Padre Mykhaylo Chaban destaca a resiliência da juventude, o acolhimento às vítimas do conflito e a necessidade de uma paz fundamentada na justiça. Para os salesianos, reconstruir o país significa também cuidar das feridas humanas e preparar as novas gerações para o futuro.
Vatican News Mesmo após mais de quatro anos de invasão russa em grande escala, os jovens ucranianos continuam a lutar por um futuro.
Em meio aos ataques, aos alarmes e às profundas feridas provocadas pela guerra, procuram retomar a vida cotidiana, estudar, trabalhar e reconstruir os próprios projetos.
Essa é a realidade descrita pelo padre Mykhaylo Chaban, superior da Visitadoria Salesiana Maria Auxiliadora, da Igreja Greco-Católica Ucraniana, em entrevista concedida ao padre Ferdinando Colombo, SDB.
Ao recordar os primeiros meses da invasão, o sacerdote destaca o medo que tomou conta da população, com escolas fechadas, universidades transferidas para o ensino on-line e famílias obrigadas a abandonar suas casas.
Com o passar do tempo, a sociedade começou a encontrar formas de se reorganizar, embora a estabilidade permaneça relativa diante da ameaça constante de drones, mísseis e novos ataques.
O que mais impressiona o padre Mykhaylo é a capacidade dos jovens de continuar acreditando no amanhã.
Para os salesianos, a educação representa uma missão que vai além da transmissão de conhecimentos: significa oferecer esperança, ajudar a superar o medo e acompanhar as novas gerações na reconstrução de suas vidas.
A guerra feriu profundamente uma geração, mas também revelou solidariedade, maturidade e uma extraordinária capacidade de resistência.
Esporte e acolhimento para superar as feridas da guerra Entre as iniciativas promovidas pelos salesianos está uma equipe de futebol para amputados, criada há aproximadamente dois anos.
O projeto nasceu do compromisso de oferecer novas possibilidades às pessoas que sofreram mutilações em consequência do conflito e se somou à escola de futebol tradicional da instituição, que acolhe quase 400 jovens.
Segundo o padre Mykhaylo, cerca de 85% dos integrantes da equipe de futebol para amputados sofreram ferimentos graves durante a guerra.
A iniciativa, inicialmente apoiada pelos salesianos, foi posteriormente incorporada à Federação Ucraniana de Futebol.
Atualmente, o país conta com cerca de 20 equipes dessa modalidade.
O esporte, porém, não se limita à prática esportiva.
Diante das mais de 50 mil pessoas, entre civis e militares, que sofreram amputações na Ucrânia, o projeto busca oferecer também apoio psicológico e espiritual.
A atividade física torna-se, assim, um instrumento de reabilitação, convivência e retomada da vida, ajudando os participantes a redescobrir suas capacidades e a construir novos vínculos.
Educar para a paz em meio ao conflito A formação dos jovens permanece entre as prioridades da missão salesiana.
Escolas de formação profissional, ginásios, casas de acolhimento, associações esportivas e residências universitárias fazem parte dos esforços para oferecer condições de desenvolvimento às novas gerações e contribuir para a futura reconstrução do país.
Educar para a paz, entretanto, exige reconhecer a gravidade da realidade enfrentada pela população.
Para o padre Mykhaylo, a paz desejada para a Ucrânia deve estar fundamentada na justiça e no respeito à liberdade e à dignidade do povo ucraniano.
O sacerdote ressalta que não é possível exigir uma reconciliação imediata daqueles que perderam familiares, amigos ou suas próprias casas.
O perdão precisa de tempo, e as feridas provocadas pela violência exigem acompanhamento.
A missão educativa consiste também em impedir que o ódio e a vingança se tornem os princípios que orientem o futuro dos jovens.
Nesse sentido, a educação é uma contribuição concreta para a construção da paz.
