Dom Vitorino Soares deu entrada naquela diocese do sul do país no mês de setembro, tendo afirmado que “a Igreja não pode estar calada" onde "houver fome, discriminação e perseguição”.
Rui Saraiva – Portugal O novo bispo do Algarve promete proximidade às populações daquela diocese de Portugal.
Assegura que não irá ficar calado porque “a Igreja tem que ser a voz de Jesus Cristo”. “Onde houver mal, onde houver discriminação, onde houver perseguição, onde houver solidão, a Igreja não pode estar calada”, declara D.
Vitorino Soares em entrevista à Renascença e Agência Ecclesia.
O bispo do Algarve foi entrevistado pelos jornalistas Henrique Cunha da Renascença e Octávio Carmo da Agência Ecclesia.
Tem já algumas prioridades alinhavadas para este início de trabalho de missão episcopal?
A minha grande prioridade vai ser a sequência disto que foi a minha pré-época agora, há 15 dias atrás, que é conhecer de facto, e para conhecer é preciso estar, é preciso ouvir e é preciso esse contacto pessoal.
Esta é a primeira fase, depois daí surgirão naturalmente os planos.
Não vou fazer planos sem conhecer a realidade e esta é a grande prioridade, conhecer para depois então poder atuar com as pessoas naturalmente, envolvendo também e permitindo que outros possam participar e sobretudo me possam ajudar a fazer luz para que em comum nós possamos então também fazer este caminho da Igreja nesta diocese do Algarve.
E esse conhecimento passa também pelo contacto com as populações mais isoladas, sobretudo na Serra Algarvia?
Será também uma prioridade?
Eu tenho um propósito, eu não sei se eu o devia revelar porque também nem sequer falei com o Clero.
Este é um sonho que eu tenho, que agora vou dialogar com o Clero, e que era de facto passar pelas paróquias todas.
Eu não acho que isso seja um plano, mas esta era uma proposta de estar com os párocos, de estar com as paróquias, com as comunidades, seja no litoral, seja no interior, sejam paróquias mais ricas, mais pobres, mais populosas, mais envelhecidas ou mais isoladas.
Não traduzia isso como um plano, mas como um sonho que eu levo dentro de mim e que vamos ver se consigo fazer nestes primeiros tempos.
E celebrar Eucaristia ao fim de semana em comunidade, acho que vai ser compatível e, portanto, essa vai ser a minha forma de estar e é por aí que vou começar.
Voltando ao facto de ser uma diocese muito diversa, em que há uma população muito heterogénea e que aumenta também nesta altura do verão; imagino que do ponto de vista pastoral seja um desafio interessante?
Pois, eu suponho que o desafio vai ser interessante durante as 52 semanas do ano, mas haverá ali umas 8 semanas, acredito, sei lá, entre o 15 de julho e o 15 de setembro, mais intensas, onde os destinatários acabam por ser outros.
Acredito, que há ali grandes mediadores, que serão naturalmente os párocos e comunidades, que me ajudarão também a aproximar dessa realidade.
Às vezes aqui no Porto, já tinha um bocadinho essa sensação de que parece que estamos estranhos, não estamos na nossa terra, não ouvimos a nossa língua... e assim o primeiro impacto é um pouquinho estranho, mas é essa a realidade e é aí também que temos que entrar: E espero que com a colaboração daqueles que já conhecem exatamente esses momentos intensos e altos de presença no Algarve, eu também possa integrar e possa também acompanhar e ser uma ajuda nessas situações.
Vou ter que desenvolver um bocadinho o meu inglês… E vai apostar nas Eucaristias em inglês?
Também, sim, acho que sim, acho que havendo destinatários, acho que também temos que nos adaptar às pessoas que ali estão e tenho também que afinar o meu exercício de natação.
Com tanta água tenho que também ter cuidado, porque nem sempre as águas são serenas e por isso é preciso estar apto e preparado para tudo.
Há muita praia!
Sim, porque na prática era isso que eu conhecia e com certeza é isso que também está na mente de muitos portugueses.
Acredito que há muita gente ali a trabalhar, mas com certeza o maior conhecimento que temos é da praia, é aquela zona litoral naturalmente que é mais apetecível, mas o Algarve é mais do que isso e também é mais rico do que isso.
