Da brutalidade técnica do summum supplicium à entrega total na Sexta-Feira da Paixão, entenda como o suplício mais cruel da antiguidade se tornou o símbolo máximo de doação e amor ao próximo.
Pe. Rodrigo Rios – Vatican News Este dia na Semana Santa é popularmente conhecido como Sexta-Feira da Paixão. Isso se deve ao fato de que a crucificação de Jesus Cristo aconteceu como uma manifestação total de amor. Mas, este gesto veio em meio a um ato horrendo, algo que até hoje escandaliza quem tem contato com o seu real significado de dor. A crucificação era chamada de summum supplicium (castigo supremo), ou seja, nos moldes da linguagem atual, seria o equivalente a uma pena de morte com tortura. Mas isso ia além da dor física; os romanos a transformaram em uma ferramenta de engenharia psicológica cruel e de controle estatal. Uma ferramenta de propaganda e terror A crucificação não era feita em lugares isolados; era um espetáculo público. Primeiro, havia uma localização estratégica: as execuções ocorriam em estradas movimentadas, como as que levavam às portas das cidades, ou em colinas visíveis. O objetivo era que todos vissem o que acontecia com quem desafiava a autoridade de Roma. Acima do condenado, colocava-se o motivo da execução. Esse titulus servia como uma exortação: "Se você fizer o mesmo, este será o seu destino". No caso de Jesus Cristo, foi colocado o INRI, acrônimo em latim para: Iesus Nazarenus, Rex Iudaeorum, que significa "Jesus Nazareno, Rei dos Judeus". Segundo o Evangelho de João, a inscrição, além do latim, foi escrita em hebraico (língua religiosa) e grego (língua comercial/popular). Isso deu um caráter ainda maior ao ato, para que todos os que ali passassem pudessem compreender completamente as motivações. A crueldade técnica O objetivo da crucificação não era uma morte rápida, mas o prolongamento máximo da agonia. A posição dos braços esticados e o corpo pendurado dificultavam a exalação do ar. Para respirar, o condenado precisava se empurrar para cima usando os pés, que estavam fixados com pregos, o que causava uma dor excruciante nos nervos. A morte geralmente ocorria por uma combinação de exaustão, perda de sangue e fluidos, desidratação e, por fim, colapso cardíaco ou asfixia, quando o corpo não tinha mais forças para se erguer. Para acelerar a morte, os soldados frequentemente recorriam ao crurifragium (quebra das pernas). Sem apoio para se levantar e respirar, o condenado sufocava em poucos minutos. No caso de Jesus, não foi assim. O soldado feriu seu lado com uma lança, de onde jorrou sangue e água. Os cristãos viram nesse detalhe uma referência ao cordeiro pascal do Antigo Testamento, cujos ossos não podiam ser quebrados (Êx 12, 46). Humilhação e exclusão Além da dor, havia uma humilhação social tremenda. O condenado era despido e exposto à zombaria pública. Para a mentalidade da época, a perda da honra era tão terrível quanto a perda da vida. Frequentemente, os corpos eram deixados na cruz para apodrecer ou serem devorados por animais. No mundo antigo, não ter um sepultamento digno era um destino cruel para a alma e para a memória da família. A crucificação era reservada para os piores malfeitores: escravos rebeldes, piratas, traidores e sediciosos (subversivos políticos). Um cidadão romano raramente era crucificado; para eles, a execução costumava ser a decapitação, considerada limpa e rápida. Lembremos aqui de São Paulo Apóstolo, que, por ser cidadão romano, foi decapitado. O que significa dar a vida hoje? Diante de todo o exposto, cabe a pergunta: o que significa dar a vida por alguém nos dias de hoje? A oferta de Jesus foi realizada de modo cruel, tanto física quanto moralmente. Hoje, nós cristãos a chamamos de "Paixão", ou seja, uma oblação de amor. Seríamos capazes de fazer o mesmo? Entregar a vida por outrem, inclusive por quem nos odeia? A morte de Cristo representa a vitória sobre o mal e o triunfo sobre o individualismo tão forte nos tempos atuais. É um olhar para o outro e um amor levado ao extremo. Neste dia, não se celebra a Eucaristia; porém, no ato litúrgico da Paixão do Senhor, são distribuídas as hóstias consagradas no dia anterior. Esse gesto é extremamente significativo: Jesus continua se doando até o último momento. Se a Sexta-feira da Paixão é o relato histórico de uma execução brutal, para a fé ela é a prova máxima de entrega. E qual será a nossa resposta? Bem, como dizia Santa Teresa de Ávila, amor com amor se paga!