No aniversário do assassinato do padre de Palermo pelas mãos da máfia, seu bairro dá continuidade à obra de acolhimento e prestação de serviços à população. Maurizio Artale, presidente do Centro Padre Nostro, recorda sua figura e seu legado às novas gerações
[ Audio Embed Ouça e compartilhe] Federico Tonini - Vatican News O bairro de Brancaccio, localizado na periferia sudeste de Palermo, não conta mais apenas a história dramática de um padre vítima da máfia, mas mostra uma comunidade que cresceu em torno do método de padre Pino Puglisi, mesmo nos anos seguintes ao seu assassinato, em 15 de setembro de 1993, no dia de seu 56º aniversário.
É o que destaca à mídia vaticana Maurizio Artale, presidente do Centro Padre Nostro, associação fundada por Puglisi em 1991 e inaugurada em 1993, dedicada à reabilitação de jovens em situações de vulnerabilidade e em risco de serem recrutados pelo crime organizado.
Uma presença silenciosa Um dos primeiros temas destacados pelo presidente do Centro é o método: o padre Pino não combatia a máfia com declarações ou manifestações, mas, explica Artale, “havia aberto um espaço onde acolhia a todos, mesmo aqueles que não compartilhavam sua fé.
Sua abordagem consistia em estar ao lado dos outros nos momentos de necessidade.
É por isso que ele se preocupou com a falta de água em Brancaccio, com a falta de escolas e creches”.
Não era um padre “antimáfia com escolta”, mas alguém, ressalta ele, que “atuava dentro da paróquia e do centro” sem que quase ninguém percebesse.
Justamente essa presença discreta, sem gestos espalhafatosos, fazia de Puglisi um “sinal de alarme” aos olhos da Cosa Nostra.
Artale lembra uma escuta em que o chefe mafioso Totò Riina, logo após a beatificação do padre, em 25 de maio de 2013, comentava com outro detento sobre a época em que o padre chegou a Brancaccio e o fato de ter aberto o centro Padre Nostro sem sequer pedir permissão.
Segundo Artale, esse foi o verdadeiro motivo da hostilidade da máfia: o fato de uma pessoa ter se enraizado no território a ponto de se tornar um ponto de referência. [ Read Also ] O legado de padre Pino Puglisi É desse método que nasce o legado ainda tangível de padre Pino: a transformação do bairro de Brancaccio.
Artale descreve isso como a concretização de um projeto de longo prazo: “O bairro mudou muito.
O sonho que Puglisi tinha de melhorar essa região se traduziu em muitos pontos de encontro e inúmeros serviços.
Aquele grão de trigo que caiu, que se pensava que morreria na terra, na verdade rendeu muitos frutos.
Hoje temos a escola de ensino médio, tão desejada por ele, e estamos construindo creches.
Também surgiu o centro para idosos, juntamente com o centro de convívio para jovens e menores e o centro polivalente, um local que acolhe mães vítimas de abuso e maus-tratos”.
Em suma, são inúmeros os serviços criados após o sacrifício de Puglisi.
Cada estrutura responde a uma lacuna que o padre Pino já havia identificado durante os anos de sua atuação em Brancaccio.
Há ainda um tema menos conhecido deixado pelo padre Pino, que se refere àqueles que se encontram na prisão. “Na véspera de Natal de 1992 – conta Artale – Puglisi enviou uma carta aos detentos da prisão de Ucciardone, na qual lhes dizia estar ciente de seus erros e do caminho de expiação que estavam enfrentando, mas os tranquilizava dizendo que, se assim desejassem, os voluntários iriam visitá-los e que, uma vez em liberdade, encontrariam as portas do Centro de Acolhimento Padre Nostro abertas, prontas para recebê-los”.
Esse também é um serviço que o Centro continua oferecendo há muitos anos, uma forma de proporcionar uma alternativa concreta àqueles que, ao saírem da prisão, correm o risco de voltar aos mesmos círculos em que estavam envolvidos. [ Photo Embed: O Centro Padre Nostro em Palermo, na Sicília] Um aspecto pessoal Por fim, há um aspecto pessoal que Artale relata para explicar como um legado pode ser transmitido mesmo sem um encontro direto: “Vi o padre Pino Puglisi pessoalmente apenas uma vez, durante uma procissão religiosa em 1993, e, na verdade, nem sequer trocamos olhares.
Achei curioso que ainda houvesse padres que realizassem a procissão eucarística com o ostensório e o baldaquino.
Então parei, intrigado.
Quando, alguns meses depois, recebi a notícia de seu assassinato, compreendi a grandeza desse homem”.
À pergunta sobre a mensagem a ser transmitida àqueles que desejam continuar a levar adiante os valores de padre Pino, Artale responde: “Devemos, em primeiro lugar, estar motivados.
Uma coisa é ter uma abordagem puramente social, o que, de qualquer forma, é algo importante; outra coisa é deixar que a alma seja tocada por esse homem que nos guia.
Padre Pino Puglisi nos guiou durante esses 33 anos; sem o seu exemplo e sem a sua presença diária, nunca teríamos conseguido realizar tudo isso”.
Quem trabalha no Centro Padre Nostro, portanto, não se considera um simples agente, mas um missionário, exatamente como Puglisi foi em sua época. “Sem o exemplo de padre Pino – conclui Artale – e sem sua presença diária, nenhum dos serviços criados em Brancaccio nas últimas décadas teria sido possível”.
Na tarde deste 15 de setembro, para celebrar o 33º aniversário do martírio, a Catedral de Palermo acolhe uma cerimônia religiosa, presidida pelo cardeal arcebispo de Nápoles, Domenico Battaglia.