Ao tratar da autoridade, Padre Porreca, pároco da Paróquia São Sebastião/Mococa-SP, retorna à sua raiz latina: auctoritas, derivada de auctor, aquele que faz crescer, nutre, fortalece e promove vida. Em sua origem, a autoridade — ainda que envolva um grau de direção, administração e organização — não é domínio ou subjugação, mas a capacidade de gerar crescimento no outro e sustentar e favorecer a vida.
*Pe. Wladimir Porreca Prosseguindo em suas reflexões — fruto de seus estudos, da experiência presbiteral e pastoral e da atuação como psicoterapeuta pesquisador — o Padre Wladimir Porreca, da Diocese de São João da Boa Vista, aprofunda o tema da autoridade eclesiástica exercida por padres, bispos e responsáveis na vida consagrada. Neste texto, Padre Porreca, professor e pesquisador da Universidade de Brasília, se dedica a identificar e analisar alguns fatores de risco que emergem quando a autoridade eclesiástica se desvia de sua natureza evangélica de serviço, tornando‑se potencial fonte de sofrimento e adoecimento mental, tanto para quem a exerce quanto para aqueles que dela dependem. A reflexão seguirá adiante, num próximo texto, apresentando recursos para o exercício de uma autoridade eclesiástica verdadeiramente cristã e saudável — uma autoridade pastoral- Bom Pastor - capaz de promover autonomia, maturidade e liberdade, colaborando de modo fecundo com a saúde mental das pessoas que lhe são confiadas. Uma autoridade adoecida, adoece os que estão sujeitos a ela A autoridade de padres, bispos e responsáveis na vida consagrada constitui uma forma particularmente complexa de liderança, pois atua simultaneamente nos âmbitos espiritual, moral e comunitário envolvendo também dimensões afetivas, discernitivas, pastorais e institucionais. Essa autoridade não se limita ao exercício de funções administrativas: ela toca o íntimo das pessoas, orienta consciências, molda ambientes comunitários, inspira práticas de fé e influencia diretamente a saúde mental, espiritual e relacional das pessoas que acompanha. Essa articulação confere a padres, bispos e responsáveis na vida consagrada um poder singular e amplo sobre a vida daqueles que estão sujeitos a ela: influencia a interpretação e a condução do sofrimento e do adoecimento mental. Trata‑se de uma autoridade que não apenas organiza e administra a vida religiosa, mas também estrutura modos de sentir, pensar, pertencer e se relacionar consigo mesmo, com Deus e com os outros. Por isso, compreender a autoridade eclesiástica é essencial para avaliar seus efeitos sobre a saúde mental, que podem ser protetivos, ambíguos ou prejudiciais, conforme a formação dos líderes, a cultura comunitária e o modo como o poder é exercido. Autoridade e a Tradição Cristã Ao tratar da autoridade, Padre Porreca, pároco da Paróquia São Sebastião/Mococa-SP, retorna à sua raiz latina: auctoritas, derivada de auctor, aquele que faz crescer, nutre, fortalece e promove vida. Em sua origem, a autoridade — ainda que envolva um grau de direção, administração e organização — não é domínio ou subjugação, mas a capacidade de gerar crescimento no outro e sustentar e favorecer a vida. Na tradição cristã católica, além da imagem do Pastor, alcança sua plenitude no gesto de Jesus que tira o manto, cinge a toalha e lava os pés dos discípulos (cf. Jo 13,1–15). Ali, a autoridade evangélica se revela como serviço: cuidado que eleva, gesto que humaniza, presença que faz florescer (CIC, 1901). As contribuições de São Tomás de Aquino, Hobbes, Locke, Weber, Arendt, Guardini, Ricoeur e outros sobre a autoridade converge para o mesmo ponto: a autoridade só é ética e legítima quando nasce do diálogo, bom senso, reconhecimento, promove o bem comum e não se converte em dominação. “Entre vós não deveis ser assim...” (Mt 20,26) A autoridade eclesial católica também participa das dinâmicas próprias do poder (Foucault, 1976). Quando se afasta do Evangelho — deixando de ser cuidado e serviço — pode assumir diversas formas espiritualmente revestidas como de a) manipulação verticalizada, b) coerção abusiva, c) normatização excessiva, d) humilhação silenciosa, e) dependências afetivas e d) produção de culpa. Nessas condições, a autoridade torna‑se fonte de sofrimento e adoecimento mental, tanto para quem a exerce quanto para quem a recebe. Importa reconhecer que os sujeitos sob essa autoridade também podem reproduzir os mesmos mecanismos, criando dependências, manipulando afetos ou gerando culpa, o que adoece a relação e compromete o exercício cristão e salutar da autoridade. a) Quando o servo quer ser senhor (manipulação verticalizada) A manipulação emocional acontece quando a autoridade eclesiástica usa proximidade, elogios, barganhas ou vínculos afetivos para conduzir o outro, não para ajudá‑lo a crescer. Em vez de promover maturidade, cria dependência, infantiliza e bloqueia a autonomia, transformando o cuidado em sujeição e dependência — aquilo que Foucault (1976) descreve como produção