Há aí outras áreas a conhecer e a procurar que também têm o seu valor.
Voltando a este grupo de pessoas, tanto aquelas que se fixaram vindas de fora como aquelas que passam regularmente, são um desafio ou são um problema?
Eu não vejo como problema, porque quando nós fixamos a missão, já estamos com certeza a adulterar a missão e a missão que Jesus pede à Igreja está sempre para além daquilo que é aquilo que nós sonhamos ou imaginamos.
A realidade muitas vezes ultrapassa isso, mas eu acredito que a graça de Deus ultrapassa a própria realidade.
Neste sentido, como diz o Papa Leão XIV, uma mão com certeza que não consegue segurar os desafios todos, mas várias mãos são capazes de suportar exatamente esta missão que não está planeada, porque a presença dessas pessoas surpreende e naturalmente é importante essa atenção à realidade para também as poder integrar, como dizia o Papa Francisco, é acolher, é acompanhar, é promover, integrar e portanto são esses quatro eixos que caem assim como uma luvazinha nesta realidade algarvia.
Queria fixar-me um pouco na questão da integração para falar da forte implementação de imigrantes na região.
Como é que pensa apoiar e valorizar do ponto de vista pastoral esta população que é mais vulnerável?
Eu não tenho os diagnósticos feitos, mas eles com certeza já estarão feitos e não faltam com certeza já números.
A dificuldade depois é naturalmente dar resposta, depois de conhecer.
Esse trabalho já vai sendo feito, eu sei que através da Cáritas diocesana, alguns grupos também caritativos nas paróquias, estão atentos a essas populações, a esses homens e mulheres, famílias concretas, porque esta é a dificuldade da Igreja em todos os tempos, não é só agora no Algarve, nem só com a chegada de novos imigrantes.
É ir ao encontro das pessoas e saber também das dificuldades delas, das necessidades e naquilo que é possível, nos meios que possuímos, naturalmente poder também permitir que se sintam pessoas, que se sintam humanas, com obrigações, com certeza, mas também com direitos e que no dia a dia sintam que também são uma imagem de Deus como qualquer outro, independentemente da cultura, independentemente da origem, independentemente da cor, continuam a ser irmãos, como todos.
Eu pergunto-lhe também nesse sentido, dado que é inquestionável a presença de tantos imigrantes no Algarve, se vai ser uma voz na defesa daquilo que estava a dizer, dos seus direitos e no combate aos populismos e àqueles que diabolizam os imigrantes?
A igreja tem que ser a voz de Jesus Cristo, portanto, eu escutando Jesus, vou ter que ir ao encontro totalmente daquilo que ele faria hoje, se aqui estivesse, e aquilo que nós conhecemos no nosso histórico foi exatamente essa atenção, sobretudo àqueles que nem sempre tinham o primeiro palco, o primeiro plano naquilo que era a preocupação quer das instituições religiosas ou políticas da época.
E, portanto, são essas franjas que vão merecer uma atenção maior, depois responder, vamos ver, mas pelo menos denunciar é fundamental.
Não podemos ficar calados; podemos não resolver os problemas, mas podemos ser esses sensores que alertam para que outros também possam responder, que eu acho que também é bom ter presente, porque muitas vezes imaginamos que a igreja é que vai ter solução para tudo e vai resolver tudo.
Não tem, e, portanto, temos que ter a noção que há outros que também trabalham como nós, há outros que também têm capacidades como nós, há outros onde Deus também está presente.
Portanto às vezes passa um bocadinho por aí… é o lembrar, é o recordar, é o sensibilizar para que também possam participar e se possam envolver na procura de algumas respostas naturalmente.
Agora onde houver mal, onde houver fome, onde houver discriminação, onde houver perseguição, onde houver solidão, a igreja não pode estar calada, não é só no Algarve, é em qualquer parte do mundo.
É este sinal também, é esta marca que estamos convidados a promover e naturalmente a fazer chegar àqueles que mais necessitam.
No dia 19 de setembro, D.
Vitorino José Pereira Soares iniciou na Sé de Faro o seu ministério como bispo do Algarve.
Na sua homilia assinalou que o seu serviço naquela diocese “constitui um enorme desafio pastoral, mas também uma extraordinária oportunidade missionária”. “Governo nunca é poder, é cuidado”, afirmou D.
Vitorino Soares.
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