Que a visita do Papa à Argélia reanime o nosso espírito cristão - Vatican News via Acervo Católico

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Que a visita do Papa à Argélia reanime o nosso espírito cristão - Vatican News via Acervo Católico
Fonte: VATICANO

Estudantes africanos, força viva do catolicismo na Argélia, aguardam com entusiasmo a visita de Leão XIV, vendo nela uma bênção para o país, uma linfa para a sua fé e um impulso para o diálogo inter-religioso. Cinco deles, a estudar em Bejaia, revelam a sua vivência como minoria católica num país muçulmano, o apreço pela qualidade dos estudos, mas também as dificuldades e o suporte religioso que encontram na Comunidade Católica Shalom.

Dulce Araújo - Vatican News Aproxima-se a viagem de Leão XIV à Argélia a ter lugar de 13 a 15/4/26 sob o lema “A Paz Esteja Convosco”. Não é a primeira vez que Prevost vai a essa Nação da África do Norte, terra do seu pai espiritual, Santo Agostinho, mas é a primeira vez que vai como Papa. O país nunca foi dantes visitado por um Pontífice, facto que contribui ainda mais para o grande entusiasmo dos cristãos e católicos em particular, uma minoria no país. Essa minoria, numa Argélia muçulmana, é constituída essencialmente por migrantes da África subsaariana: trabalhadores e estudantes universitários. Bejaia, cidade situada no território da Diocese de Constantina, alberga uma das mais importantes instituições educativas do país: a Universidade Abderrhamane Mira. É frequentada por muitos estudantes africanos, sobretudo dos países ditos anglófonos e francófonos, mas também dos PALOP, Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. A Vatican News entrou em contacto com alguns deles: Sandy Manhiça e Carlindo Eugénio Matlava (de Moçambique); Graciete Bastião Carvalho e Pasqualina Beicha, angolanas, e ainda Marta Quaresma da Cruz de Sousa, santomense. Foram para lá graças a bolsas de estudo resultantes da cooperação entre os seus governos e a Argélia, país que, aliás, muito ajudou os PALOP na luta pela independência. Para além de procurar saber se estão ao corrente disto e se os faz, de algum modo, sentir-se mais à vontade na Argélia, a conversa com eles debruçou-se sobre a sua vivência como cristãos numa sociedade muçulmana e culturalmente diferente das suas; sobre a importância da relação entre eles; sobre os seus contactos com a Igreja católica no país e ainda sobre as expetativas e participação nos eventos relacionados com a visita do Papa à Argélia. Algumas dificuldades iniciais Das suas respostas emergem algumas dificuldades que, todos, com exceção da Graciete, que sofreu uma depressão, conseguiram, todavia, superar, e um deles, o Carlindo, exprime mesmo um grande amor por Bejaia. Reconhecem de forma unanime que se revelou de fundamental importância para eles, do ponto de vista religioso e não só, o apoio da Comunidade Católica Shalom. É esta Comunidade que rege a Paróquia de São José, a única em Bejaia e uma das cinco da Diocese de Constantina. A outra paróquia mais próxima, fica a cerca de três horas de carro. E é de lá que vai geralmente um padre celebrar missa às sextas-feiras (domingo é dia de trabalho na Argélia) três vezes por mês. Nenhum deles se poupa em elogios e apreço pela Comunidade Shalom de que Jackson Santos é o responsável, em Bejaia. A Graciete até se fez batizar, antes de regressar para Angola. Estudos de boa qualidade A bolsa geralmente não dá para tudo e necessitam de algum apoio financeiro da família; os estudos são de boa qualidade - afirmam todos, mas alguns não deixam de salientar algum racismo e o incómodo que representam, por vezes, perguntas sobre a pertença religiosa. Com o tempo, aprenderam, contudo, a viver a sua fé com discrição e cuidado, no respeito recíproco - revelam, pois embora a Argélia reconheça a liberdade religiosa, na prática as coisas não são tão fáceis. Que a visita do Papa reforce a relação entre as religiões Esperam, portanto, que a visita do Papa possa abrir portas para uma melhor compreensão inter-religiosa. Não são todos católicos, alguns são doutras confissões cristãs, cujas igrejas foram fechadas pelas autoridades argelinas, mas rezam juntos na mesma paróquia, pois no fundo reza-se pelo mesmo Deus - explica uma das entrevistadas. E à Missa a ser celebrada pelo Papa na Basílica de Santo Agostinho, em Annaba, na tarde do dia 14 de abril, irão numa caravana dumas 50 pessoas, fazendo, de camioneta, uma viagem de cerca de quatro horas por entre montanhas. Sandy Manhiça está na Argélia há mais de um ano. Estuda Sociologia. Agora já se sente bem no país, mas o início - reconhece - foi desafiador. Falamos com ela no dia 19 de março de 2026, festa de São José, Padroeiro da Paróquia, em Bejaia, e era também o dia do fim do Ramadão, algo com o qual se foi familiarizando desde a sua chegada. Contrariamente ao primeiro ano em que foi realmente difícil, este ano foi mais fácil, também porque coincidiu com a Quaresma - diz. Estar num país cristão não abala a sua fé, até porque a Comunidade Shalom ajuda nisso - sublinha, esperançosa de que a visita do Papa contribua para “renovar a chama do nosso espírito cristão”.    