de subjetividades submetidas. Quando a autoridade deixa de ser para o outro e se torna a poder sobre o outro, invade o espaço interior da pessoa, captura sua liberdade e converte confiança em dominação. A afetividade, que deveria sustentar o cuidado, passa a ser instrumento de controle. Guardini (1951) chama isso de “poder que perdeu sua alma”: quando a autoridade deixa de servir à verdade e ao bem do outro, e passa a servir ao interesse e fragilidades de quem a exerce. b) Quando o medo se torna autoridade (coerção abusiva) A coerção, acontece quando a autoridade eclesiástica recorre à pressão — explícita ou silenciosa — para garantir obediência: medo, ameaças, punições, constrangimentos ou exigências que deixam a pessoa sem liberdade interior. Quando isso ocorre, a autoridade deixa de ser serviço e passa a funcionar como força "diabólica” (forçar e impor alguém a permanecer dentro de um espaço que não escolheu). Ratzinger (1968) lembra que toda autoridade na Igreja deve ser persuasiva, racional, dialogal e orientada ao bem comum. Sempre que a autoridade abandona esses critérios e se apoia no medo ou na pressão psicológica, ela deixa de ser cuidado e se transforma em dominação. A coerção, no fundo, é sinal de uma autoridade insegura, que perdeu o rumo e já não confia na força do Evangelho. A autoridade eclesiástica passa, assim, a recorrer a uma “escuta surda”, quando finge ouvir, mas não acolhe de verdade o que o outro diz. O diálogo se torna apenas aparente: duas pessoas falando, mas apenas uma sendo considerada. Um monólogo a dois, onde não há liberdade e nem acolhida cristã para expressar sentimentos, dúvidas ou discordâncias, e a palavra do outro não encontra espaço para existir. São João Paulo II (VC, 1996) afirma explicitamente que a obediência, na vida consagrada, só é expressão da vontade de Deus quando nasce do diálogo. c) A norma excessiva que sufoca o discernimento sinodal A normatização excessiva surge quando a autoridade eclesiástica recorre a regras rígidas e numerosas - sobretudo litúrgicas e administrativas - para controlar comportamentos e decisões. Muitas dessas normas não nascem das necessidades reais da comunidade, mas da insegurança e fragilidade de quem lidera, que usa o excesso de regras como proteção para não ser questionado e para evitar que sua vulnerabilidade apareça. Assim, os regulamentos e regras substituem o diálogo e o discernimento, e a orientação deixa de ser cuidado para se transformar em vigilância e imposição, seja na paróquia, na diocese ou nas instituições e comunidades de vida consagrada. Esse modo de liderar produz o que Häring (1978) chama de heteronomia opressiva: a consciência é substituída pela obediência mecânica, a culpa vira instrumento de controle e a pessoa é infantilizada, perdendo autonomia e maturidade. Como lembra Rahner (1976), quem vive sob esse tipo de autoridade, sufoca a sinodalidade e as pessoas sujeitas a essa autoridade passam a ser tratadas como “criança” dependente e incapaz de decidir, tendo sua liberdade interior sufocada por estruturas que deveriam promover crescimento e discernimento. d) O silêncio que fere (a humilhação silenciosa) A humilhação silenciosa é uma violência que não grita, mas fere: a pessoa é ignorada, desqualificada por ironias, nunca reconhecida, nunca mencionada, sempre interpretada negativamente. Aos poucos, ela é tratada pela autoridade eclesiástica como alguém que “não conta”, e suas contribuições desaparecem ou são atribuídas a outros. É uma perseguição velada que isola, bloqueia o crescimento e atinge a dignidade sem deixar marcas visíveis. Esse modo de agir — invisibilizar, excluir, punir silenciosamente — é uma forma grave de abuso espiritual de autoridade. Quando impede o florescimento do outro, cria opressão espiritual e transforma o espaço eclesial em lugar de invisibilidade e exclusão, como lembra Halík (2018). e) O vínculo que vira prisão (dependências afetivas) A dependência afetiva aparece quando padres, bispos ou responsáveis na vida consagrada passam a precisar de admiração para se sentirem reconhecidos e seguros. A autoridade deixa de se apoiar na missão e passa a depender do elogio, da aprovação e da proximidade emocional. Para manter essa sensação de importância, cria vínculos afetivos adoecidos: oferece atenção, pequenos privilégios e gestos de carinho como “moeda de troca” para obter lealdade, proximidade, aprovação e regalias. Em vez de servir, começa a manipular, (Halík, 2018). No cotidiano eclesial/pastoral, isso se torna visível quando a autoridade se apresenta como indispensável, como única fonte de proteção, oportunidade ou reconhecimento. Quem está sob ela passa a acreditar que não pode decidir, viver ou crescer sem sua aprovação. A relação deixa de ser cuidada e se torna dependência. Esse ambiente também atrai “companheiros do interesse” que percebem a fragilidade da autoridade eclesiástica e a usam para benefício próprio. Elas oferecem