Um caminho que pode ser feito a pé percorre os locais que testemunharam a presença de Francisco de Assis na cidade eterna, unindo Latrão ao coração do Trastevere.
Pe. Rodrigo Rios – Vatican News Roma não é apenas a cidade dos apóstolos Pedro e Paulo, é também, profundamente, a cidade de São Francisco. No marco das celebrações do oitavo centenário da aprovação da Regra Bulada (1223–2023) e da sua morte (2026), a capital italiana mostra um novo roteiro de fé chamado a "Via di Francesco a Roma". O caminho, que liga o complexo de Latrão ao bairro do Trastevere, convida peregrinos e turistas a redescobrirem as pegadas do santo de Assis em solo romano. O Lazareto e o refúgio no Trastevere O ponto de chegada deste caminho, a Igreja de San Francesco a Ripa, é um dos lugares mais significativos da presença do santo na cidade. No século XIII, o local abrigava o antigo hospital de San Biagio. Conhecido como Lazareto, este foi um espaço de isolamento destinado a pessoas com doenças infectocontagiosas, especialmente a lepra (hoje chamada de hanseníase) e, mais tarde, a peste. Era ali que o poverello se hospedava durante suas frequentes visitas a Roma para se encontrar com os Pontífices. No interior da igreja, ainda é possível visitar a cela onde o santo repousava, conservando como relíquia a pedra que ele utilizava como travesseiro. Foi neste local que Francisco cuidou de leprosos, reafirmando o carisma da pobreza e do serviço aos marginalizados. O encontro com o Papado e a Regra A jornada proposta atravessa marcos históricos como o Circo Máximo e a Colina Célio, conectando o Trastevere à Basílica de São João de Latrão, a Catedral de Roma. A escolha desse trajeto não é estética, mas histórica: - Em 1209, Francisco veio a Roma com seus primeiros companheiros para obter do Papa Inocêncio III a aprovação oral de sua forma de vida. - Em 1223, o vínculo com Roma se consolidou definitivamente quando o Papa Honório III aprovou a Regio Bullata (Regra Bulada), o documento que até hoje rege a Ordem dos Frades Menores. Para saber mais sobre o Ano de São Franscico e o significado da celebração do 8º centenário de sua morte, veja o vídeo abaixo do Frei Gilson Miguel Nunes, OFMConv, assistente internacional da Mílicia da Imaculada, residente em Roma. Um caminho de luz e história Sob o título "Le strade di Roma, una via alla luce della Regola" (As estradas de Roma, um caminho à luz da Regra), o projeto, apoiado por instituições como a Enel e a PwC, busca não apenas recordar o passado, mas atualizar a mensagem do carisma franciscano. O mapa guia o fiel por uma Roma, destacando a Isola Tiberina e as margens do Rio Tibre, por onde Francisco transitava em suas missões de paz e caridade. O roteiro proposto pode ser feito à pé e é bem mais que um simples passeio turístico; é uma imersão física na geografia da humildade. Ao caminhar os cerca de 4 quilômetros que separam a imponência da Basílica de São João de Latrão até o ambiente acolhedor de San Francesco a Ripa, o peregrino refaz o percurso vivido pelo próprio santo. O trajeto exige que se atravesse o Circo Máximo e se cruze o Rio Tibre pela Ponte Palatino, permitindo que o ritmo lento dos passos revele uma Roma silenciosa e medieval que sobrevive em meio ao caos urbano. Destaques do Roteiro San Giovanni in Laterano (São João de Latrão) Foi aqui que, em 1209, o Papa Inocêncio III teve o famoso sonho com um homem pequeno e pobre sustentando a Basílica que estava prestes a desabar. No dia seguinte, ele recebeu Francisco e seus 11 companheiros. Logo em frente à basílica, há um imponente conjunto de estátuas de bronze de São Francisco e seus frades olhando para a igreja, rememorando esse encontro histórico. Ponte Palatino Ao cruzar esta ponte, o caminhante estará deixando a Roma Imperial, dita assim por conta do Fórum Romano e do Circo Máximo, para entrar na Roma Popular, ou seja, em Trastevere. De cima da ponte, é possível ver a Isola Tiberina à direita. Francisco certamente cruzou o rio por esta região, que na Idade Média era o centro do comércio e da circulação de pessoas simples. San Francesco a Ripa Ao entrar na Igreja, o peregrino deve procurar pela cela de São Francisco. Lá, onde há o bloco de pedra que ele usava como travesseiro, retrata a humildade e a busca pela penitência constante do santo.