Marta Quaresma da Cruz de Sousa é da Igreja Adventista do Sétimo Dia, mas frequenta a Paróquia São José, até porque diz, todos rezam pelo mesmo Deus. Ela está há dois anos na Argélia. Diz que foi uma aventura, pois provinha dum país laico, São Tomé e Príncipe, mas têm tentado adaptar-se e colaborar mesmo no momento da festa do Ramadão, esperando reciprocidade nisso, o que nem sempre acontece. Por isso, espera que a visita do Papa possa abrir portas. Gostaria também que houvesse mais oportunidades para manifestarem a sua fé cristã, mais igrejas. I love Bejaia   Carlindo Eugénio Matlava se diz completamente à vontade na Argélia e tem muitos amigos argelinos e doutras nacionalidades. “Os argelinos são muito amigáveis mesmo, respeitam a nossa fé”, “a nossa convivência é muito boa mesmo” - salienta, deixando transparecer o seu espírito jovial, aberto e de fácil adaptação. Católico, temia não poder exercer a sua fé na Argélia, por isso, a felicidade foi grande quando descobriu a Comunidade Shalom: “fomos bem recebidos, é como se fosse uma família.” No que toca à visita do Papa à Argélia, revela que já se inscreveu para ir à missa em Annaba; não quer que aconteça como em Moçambique, onde não pôde ir ao Estádio para o encontro com o Papa Francisco. Em Annaba será também uma ocasião - acredita - para ter uma conversa com outros irmãos católicos. “Será uma bela experiência, é algo de que estou mesmo à espera”, diz, considerado a visita do Papa “Uma bênção para a Argélia”. Carlindo se sente importante por estar num país, do qual os líderes das independências dos PALOP tiveram apoio. A conversa com ele termina com um convite a visitar a Argélia e um alegre “I love Bejaia.” Das palavras da Graciete Bastião Carvalho, que se encontra atualmente na Província do Zaire, norte de Angola, seu país natal, e para o qual voltou depois de dois anos na Argélia a estudar Comunicação, emerge uma certa amargura. É que, paradoxalmente, a comunicação entre ela e a sociedade argelina não foi fácil. Então, depois de dois anos, para evitar que a depressão em que entrou, se agravasse, decidiu regressar para Angola, onde conta continuar os estudos. Mas uma coisa marcou positivamente a sua estada em Bejaia: o encontro com a Comunidade Católica Shalom: “Foram de grande suporte para mim, graças a eles voltei à religião, fiz o meu batismo lá, aprendi muita coisa a respeito da religião”. Mas, o regresso da Graciete para Angola teve também a ver com aquilo que ela chama de “burla” da bolsa, uma questão que afetou a ela e a mais de uma dezena de estudantes angolanos. Para além da retomada da religião que foi “a parte melhor” da sua estada na Argélia, Graciete apreciava também a qualidade dos estudos na Universidade lá. E se ficou dois anos foi por isso, mas não se arrepende de ter regressado, porque não conseguia aguentar o racismo e outras formas de aversão que sentia nessa sociedade para ela muito diferente da sua. Reconhece que há lá outros africanos que se adaptaram, mas ela é “muito sensível (...) cada pessoa é uma pessoa” - afirma. E acrescenta que nunca discriminou ninguém, mas que, de qualquer modo, hoje, depois dessa experiência, está muito mais apta a lidar com outras culturas. Lamenta não estar na Argélia por ocasião da visita de Leão XIV. Ali os católicos são poucos e teria mais possibilidade de participar nos eventos. É que tem dificuldades em estar onde há grandes multidões e teme que isto lhe impeça de tomar parte em encontros do Papa no seu país, Angola, mas irá escrever uma cartinha para enviar ao Papa através duma amiga na Argélia. O que vais dizer ao Papa? - perguntamos-lhe. “Coisas minhas” - respondeu. Tal como a amiga Marta Quaresma, também a Pasqualina Beicha, angolana, não é católica. Pertence à Assembleia de Deus Pentecostal. Não esperava poder praticar a sua fé cristã num país muçulmano. Por isso, “foi bom ter encontrado a Comunidade Católica Shalom” que lhe tem ajudado muito “a fortificar” a sua fé. É isto que conta para ela: fortificar a fé. “Ser cristão é viver na fé com respeito e discrição, respeitar o que se encontra.” - sublinha, deixando entrever a sua forma de estar na Argélia. Acredita que a visita de Leão XIV à Argélia dará uma visibilidade positiva ao país, atraindo turistas, investidores, e sobretudo impulsionando o diálogo inter-religioso. Ela própria passará “a ver a Argélia como um lugar mais aberto ao cristianismo”. Inscrita na Faculdade de Ciências Humanas, ela aprecia muito tanto a beleza arquitetural da Universidade Abderrhamane Mira como a qualidade e variedade de estudos que oferece.  

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