Papa em mensagem à FAO: jamais usar o pão como arma de guerra

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Papa em mensagem à FAO: jamais usar o pão como arma de guerra
Fonte: VATICANO

No Dia Mundial da Alimentação, a mensagem de Leão XIV ao diretor-geral da FAO: “a fome não pode ser considerada uma anomalia estatística, pois é causada principalmente pela falta de vontade política e de solidariedade coletiva”. O Pontífice exorta a garantir a todos o direito a uma alimentação segura, adequada e suficiente: “é uma obrigação de justiça que vincula tanto os Estados individualmente quanto a comunidade internacional”.

[ Audio Embed Ouça a reportagem e compartilhe] Andressa Collet - Vatican News O Papa Leão XIV, através de uma mensagem, também participou da cerimônia oficial desta sexta-feira, 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, na sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma.

O texto, assinado em 12 outubro, um dia antes da sua internação no Hospital Gemelli para a cirurgia de remoção de um adenocarcinoma pulmonar, foi lido pelo arcebispo Fernando Chica Arellano, observador permanente da Santa Sé junto à FAO e dirigido ao diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, por ocasião do Fórum Mundial da Alimentação (WFF) realizado de 8 a 16 de outubro.

Anualmente, o evento global procura orientar e impulsionar ações de transformação dos sistemas agroalimentares para que possam ajudar a garantir a todos no planeta o acesso à alimentação.

Leia a íntegra da mensagem do Papa Leão XIV [ Photo Embed: As atividade do WFF terminam nesta sexta-feira (16/10), na sede da FAO, em Roma] A fome não é uma anomalia estatística "Encontramos-nos atualmente em uma situação paradoxal, na qual o progresso global avança a um ritmo cada vez mais acelerado, enquanto a fome e a pobreza continuam a persistir.

Não se trata de um problema técnico ou financeiro, mas sim de uma profunda crise antropológica e ética", escreve o Pontífice logo no início da mensagem, ao refletir sobre o termo da "inovação" presente no tema da jornada deste ano “Inovar hoje para nutrir o amanhã”.

O Papa  alerta a humanidade para que não se limite à otimização da técnica, "em referência ao desenvolvimento de dispositivos e algoritmos" com "o único fim de obter lucro econômico", mas procure cuidar da terra e cultivá-la: "a verdadeira inovação não substitui a criação, mas implica uma investigação respeitosa das leis complexas que orientam a obra das mãos do Criador'.

Ser um "colaborador de Deus na obra da criação", continua Leão XIV, é ajudar a proteger a dignidade humana e com o uso de uma tecnologia adequada, não o contrário, como privar o solo da fertidilidade natural, afastar o agricultor da sua terra por motivos econômicos, usar de maneira irresponsável a tecnologia "para interesses exclusivamente egoístas": são exemplos, explica o Papa, que violam o princípio da solidariedade, ignorando o dever de salvaguardar a criação, não podendo "ser considerado um progresso, mas uma forma sofisticada de destruição".

O tipo de inovação de que o mundo precisa, afirma o Pontífice, "não se mede apenas pela quantidade de grãos produzidos", negociados na bolsa de valores, porque "as sementes que germinam no solo acabam nas mãos de monopólios que sufocam a agricultura de pequena escala" gerando uma "distribuição negligenciada". [ A fome não pode ser considerada uma anomalia estatística, pois é causada principalmente pela falta de vontade política e de solidariedade coletiva.

Nem a escassez de alimentos é geograficamente inevitável.

De fato, em uma época caracterizada por um progresso tecnológico sem precedentes, é intolerável que o pão seja considerado um privilégio e a água, uma mercadoria disputada.

O acesso regular a uma alimentação segura, adequada e suficiente, em consonância com a dignidade de cada pessoa, é um direito humano fundamental.

Garantir esse direito é uma obrigação de justiça que vincula tanto os Estados individualmente quanto a comunidade internacional. ] Converter os gastos com a guerra em recursos para agricultura Para assegurar esse objetivo, "é necessário libertar a produção de alimentos de uma mentalidade puramente especulativa", insiste o Papa, ao acrescentar: "o pão não deveria ser nem um instrumento de pressão geopolítica nem um bem financeiro volátil.

Tampouco deve jamais ser usado como arma de guerra".

Além disso, recorda o Pontífice, "o mito de que o crescimento pode ser infinito, apesar dos recursos limitados, chegou ao seu limite".

Por isso a inovação, hoje, exige "responsabilidade intergeracional", conciliando o avanço tecnológico com a sabedoria da terra proveniente do agricultor - o que implica também na proteção da água "como bem comum inalienável".

O Papa Leão XIV, antes de invocar a bênção de Deus a todos participantes do Fórum Mundial da Alimentação e assegurar "o apoio constante da Santa Sé às iniciativas que auxiliam a FAO em seus nobres esforços", encorajou "a não se contentar com análises abstratas ou declarações de eficácia limitada": "Chegou a hora de dar prova de ousadia moral.

É essencial uma nova ordem alimentar global, na qual a inovação tecnológica esteja incondicionalmente subordinada ao respeito pela dignidade humana doada por Deus e ao bem comum universal.

Além disso, existe um imperativo ético urgente de redirecionar os recursos investidos na indústria bélica para a pesquisa agrícola sustentável e a regeneração de solos degradados.

O amanhã não é um período de tempo abstrato que nos aguarda passivamente; é, antes, a colheita do que semeamos hoje através das nossas decisões.

Se semearmos uma inovação não ética, baseada no desejo de dominar a terra e excluir os fracos, colheremos aridez e conflitos.

Se, ao contrário, a inovação brotar do respeito pela ordem natural e da justiça para com aqueles que passam fome, o amanhã trará uma mesa farta para o sustento da humanidade."

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