Novo apelo do franciscano, diretor das escolas da Custódia da Terra Santa: “Continuemos a falar, escrever, pedir e fazer a paz, porque a paz é urgente, necessária, indispensável à vida; não paremos, porque o silêncio mata”. No dia seguinte ao desabamento de um edifício em situação de risco, provocado pelos ataques israelenses, o religioso insiste: é difícil esperar que sejam os últimos escombros, porque há quase um ano uma trégua falsa e hipócrita continua produzindo morte, sofrimento e destruiç
Por Ibrahim Faltas* Os escombros de Gaza aumentam em volume e altura.
Milhares de edifícios que ainda permanecem de pé na Cidade de Gaza foram danificados por ataques aéreos e terrestres ao longo dos últimos três anos, mas continuam sendo abrigo para pessoas que já não têm sequer uma tenda, não sabem para onde ir e sobrevivem à espera de novas e antigas esperanças.
Para essa gente pobre, uma parede, um teto, mesmo em condições precárias, podem representar uma possibilidade de salvação.
O edifício que desabou em consequência de antigos ataques tinha um nome bonito e particular, mas que agora representa pouco diante do drama de Gaza.
O nome era “Edifício da Alegria”.
Sob escombros altos e volumosos ainda se encontram cerca de cem pessoas; mais de vinte já foram retiradas, e mais da metade delas são crianças.
Uma mãe e uma criança morreram abraçadas: estavam deitadas sobre um colchão coberto de poeira, que não conseguiu amortecer o peso da morte, mas permitiu um último e caloroso abraço de um amor terno que já não consegue dar a vida.
A imagem da piedade sepultada em Gaza, a imagem de uma mãe abraçada ao filho, leva-me a contemplar Maria e a tentar compreender seu coração dilacerado pela dor da morte do Filho.
Imagens semelhantes, mas diferentes: Maria das Dores, sofrida, Mãe do Redentor, tinha em seus braços Cristo morto, certeza da salvação para a humanidade.
A mãe de Gaza, as mães de todas as crianças que morrem nas guerras, apertam contra si uma dor que não gera amor, mas continua a se ampliar para afundar no turbilhão da vingança.
Mais um desabamento da humanidade voltou a lançar luz sobre Gaza.
Continuemos a falar, a escrever, a pedir e a fazer a paz, porque a paz é urgente, necessária, indispensável à vida.
Não paremos, porque o silêncio mata.
Recomecemos a reconhecer o valor da vida, reconhecendo o mal sofrido pelos inocentes, pelos indefesos, pelos oprimidos, pelos últimos.
Quantas histórias, quanto sofrimento sob aqueles escombros.
Não são os primeiros escombros a sepultar vidas, e é difícil esperar que sejam os últimos, porque há quase um ano uma trégua, falsa e hipócrita, continua produzindo morte, sofrimento e destruição.
Pessoas que carregam a mesma dor estão ajudando outros seres humanos desesperados a escavar com as próprias mãos, na esperança de conseguir trazer à luz aqueles que ainda estão vivos.
Uma criança fez ouvir sua voz fraca ao tio que a chamava.
Dizia-lhe: “Tio, estou vivo.
Venha me buscar.” Uma voz suave, uma fresta de esperança, mas, até agora, a poeira e os destroços devolvem apenas a morte.
Outros mortos permanecem sob outros escombros, que continuam escondendo números elevados e esquecidos de uma tragédia que parece não ter fim.
Estamos nos acostumando a escrever a história com os números dos boletins de guerra: por trás desses números existem pessoas, rostos, histórias de vidas vividas, esperanças roubadas e interrompidas.
As crianças, como sempre primeiras vítimas da violência, ocupam o primeiro lugar nessa triste lista.
Falemos de paz, peçamos a paz, não paremos: é o que nos pede a nossa consciência, para dar verdade e justiça aos inocentes. * Diretor das Escolas da Custódia da Terra Santa.