O contato humano, antes marcado pela presença, pelo olhar, pela escuta, pelo toque e pela conversa, passa, cada vez mais, a ser mediado pelas tecnologias digitais. Os dispositivos móveis tornaram-se, para muitos, uma extensão da própria vida...
Dom Oriolo - Bispo da Igreja Particular de Leopoldina MG Outrora, por onde andávamos, encontrávamos pessoas relacionando-se umas com as outras.
Pessoas conversando entre si, nas residências, nas ruas, no trabalho, no lazer, nos pontos de ônibus, nos supermercados, na Igreja e em tantos outros lugares.
O contato pessoal, o estar próximo, o escutar, o falar, o tocar e o abraçar eram atitudes que faziam parte intrinsecamente de nossas vidas.
Nesses contatos, íamos construindo o nosso caráter, a nossa personalidade, a nossa educação, a nossa criatividade e evoluindo na capacidade de relacionamento conosco mesmos, com o mundo, com os outros e com Deus.
Atualmente, as tecnologias digitais fazem parte do nosso cotidiano e exercem profunda influência sobre o nosso caráter, a nossa personalidade, a nossa educação e a nossa criatividade.
O cenário ao nosso redor mudou: já não encontramos, com a mesma frequência, pessoas simplesmente em contato umas com as outras, mas conectadas aos seus smartphones, tablets e computadores, utilizando esses dispositivos para se relacionar e interagir.
A conexão digital ampliou as possibilidades de aprendizado e de expressão, aproximando pessoas fisicamente distantes, garantindo acesso rápido a informações e permitindo manter vínculos afetivos com familiares e amigos ausentes.
Essa nova realidade, porém, também transforma a maneira como nos relacionamos.
O contato humano, antes marcado pela presença, pelo olhar, pela escuta, pelo toque e pela conversa, passa, cada vez mais, a ser mediado pelas tecnologias digitais.
Os dispositivos móveis tornaram-se, para muitos, uma extensão da própria vida, presentes no trabalho, no lazer, na família, na Igreja e nos momentos de descanso, mediando relações.
Assim, o mundo digital não é apenas uma ferramenta que utilizamos, mas um ambiente que influencia a construção da nossa identidade e dos nossos relacionamentos, ao mesmo tempo em que nos desafia a redescobrir o valor da presença, da escuta, do diálogo e do encontro com o outro.
Estamos imersos numa Sociedade 5.0, centrada no ser humano, em que a tecnologia, a Internet das Coisas e a robótica buscam melhorar a qualidade de vida e facilitar as conexões interpessoais.
Vivenciamos profundas transformações e mudanças de comportamento, inseridos no mundo das telas virtuais e dominando ferramentas digitais com uma agilidade surpreendente.
No entanto, essa habilidade técnica esconde um risco profundo: a transformação do funcionamento intelectual e emocional.
A presença onipresente das telas está criando barreiras para o aprendizado do amor, da convivência e da partilha, valores que não podem ser ensinados por algoritmos, mas apenas vivenciados no contato humano.
A vida hibrida ou on-life consiste em utilizar os recursos on-line sem perder a vivência e a postura do mundo off-line, uma combinação que traz benefícios incríveis, facilitando nossa mobilidade.
Estamos consumindo conteúdos e materiais educativos, sociais, religiosos, criativos e interativos que chegam até nós por meio de algoritmos e criadores de conteúdo que, muitas vezes, são saudáveis e, outras, prejudiciais.
Muitas vezes, as telas oferecem informações incertas ou conexões vazias.
O algoritmo busca padrões, mas não compreende a causa ou o sentido profundo da vida.
Diante desse cenário de profundas transformações, a Primeira Carta do apóstolo Paulo aos Coríntios ressoa com urgência em nossos dias: "Eu vos alimentei com leite, não com alimento sólido, porque não éreis capazes" (1 Cor 3,2).
A conexão digital diante desse cenário costuma nos oferecer um alimento líquido e superficial, visto que a velocidade de circulação da informação e a personalização dos conteúdos impulsionados pela Inteligência Artificial dificultam a distinção entre fatos, opiniões ou conteúdos deliberadamente manipulados (cf.
MH, 132).
Concluindo, o amadurecimento humano e espiritual exige a coragem de buscar o alimento sólido.
Precisamos ter um olhar crítico sobre o que consumimos nas telas e treinar nossos algoritmos para que sirvam à nossa edificação.
O ecossistema on-life traz facilidades, mas nenhuma Inteligência Artificial substituirá o toque, a escuta e a vivência em comunidade.
Que saibamos usar as redes com maturidade, promovendo o verdadeiro encontro conosco mesmos, com outro, com mundo e com Deus.