Nesta terça-feira, 8 de setembro, festa da Natividade da Bem-Aventurada Virgem Maria, Pe. Maicon Malacarne reflete sobre o nascimento de Maria, "uma inversão daquilo que o nosso tempo exalta: a força, o poder, o domínio, o controle, a produção. Deus nos diz, com Nossa Senhora: bendita simplicidade, bendito silêncio, bendita pequenez, bendita liberdade... porque é assim que Deus encontra uma terra boa, aberta à possibilidade de nascer uma semente nova. O Senhor nos convida a assumir a pequenez".
Pe.
Maicon A.
Malacarne* O profeta Miqueias anuncia: “Tu, Belém de Éfrata, pequenina entre os mil povoados de Judá, de ti há de sair aquele que dominará em Israel” (Mq 5,1).
A profecia sobre a pequena Belém, que bem mais tarde será conhecida por acolher o Menino Jesus, oferece uma espécie de mapa para compreender a festa da Natividade da Bem-Aventurada Virgem Maria, nesta terça-feira.
Aos olhos do mundo, o nascimento de uma menina pode passar despercebido.
Não há multidões, nem anúncios, nem fotografias, nem grandes aplausos.
Mas justamente ali, no escondimento da vida, Deus prepara a sua presença: “presença escondida no ventre”, escreveu o filósofo Jean-Luc Nancy.
Maria é a “pequenina de Deus” que acolherá um projeto grande, um “sim” que mudará para sempre a história.
O nascimento de Maria recorda-nos a pedagogia de Deus: no princípio, a pequenez; no princípio, o ordinário da vida; no princípio, a insignificância do real.
Deus vai abrindo espaços, “na lei do mansinho”, diria Guimarães Rosa, com respeito aos tempos de cada pessoa.
A pequenez transformada por Deus não deixa de ser pequenez: torna-se pequenez fecunda, pequenez abundante, lugar onde a vida pode florescer.
O nascimento de Maria é, nesse sentido, uma inversão daquilo que o nosso tempo exalta: a força, o poder, o domínio, o controle, a produção.
Deus nos diz, com Nossa Senhora: bendita simplicidade, bendito silêncio, bendita pequenez, bendita liberdade... porque é assim que Deus encontra uma terra boa, aberta à possibilidade de nascer uma semente nova.
O Senhor nos convida a assumir a pequenez, a instabilidade e até mesmo as contradições dos nossos dias.
Esse é um ponto de partida importante para a vida espiritual.
Não precisamos apresentar ao Senhor as nossas máscaras, os nossos disfarces “de bondade”, aquilo que gostaríamos de ser aos olhos dos outros.
Podemos apresentar aquilo que realmente somos: frágeis como vasos de barro, que somente encontram descanso quando se deixam repousar nas mãos do Divino Oleiro.
Talvez a resposta mais bonita e mais importante da vida seja, como Maria: “Eis-me aqui!”.
Afinal, como escreveu Ermes Ronchi, esse é “o nosso verdadeiro nome.
O nome de cada ser humano é ‘eis-me aqui’”. * professor de Teologia Moral e pároco da Paróquia São Cristóvão - diocese de Erexim/RS