Ao oferecer espaços de formação, convivência e diálogo, os salesianos procuram ajudar os jovens a lidar com o sofrimento sem permitir que a guerra determine definitivamente suas escolhas e relações.
Solidariedade entre cristãos e acolhimento aos deslocados A colaboração entre salesianos de diferentes tradições eclesiais constitui outra dimensão importante desse trabalho.
Na Ucrânia, atuam religiosos de rito bizantino-ucraniano e de rito latino, estes últimos ligados à Inspetoria Salesiana de Cracóvia, na Polônia.
Apesar das diferentes estruturas eclesiais, todos compartilham a mesma missão educativa.
A guerra também fortaleceu a cooperação entre comunidades cristãs.
Em Vynnyky, nas proximidades de Lviv, os salesianos acolhem pessoas deslocadas internamente.
Além disso, colaboram com a prefeitura de Lviv na gestão do Campus Mariapolis, que abriga aproximadamente mil pessoas, em sua maioria pertencentes à tradição ortodoxa ou a outras confissões cristãs.
O trabalho inclui assistência material, acompanhamento espiritual e apoio às necessidades concretas das famílias.
Alguns religiosos também se deslocam para regiões próximas à linha de frente, levando ajuda e conforto à população e aos militares.
Diante do sofrimento humano, explica o sacerdote, as diferenças confessionais passam para segundo plano.
Mesmo quando não é possível modificar as circunstâncias impostas pela guerra, permanece a possibilidade de oferecer proximidade e fazer com que cada pessoa saiba que não está sozinha.
Cooperação internacional e uma futura Escola da Paz A solidariedade internacional tem contribuído para sustentar as iniciativas salesianas.
A parceria com a Comunidade da Missão Dom Bosco (CMB), por meio de Guido Pedroni e de sua associação, fortaleceu-se com o início da guerra, especialmente no apoio às pessoas deslocadas acolhidas nas obras salesianas.
A colaboração também proporcionou a alguns animadores e jovens das casas-família a oportunidade de passar duas semanas na Itália, hospedados por famílias durante o programa de férias de verão para crianças e adolescentes conhecido como Estate Ragazzi.
A experiência permitiu que os participantes vivenciassem a fraternidade, o acolhimento e a proximidade de outras comunidades.
Entre os projetos para o futuro estão a ampliação dos intercâmbios entre animadores, o fortalecimento da cooperação educativa e a possibilidade de criar uma Escola da Paz.
A proposta é preparar os jovens para a reconciliação, a responsabilidade e a convivência fraterna, oferecendo instrumentos para que se tornem protagonistas de uma sociedade mais justa.
Reconstruir também o coração das pessoas O padre Mykhaylo destaca que a proximidade da Igreja Católica se manifesta na ajuda material, nas missões salesianas, nas organizações de caridade e na oração de cristãos de diferentes partes do mundo.
Saber que não foram esquecidos representa, segundo ele, uma fonte de força para aqueles que enfrentam as consequências do conflito.
A reconstrução da Ucrânia, porém, não poderá se limitar às casas, escolas e cidades destruídas.
Será necessário cuidar também das pessoas, das famílias e das comunidades marcadas pela violência e pelas perdas.
É nessa missão que os salesianos reconhecem uma de suas principais responsabilidades: acompanhar os jovens, oferecer-lhes educação e ajudá-los a recuperar a confiança no futuro.
A esperança, nesse contexto, não significa ignorar o sofrimento nem minimizar a guerra, mas criar condições para que a dor não tenha a última palavra.
A mensagem do padre Mykhaylo aponta para o sentido mais profundo da presença salesiana no país: “Educar os jovens hoje significa construir desde já a Ucrânia de amanhã.” Em meio à guerra, cada oportunidade de aprender, cada gesto de solidariedade e cada espaço de acolhimento tornam-se sementes de uma paz que deverá nascer da justiça, da dignidade humana e da fraternidade. *Com Agenzia Info Salesiana