Ataques contra a rede ferroviária se intensificam e ameaçam uma das principais estruturas de transporte de passageiros, ajuda humanitária e mercadorias da Ucrânia. Governo pede aos parceiros internacionais locomotivas e recursos para manter o sistema em funcionamento.
Vatican News A Rússia já danificou ou destruiu mais de 500 locomotivas ucranianas desde o início da invasão em grande escala, em fevereiro de 2022, segundo dados apresentados pelo ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha.
Mais da metade dessas perdas teria ocorrido somente em 2026, em meio à intensificação dos ataques contra a infraestrutura ferroviária do país.
A declaração foi publicada por Sybiha após um novo ataque contra uma locomotiva na região de Volínia, no noroeste da Ucrânia, próximo à fronteira com a Polônia.
No domingo, 13 de setembro, um drone russo atingiu a locomotiva de um trem de passageiros que seguia de Kiev para Varsóvia, a cerca de dois quilômetros da fronteira polonesa.
Não houve vítimas entre os passageiros.
O episódio ocorreu em um contexto de crescente pressão sobre a rede ferroviária ucraniana.
Dados divulgados pelo Ministério para a Recuperação, Infraestrutura e Transporte da Ucrânia no início de setembro indicavam que a companhia ferroviária estatal Ukrzaliznytsia havia sido alvo de 6.119 ataques desde o começo da guerra em grande escala, sendo mais de 1.500 somente em 2026.
Além das locomotivas, 249 vagões haviam sido danificados.
Uma infraestrutura essencial para a população A rede ferroviária ocupa uma posição estratégica na sobrevivência cotidiana da Ucrânia.
Os trens transportam passageiros, alimentos, equipamentos e outros bens essenciais, além de desempenharem papel fundamental na retirada de civis das regiões próximas às áreas de combate.
O sistema também é importante para o transporte de produtos agrícolas e outras mercadorias que sustentam a economia nacional.
A própria Ukrzaliznytsia afirma que os ataques russos têm atingido locomotivas, vagões, depósitos, pontes, subestações elétricas e outros equipamentos.
Em fevereiro, por exemplo, um drone atingiu uma locomotiva que estava em uma estação na região de Zaporizhzhia; em outro episódio, uma locomotiva destinada a um trem de passageiros foi atingida na estação de Konotop.
Apesar dos ataques, as autoridades afirmam que os serviços continuam sendo mantidos por meio de evacuações preventivas, reparos emergenciais e mudanças na circulação dos trens.
Em setembro, a dimensão da ofensiva contra o sistema ferroviário levou o Guardian a descrever uma nova fase dos ataques russos à rede.
Segundo dados citados pelo jornal, até o início daquele mês haviam sido atingidos 492 locomotivas e 249 vagões, enquanto a rede sofrera mais de 1.500 ataques somente em 2026.
O jornal também relatou que trabalhadores ferroviários foram mortos em ataques contra instalações da companhia.
Ataques também atingem trens de passageiros A ofensiva não se limita aos equipamentos utilizados para o transporte de cargas.
Trens de passageiros também passaram a ser diretamente ameaçados.
Em 8 de setembro, dois drones Shahed atacaram um trem que fazia a ligação entre Kiev e Sumy.
A composição foi parada a tempo, e passageiros e funcionários foram evacuados antes que houvesse vítimas.
Em março, ataques contra estruturas ferroviárias no sul do país deixaram pelo menos cinco feridos.
Segundo a Ukrzaliznytsia, locomotivas, vagões de carga, equipamentos de manutenção, depósitos e pontes estavam entre os alvos.
O ataque de setembro na Volínia teve ainda uma dimensão internacional.
O trem atingido circulava na ligação entre Kiev e Varsóvia e estava próximo de uma importante passagem ferroviária para a União Europeia.
Pouco antes, um trem diplomático que transportava autoridades e personalidades estrangeiras havia deixado a região.
A Ukrzaliznytsia levantou a possibilidade de que esse comboio pudesse ter sido o alvo pretendido, embora essa hipótese não esteja definitivamente estabelecida.
Kiev pede ajuda internacional Diante da perda acelerada de material ferroviário, Sybiha apelou aos países parceiros para que forneçam locomotivas compatíveis com a bitola de 1.520 milímetros, utilizada na rede ferroviária ucraniana, além de financiamento para acelerar a aquisição de novos trens e equipamentos.
Para o governo ucraniano, a questão ultrapassa a dimensão militar.
A capacidade de manter os trens em circulação está diretamente relacionada à estabilidade econômica e social do país. “Sustentar a resiliência da rede ferroviária”, argumenta Kiev, é também uma forma de evitar uma crise humanitária e preservar a capacidade de funcionamento das cidades e das comunidades.
A necessidade de apoio externo já vem sendo reconhecida por parceiros europeus.
Em março, a Alemanha entregou à Ukrzaliznytsia veículos, geradores e equipamentos destinados às equipes responsáveis pela reparação de trilhos, sistemas de sinalização e infraestrutura elétrica danificada pelos ataques.
Uma guerra contra as linhas que mantêm o país conectado Ao longo da guerra, a ferrovia tornou-se uma das imagens da resistência ucraniana.
Enquanto pontes, estradas, portos e instalações energéticas são atingidos, os trabalhadores ferroviários continuam reconstruindo trechos destruídos, retirando passageiros de áreas ameaçadas e mantendo abertas as ligações entre as diferentes regiões do país.
O governo ucraniano sustenta que a estratégia russa busca justamente interromper essas conexões e atingir a capacidade logística e econômica do país.
Em fevereiro, o Ministério para a Recuperação afirmou que os ataques à ferrovia tinham como objetivo pressionar a logística civil e o sistema de abastecimento nacional.
Nesse cenário, a perda de mais de 500 locomotivas representa mais do que um dano material.
Para a Ucrânia, significa colocar sob pressão uma infraestrutura da qual dependem a evacuação de civis, o transporte de ajuda humanitária, o abastecimento das cidades, a circulação de trabalhadores e o escoamento da produção agrícola.
A batalha pela ferrovia, portanto, tornou-se também uma batalha pela capacidade de uma sociedade em guerra continuar funcionando.