoda quando lhe dizem que se parece com sua mãe, Chiara.

Fisicamente, ele é idêntico a ela.

Isso o incomoda porque está convencido de que tem valor não por se parecer com a mãe, mas porque é Francesco.

Ele diz que nem sequer se lembra dela.

Tem 15 anos, e considero saudável que tenha esses pensamentos.

Espero continuar ajudando-o a crescer dessa maneira, mantendo o distanciamento adequado.

Uma reivindicação da própria identidade… É justo que seja assim.

Se eu continuasse sendo “o marido de Chiara”, se padre Vito continuasse dizendo ser “o diretor espiritual de Chiara”, não estaríamos dizendo a verdade.

Eu já não sou seu marido; ele foi seu diretor espiritual, agora já não é mais.

Ao continuar impondo rótulos a nós mesmos, fechamo-nos para todo o restante.

Francesco é muito mais do que isso.

Ele precisa descobrir sua relação de filho com o Pai que o criou.

E quem é Enrico hoje?

Alguém que não entendeu nada.

Levei muitos golpes da vida.

Certa vez, padre Fabio Rosini me disse: “É verdade, Enrico: quando o Senhor bate em você, bate realmente forte”.

É assim mesmo!

Sou muito teimoso para compreender.

No fim, o Senhor sabe para onde precisa me conduzir.

Parece-me que a minha vida é uma linha reta, já traçada, mas eu vou batendo ora à direita, ora à esquerda.

No fim, depois de levar tantos golpes, de alguma forma chego à meta.

Espero continuar assim, porque o importante não é quantas vezes você cai, mas saber que existe alguém que sempre lhe estende a mão para ajudá-lo a se levantar.

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