Portugal. “Ecologia Digital”: “nós não existimos sem relação cara a cara”

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Portugal. “Ecologia Digital”: “nós não existimos sem relação cara a cara”
Fonte: VATICANO

No livro “Ecologia Digital” a Universidade Católica Portuguesa propõe uma reflexão crítica sobre os desafios éticos, sociais e ambientais da transformação digital. Partilhamos aqui o comentário de Luís Miguel Rodrigues, diretor da Faculdade de Teologia e um dos coordenadores da obra.

Rui Saraiva – Portugal O livro “Ecologia Digital” desafia o leitor a refletir não apenas sobre a forma como utilizamos a tecnologia, mas também sobre o modelo de sociedade que está a ser construído através dela.

Uma das ideias centrais da obra é a ligação entre a crise ambiental e a transformação digital.

Os autores lembram que as tecnologias dependem de recursos naturais, energia, infraestruturas e trabalho humano, defendendo que o impacto do digital deve ser avaliado também nas suas consequências ambientais, económicas e sociais. "O digital já faz parte da nossa vida" “Ecologia Digital” é um livro que resulta da investigação desenvolvida pelo CITER, o Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, integrando a coleção Cuidar da Casa Comum.

Luís Miguel Rodrigues, diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa é um dos coordenadores da obra, juntamente com os colegas daquela universidade, Alex Villas Boas e Alexandre Palma e o contributo de Fabiano Incerti, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Em declarações à Agência Ecclesia, o padre Luís Miguel Rodrigues assinala que este projeto de investigação nasceu a partir da Encíclica “Laudato Si” do Papa Francisco. “Efetivamente este produto sai de um projeto de investigação amplo que desenvolvemos no nosso Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião (CITER), que foi pensado a partir da publicação da “Laudato Si” do Papa Francisco.

E na altura já nós apercebemos que o conceito de ecologia não podia ser estranho também ao ambiente digital.

Por isso, nesse projeto, coordenámos esta linha de pesquisa, esta linha de investigação, que nos ajudou a perceber que efetivamente o modo como estamos no ambiente digital e o modo como estamos nos outros ambientes, interagem, são similares e um e outro, digamos assim, fazem-se.

Essa foi, digamos assim, a matriz que nos levou a desenvolver toda esta pesquisa, porque o modo como estamos e usamos o digital faz-nos e condiciona o resto da nossa vida.

O conceito de ecologia como o espaço onde nós vivemos.

Há, por exemplo, um texto da professora Gemma Serrano que é “Ecrã Casa”: eu moro não numa casa que tem um ecrã, mas eu moro dentro desse ecrã.

É o ambiente que eu frequento, é o ambiente que me faz.

Se me permite, vou-lhe dar uma imagem para ilustrar aquilo que eu lhe quero dizer: nós, por exemplo, podemos pensar a nossa casa com os diversos compartimentos, as paredes fixas, a luz que nós controlamos, mas quando entramos no mundo digital, a nossa casa como que se transforma.

Como se tivesse paredes de vidro, tivesse imagens a circular, controlasse a largura dos corredores, sem que nós fizéssemos nada para isso.

O que faz com que as imagens que nós vemos, o som que nos chega, as mensagens que nos dizem, nos vai condicionando a nossa forma de ser e de estar no mundo.

Portanto, o mundo digital não é um ambiente estático, nem é um ambiente que eu posso, digamos assim, desligar.

Por isso hoje, mais do que on-off, é on-life.

Estamos inseridos neste mundo.

E ao estarmos inseridos neste mundo, este mundo é o mundo que nós habitamos, por isso é o mundo que também que nos faz, também que nos condiciona.

E nós também o habitamos a partir dos nossos valores e das nossas convicções.

Por isso, isso é um outro texto que nós temos que fala sobre o pós-digital, neste sentido em que já não faz sentido uma vida digital e uma vida não digital, porque o digital já faz parte da nossa vida, mesmo quando nós não estamos a usar um dispositivo digital”, diz o sacerdote. “Perante esta realidade, como é que eu quero viver?” Para o diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa “nós não existimos sem relação cara a cara, sem corpo, sem carne”. “Porque o problema não está no modo como o usamos.

