Segundo estimativas das autoridades locais, mais de 6.000 moradores — incluindo cerca de 200 crianças — permanecem ilhados em Oleshky e localidades vizinhas, na margem esquerda do rio Dnipro, sob ocupação. Presos em uma "zona cinzenta" na linha de frente, situada exatamente em frente a Kherson (cidade sob controle ucraniano), os moradores enfrentam diariamente disparos de artilharia, munições não detonadas e ataques de drones táticos que permanecem em voo de espera na área.
Vatican News A situação humanitária em Oleshky, na região de Kherson, sul da Ucrânia, vem se deteriorando, segundo autoridades ucranianas, voluntários e organizações religiosas. O Conselho Pan-Ucraniano de Igrejas e Organizações Religiosas (UCCRO) apelou ao Papa Leão XIV e a líderes humanitários internacionais para que utilizem todos os meios diplomáticos disponíveis a fim de evitar a fome em massa em Oleshky, cidade ocupada pela Rússia, anunciou a entidade religiosa.
A cidade, localizada às margens do rio Dnipro e sob controle russo, encontra-se próxima à linha de frente e enfrenta graves dificuldades para receber alimentos, medicamentos e outros itens essenciais.
A Ucrânia acusa Moscou de impedir, de fato, tanto a entrada de ajuda quanto a retirada de civis.
As informações sobre o número de pessoas que permanecem na localidade são difíceis de verificar de forma independente devido às condições de segurança e à ausência de acesso regular à região.
O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrij Sybiha, afirmou que a comunidade internacional deve agir para estabelecer um corredor humanitário, permitir a chegada de alimentos e medicamentos e possibilitar a evacuação da população civil.
Segundo estimativas apresentadas pelas autoridades ucranianas, cerca de 2 mil civis ainda poderiam estar em Oleshky.
Já o Conselho de Igrejas e Organizações Religiosas de Toda a Ucrânia, em um apelo divulgado em 19 de setembro, apresentou uma estimativa mais elevada: mais de 6 mil pessoas poderiam permanecer na cidade e nas áreas próximas, incluindo cerca de 200 crianças.
O organismo afirma que os últimos abastecimentos de alimentos teriam ocorrido no fim de maio.
Cruz Vermelha: insegurança impede a assistência É nesse contexto que ganham especial importância as declarações do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).
A organização classificou a situação de segurança na região como “instável e complexa” e afirmou que “numerosos obstáculos” dificultam a entrega de ajuda humanitária.
O CICV declarou estar preparado para prestar assistência caso as partes envolvidas a solicitem e sejam oferecidas as condições de segurança necessárias.
A posição da organização também precisa ser compreendida à luz de seu mandato humanitário.
O CICV atua de acordo com os princípios de neutralidade, imparcialidade e independência, buscando alcançar pessoas afetadas pelo conflito onde quer que estejam.
Entretanto, sua própria documentação atualizada em 18 de setembro informa que a organização não está presente nas áreas das regiões de Kherson e Zaporizhzhia controladas pela Rússia, o que ajuda a explicar as dificuldades para uma intervenção direta em Oleshky.
A organização tem destacado, de maneira mais ampla, que a guerra na Ucrânia continua colocando a população civil diante de necessidades urgentes de alimentos, água potável, medicamentos e abrigo.
Em setembro, o CICV também chamou atenção para o aumento das restrições ao trabalho humanitário em zonas de conflito e para a dificuldade crescente de garantir assistência em ambientes onde as condições de segurança são extremamente precárias.
Inverno aumenta preocupação A aproximação do inverno acrescenta uma dimensão de urgência à crise.
De acordo com relatos de voluntários citados no material, as evacuações teriam se tornado praticamente impossíveis, enquanto os estoques de alimentos disponíveis entre os moradores estariam diminuindo.
A presença de drones na região é apontada como um dos fatores que tornam extremamente arriscado o deslocamento de pessoas e a entrada de equipes de socorro.
A situação das infraestruturas também é motivo de preocupação.
O Conselho de Igrejas ucraniano afirma que a infraestrutura essencial de Oleshky foi em grande parte destruída e que não há fornecimento regular de eletricidade e gás.
A organização lembra ainda que a cidade foi atingida pelas consequências da destruição da barragem de Kakhovka, em 2023, episódio que provocou uma enorme inundação em áreas da região.
Acusações de Kiev e resposta de Moscou Kiev acusa as autoridades russas de impedir a entrada de ajuda e a saída dos moradores.
O ministro Sybiha pediu, durante a atual Assembleia Geral das Nações Unidas, que a comunidade internacional se mobilize para viabilizar um corredor humanitário.
O comissário ucraniano para os Direitos Humanos, Dmytro Lubinets, também afirma que vem propondo há meses uma missão de evacuação.
Moscou apresenta uma versão diferente.
O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, reconheceu dificuldades no fornecimento de alimentos e medicamentos, mas atribuiu a responsabilidade à Ucrânia.
Segundo ele, os drones ucranianos sobrevoariam continuamente a região e representariam um risco para aqueles que tentam realizar entregas.
Essas alegações fazem parte das versões conflitantes apresentadas pelas duas partes e não podem ser verificadas de forma independente nas condições atuais de acesso à cidade.
Igrejas pedem missão de evacuação A preocupação ultrapassou o âmbito das autoridades políticas, a tal ponto que em 19 de setembro, o Conselho Pan-Ucraniano de Igrejas e Organizações Religiosas apelou ao Papa Leão XIV, ao Conselho Mundial de Igrejas, à Aliança Evangélica Mundial, a líderes religiosos e organizações humanitárias para que utilizem todos os meios disponíveis para proteger os moradores de Oleshky.
O organismo pediu especificamente aos Estados-membros da ONU e ao CICV que contribuam para uma missão humanitária de evacuação da população para território controlado pela Ucrânia.
O apelo religioso acrescenta uma dimensão importante ao quadro humanitário: independentemente das acusações trocadas entre Moscou e Kiev, a prioridade imediata é alcançar a população civil e garantir sua sobrevivência.
O próprio CICV tem reiterado que a assistência humanitária depende de acesso e de garantias de segurança suficientes para que seus funcionários possam atuar.
Oleshky tornou-se, assim, um dos pontos mais delicados da crise humanitária na região de Kherson.
Com dificuldades de abastecimento, riscos associados aos combates e aos drones, ausência de acesso regular de organizações internacionais e obstáculos à evacuação, a situação exige mecanismos que permitam verificar as condições da população e garantir a chegada de ajuda.
Para a Cruz Vermelha, a existência de condições de segurança é indispensável para qualquer operação.
Para as organizações ucranianas que denunciam a crise, a urgência é evitar que a falta de alimentos, água e medicamentos transforme o isolamento da cidade em uma tragédia ainda maior.