A Verdade que recebemos é dom e responsabilidade, e ninguém a possui como quem guarda um cofre. Quando ela vira motivo para olhar de cima, deixa de ser reconhecida como verdade, porque a verdade cristã tem o rosto de quem lavou os pés dos discípulos.
Padre Marcio Tadeu Quem trabalha em meios de comunicação aprende cedo uma lição humilhante: o controle está na mão da audiência e sempre estamos sujeitos a um clique.
Pode-se até falar a verdade e ter razão, preparar bem um roteiro, mas, se a pessoa do outro lado não se sentir buscada, ela com um clique troca de conteúdo.
Tenho pensado nisso ao olhar para o modo como a Igreja se apresenta hoje à sociedade brasileira, e a conclusão me incomoda.
Temos falado muito e somos pouco escutados.
Antes de qualquer discussão pastoral, é preciso reconhecer que o problema começa no coração, e se chama soberba.
A Bíblia não a trata como um defeito de caráter qualquer.
Ela a trata como o pecado originário, "a arrogância precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda" (Pv 16,18).
Não é metáfora, é um diagnóstico.
A soberba é o gesto do homem que se fecha em si mesmo e se coloca no centro.
Não faltam, na história, sistemas autocráticos nascidos da mesma matriz do pecado do Éden: "sereis como deuses" (cf.
Gn 3,5).
A soberba, quando entra no terreno das ideias, ganha um nome: ideologia.
Ideologia é uma verdade parcial que se promove a verdade inteira e, por isso mesmo, deixa de ouvir o diferente.
Quem a carrega já sabe a resposta antes de ouvir a pergunta.
Isso vale para o intelectual que descarta a fé sem muito interesse em conhecê-la, mas vale também para nós, e aqui falo dentro de casa: há quem se julgue dono da ortodoxia e há quem se julgue dono da abertura, e os dois se parecem demais no gesto de dispensar o interlocutor.
A ideia das janelas abertas atribuída a São João XXIII resume bem o espírito do Concílio do Vaticano II.
Passados mais de sessenta anos, tenho a impressão de que avançamos abrindo muitas frestas, mas não estamos ainda de janelas abertas.
Somos bons em receber, convidamos, mas marcamos o encontro no nosso território, na nossa linguagem, no nosso horário.
Anunciamos a Boa Nova com vocabulário de documento eclesial.
Depois nos surpreendemos porque as pessoas não vêm.
A Igreja ainda está, em boa medida, fechada, e a chave não está por fora.
É aqui que entra a palavra que mais usamos atualmente e menos praticamos: sinodalidade.
Caminhar juntos exige escutar de verdade, e escutar de verdade é aceitar o risco do diferente ter razão.
Quando a consulta sempre termina onde já pretendíamos chegar, o que sobra é encenação com ata e fotografia.
Não consigo imaginar como alguém diz escutar sem humildade.
A sinodalidade (syn-hodos), caminhar juntos, exige humildade de verdade.
E essa atitude é reconhecida com sinais simples, com disposição de mudar de ideia, de perder o argumento, de ouvir o outro até o fim.
Se nossos encontros sinodais já têm as conclusões prontas antes da primeira reunião, se a escuta é apenas protocolar, se quem pensa diferente é visto como suspeito, não tratamos de sinodalidade, mas de burocracia pastoral.
É a soberba vestida em roupagem dogmática.
O Concílio indicou outro caminho, a Gaudium et Spes inincia afirmando que "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje" são também as dos discípulos de Cristo (GS 1), e logo em seguida declara que o Concílio dirige sua palavra a todos os homens, não só aos filhos da Igreja (GS 2).
Ela ainda nos atribui o dever de investigar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho (GS 4).
Primeiro investigar, depois interpretar, pois, neste caso, a ordem importa.
O Papa Leão XIV realizou, ao longo deste ano, catequeses sobre o Concílio Vaticano II, em setembro abordou justamente esse documento na série de catequeses das audiências de quarta-feira, lembrando que a Igreja sente como suas as alegrias e angústias do homem de hoje, sobretudo dos pobres.
O saudoso Papa Francisco, na Evangelii Gaudium, foi direto: "Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas" (EG 49), em lugar de uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças.
Tenho uma admiração sincera por todos os teólogos, por tudo que produzimos nas últimas décadas, mas sinto que o problema é o endereço.
Boa parte desse material circula entre quem já concorda, é citado por quem já leu e discutido em assembleias fechadas, por vezes cheias de peritos.
Francisco pediu-nos que não nos contentássemos com uma "teologia de escritório" (EG 133), e esse pedido continua atual.
Paulo, em Atenas, ensina a maneira correta: no Areópago ele não começa condenando os atenienses, começa pelo altar dedicado ao deus desconhecido que ele viu pela cidade e chega a citar poetas gregos antes de falar da ressurreição (At 17,22-31).
Parte do que o outro já tem na cabeça.
Pedro resume o método em uma instrução: estar sempre pronto para dar razão da esperança, mas com mansidão e respeito (1Pd 3,15).
A mansidão vem junto com a resposta, Verdade e Caridade são siamesas.
Senão corremos o risco de falar para o espelho.
Tenho a impressão de que vivemos um W.O. do pensamento católico capaz de influenciar a sociedade.
Quando o debate público trata de vida, família, trabalho e tecnologia, a cadeira que deveria ser ocupada por um pensador católico de alcance amplo muitas vezes fica vazia.
E, pior, ninguém nos tirou dela, nós é que não aparecemos, ocupados com nossas preocupações internas.
Tudo isso fica mais grave agora, quando a sociedade se digitalizou, e muita gente conversa todos os dias com sistemas que respondem em segundos.
Perguntas antigas voltam com roupagem nova: o que é inteligência, o que é uma pessoa, em quem confiar, o que será do trabalho.
A Magnifica Humanitas inspira um florescer ético para a humanidade que conviverá cada vez mais com as IAs.
Assim, somos convidados a enfrentar o tema com sabedoria, pois há muita incerteza no ar, e a maioria das pessoas sabe que não sabe.
É exatamente aí que a Igreja tem o que dizer, porque quem admite não ter resposta pronta para tudo passa a ser ouvido quando tem uma resposta verdadeira a oferecer.
Talvez devamos realinhar nossa pauta, o que quer dizer começar pelas perguntas que as pessoas de fato fazem e só depois oferecer o que recebemos como depósito da fé.
A doutrina permanece intacta, o que muda é o ponto de partida do diálogo.
A Verdade que recebemos é dom e responsabilidade, e ninguém a possui como quem guarda um cofre.
Quando ela vira motivo para olhar de cima, deixa de ser reconhecida como verdade, porque a verdade cristã tem o rosto de quem lavou os pés dos discípulos.
A humildade deixa intacto tudo o que cremos e tira apenas a pose.
Sem essa pose, talvez consigamos mostrar a uma sociedade cansada e ansiosa diante de máquinas que falam, aquilo que sempre tivemos para oferecer: Jesus Cristo, o Salvador, a partir do que é Belo, Justo e Bom.
Padre Marcio Tadeu - Sacerdote na Diocese de Votuporanga(SP), Pároco, Professor, Pós-graduado em Bioética pela Cátedra da UNESCO e Apresentador na RedeVida