O problema está em, para citar o Papa, para ser mais assertivo: que tipo de pessoa, que tipo de ambiente, que tipo de relação nós queremos preservar.

Porque sabemos que o digital nos dá aquela sensação, vou voltar à imagem da casa, que tem muitos ecrãs, tem nas paredes de vidro, com muita gente lá a ser projetada e a falar, mas efetivamente eu estou sozinho.

E o digital tem esta utopia, ou esta mitologia, melhor dizendo, que nos vai criando aquela ideia de que, se eu estiver inserido neste mundo, eu tenho o melhor mundo possível.

Isso é um engano.

Efetivamente, nós não existimos sem relação cara a cara, sem corpo, sem carne, sem... relações humanas em sentido lato.

Eu neste mundo quero viver desta forma ou quero viver de outra.

Isto não é a primeira vez que acontece na humanidade.

Por exemplo, quando fizemos a globalização, podíamos optar pela globalização económica ou pela globalização humana, que respeita o ser humano.

O problema que se coloca é, o mundo está aí, a realidade é esta.

Perante esta realidade, como é que eu quero viver?

Quem é que eu quero ser?

Que opções é que eu tomo?

Como andar na estrada, implica capacitar-se para conduzir, é preciso desenvolver alguma literacia mediática e, sobretudo, digital.

Acho que há duas aprendizagens que é preciso fazer: A dúvida, conhecer a dúvida, ou seja, treinar a dúvida.

Não acreditar logo, perceber o porquê.

E além da dúvida, procurar perceber as motivações que estão por trás daquilo que me é apresentado.

E depois há uma ideia também muito interessante que nós percebemos, é que nem todas as culturas se dão em todos os ambientes.

Para usar uma imagem da agricultura, nem todas as culturas crescem na mesma época do ano, nem em todos os terrenos.

Por isso, há ideias, há conceitos que para nós seres humanos são muito importantes e que não têm um ambiente propício no ambiente digital.

Dou-lhe o exemplo dos dois ou três termos aqui sobre amizade.

O que é que nós entendemos por amizade?

É uma amizade porque tenho muitos seguidores que põem lá um like ou um coraçãozinho nas minhas mensagens?

Ou tenho efetivamente amigos com quem posso partilhar o meu coração?

Será que eu que estou habituado e que prezo a amizade, que tenho amigos com quem posso partilhar o meu coração, me sinto confortável ao dizer que tenho não sei quantos amigos nas redes sociais.

Usar a palavra amigos aqui não me causa estranheza?

Portanto, este desconfiar e este treinar para perceber a dúvida é importante.

Se eu estou a usar um dispositivo digital e não me interessa nada, ponho fora.

Outra coisa, ponho fora.

Eu vou criando aquela sensação de que aquilo que não me interessa posso descartar.

Eu depois passo essa prática para o meu dia-a-dia e então começo a não cuidar daquilo que é comum.

Como também tenho uma segunda implicação, por exemplo, se aquilo que eu digo nas redes digitais, nos sites, nas minhas experiências digitais, vai construir aquilo que é a inteligência coletiva, o saber comum, eu partilho ou digo aquilo que edifica e que é bom.

Eu não vou ser outra pessoa quando estou no digital.

Eu tenho que manter a mesma atitude, a minha identidade, digamos assim, quer esteja no digital, quer não esteja.

Por isso, os rios e os algoritmos poluem-se.

O rio polui-se quando eu deixo o meu lixo de forma descontrolada e o algoritmo polui-se quando eu deixo informações erradas, contraditórias ou violentas”, sublinha o professor de Teologia.

Com prefácio de Antonio Spadaro, subsecretário do Dicastério para a Cultura e a Educação, “Ecologia Digital” reúne contributos de investigadores das áreas da teologia, filosofia, comunicação, educação e cultura digital, procurando oferecer critérios para uma utilização da tecnologia mais humana, responsável e sustentável.

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