disponibilidade, elogios, bajulação e proximidade estratégica para ganhar espaço, influência e vantagens. Alimentam a insegurança da autoridade eclesiástica para obter o que desejam. Assim, a relação se torna duplamente doentia que fere a prática evangélica: a autoridade manipula para ser amada, e os “companheiros do interesse” se aproximam para explorar essa necessidade. No fim, todos perdem: a comunidade eclesial e religiosa deixa de crescer, a autoridade se afasta da missão, e as relações se tornam terreno de troca emocional, não de evangelho. É uma relação que parece afeto, mas produz dependência e bloqueia a maturidade. f) Quando a autoridade cria o seu próprio evangelho (produção de culpa) A produção do evangelho de culpa, é uma forma de adoecimento, acontece quando a autoridade usa a fragilidade espiritual da pessoa para mantê‑la insegura e dependente. Não é correção fraterna, mas controle emocional: a pessoa vive em dívida, sempre precisando ser “resgatada” pela própria autoridade, que conhece suas vulnerabilidades e as usa como forma de domínio. A culpa mantém o outro pequeno e facilmente manipulável. Não pode contrapor a autoridade eclesiástica porque foi ajudada por ela em suas mazelas (cf. Grün,1997). Alimenta-se uma dominação aética em que padres, bispos ou responsáveis na vida consagrada exercem poder sem referência ao Evangelho de Jesus. O outro deixa de ser sujeito, irmão e passa a ser instrumento, coisa controlada, explorada ou silenciada. A autoridade eclesiástica usa sua posição para impor, não para servir. Esses dois mecanismos — culpa e dominação — sustentam uma autoridade adoecida: a culpa prende, a dominação invisibiliza. Ambos ferem a dignidade humana cristã, bloqueiam autonomia e impedem maturidade e liberdade pessoal e espiritual. Enfim, a síndrome do “espelho, espelho, meu” A gravidade se intensifica quando a autoridade eclesiástica carece de maturidade humana, formação espiritual ou supervisão institucional. Sem referências externas que a corrijam ou iluminem, o exercício do poder torna‑se solitário, rígido e autorreferencial. Nesse contexto malévolo, a autoridade eclesial passa a adoecer quem a exerce e quem dela depende, criando relações que já não nascem do Evangelho, mas do narcisismo, da vaidade, da insegurança e do controle desordenado. A autoridade eclesiástica existe para promover autonomia, maturidade e liberdade. Seu papel natural é ajudar a pessoa a crescer, fortalecer-se e tornar-se capaz de conduzir a própria vida e ministério. Ela se torna abusiva quando coloca sobre uma pessoa (criança) uma estrutura emocional, moral ou espiritual que ela não pode suportar, que ultrapassam sua capacidade de desenvolvimento. Da mesma forma quando a autoridade eclesiástica deseja e promove condições com que a pessoa adulta permaneça infantilizada. Mantem a dependência infantil e impede o crescimento, bloqueia a autonomia e transforma a autoridade eclesiástica em instrumento de dominação. O círculo que adoece a autoridade Há, porém, algo ainda mais delicado: muitas vezes a própria pessoa — o padre, o bispo ou o responsável na vida consagrada — não se dá conta do que está fazendo. Não percebe, não consegue enxergar, ou simplesmente se acostumou ao modo como exerce a autoridade. Cercada por pessoas que reforçam esse estilo — porque ganham com ele — ela se vê acompanhada, ou mesmo escolhe, por aliados de conveniência, aproveitadores de afeto, gente que alimenta sua insegurança, com. segurança, para obter vantagens. A convivência torna‑se um círculo que realimenta esse modo de agir, criando proximidades que não nascem do Evangelho, mas da necessidade de manter o líder dependente. Ao mesmo tempo, aqueles que enxergam o problema e poderiam ajudar se afastam, limitando‑se a murmurações, críticas veladas e indignações dispersas, movidos por medo, cansaço ou omissão. Assim, o ambiente inteiro passa a colaborar para que a autoridade permaneça adoecida, sem consciência do próprio adoecimento. O adoecimento que põem em risco o pastor e o rebanho Por fim, Pe. Wladimir Porreca, considera que nesse cenário sombrio, quem exerce autoridade eclesiástica fica sobrecarregado por expectativas irreais e por um isolamento crescente; e aqueles que estão sujeitos a essa autoridade adoecida acabam adoecendo também, abandonando a convivência ou tornando‑se indiferentes a tudo. O espaço que deveria ser de cuidado e discernimento, na promoção da autonomia e liberdade cristãs transforma‑se em um território de dependências e vulnerabilidades espiritual e emocional. A autoridade eclesiástica adoecida se afasta do Evangelho, deixa de cuidar e passa a gerar vulnerabilidade relacional, espiritual e mental/psicológica e institucional. Já a autoridade de padres, bispos e responsáveis na vida consagrada inspirada no Bom Pastor promove liberdade interior, crescimento, espiritualidade madura e integrada e saúde mental. Mas essa é uma outra conversa..... "Pe. Wladimir Porreca [email protected]