O sétimo dia consecutivo de ataques parece fazer parte de uma estratégia que combina pressão militar, desgaste psicológico, enfraquecimento da defesa aérea, danos à infraestrutura e pressão política. O que se observa é uma tentativa de tornar a guerra mais custosa para a Ucrânia e de explorar suas vulnerabilidades. Já os ataques ucranianos em profundidade são uma tentativa de responder à pressão russa, quer defendendo o território como levando a guerra às estruturas militares e econômicos.
Vatican News A capital ucraniana, Kiev, entrou nesta quarta-feira, 2 de setembro, no sétimo dia consecutivo de ataques russos, em uma das mais prolongadas sequências de ofensivas aéreas contra a cidade desde o início da guerra.
Durante a manhã, novos ataques de drones atingiram áreas centrais da capital, deixando pelo menos sete pessoas feridas, danificando uma unidade de saúde e provocando um incêndio em uma instituição de ensino.
Na região de Kiev, outras pessoas também ficaram feridas e foram registrados danos em residências e armazéns.
Resumindo os ataques, o presidente Volodymyr Zelensky escreveu no Telegram que "hoje, drones russos atacaram uma universidade em Kiev, durante uma aula.
Felizmente, os estudantes — 160 no total — estavam em abrigos.
Os ataques russos deixaram sete pessoas feridas na capital".
A nova ofensiva ocorre depois de uma noite particularmente mortífera.
Na terça-feira, os ataques russos contra Kiev e sua região deixaram 12 mortos e dezenas de feridos, em uma operação que combinou drones e mísseis balísticos.
A Rússia também ampliou os ataques contra outras partes da Ucrânia: em Odessa, no sul do país, uma nova onda de mísseis e drones atingiu infraestrutura energética e provocou interrupções no fornecimento de eletricidade.
O padrão revela que Moscou não está realizando apenas ataques isolados, mas uma campanha aérea prolongada contra centros urbanos e infraestruturas estratégicas.
Mas, por que a Rússia está atacando Kiev todos os dias? [ Photo Embed: Crianças ucranianas frequentam uma escola subterrânea recém-construída no primeiro dia do novo ano letivo em Kharkiv, Ucrânia, em 1º de setembro de 2026, em meio à invasão russa.
O primeiro sinal tocou para os alunos da primeira série na nova escola subterrânea, construída em um abrigo antiaéreo adaptado sob um prédio escolar de 1954 com assistência francesa.
O evento contou com a presença do embaixador francês na Ucrânia, Brice Roquefeuil, do prefeito Ihor Terekhov e de representantes da organização humanitária ACTED.
EPA/SERGEY KOZLOV] Desgastar a população e paralisar a vida cotidiana da capital Os ataques sucessivos obrigam milhões de pessoas a interromper atividades, buscar abrigo e conviver permanentemente com alertas aéreos.
O efeito psicológico é importante: a Rússia pode tentar transmitir a sensação de que nenhum lugar da Ucrânia está completamente seguro.
Os ataques também vêm afetando transportes, comércio, escolas e outras atividades essenciais.
Analistas citados pelo Financial Times avaliam que a nova tática russa procura dificultar o funcionamento da economia urbana.
Pressionar e saturar a defesa aérea ucraniana Moscou tem utilizado grandes ondas de drones, inclusive modelos de propulsão a jato, combinados com diferentes tipos de mísseis.
A utilização simultânea de numerosos alvos obriga a Ucrânia a empregar continuamente seus sistemas de interceptação e dificulta a proteção de toda a cidade.
Segundo avaliações recentes, alguns dos novos drones russos são mais difíceis de interceptar do que os modelos utilizados anteriormente. [ Photo Embed: Um trabalhador remove os destroços em frente a um prédio de um centro comercial atingido por um ataque de drone russo, em meio ao ataque da Rússia à Ucrânia, em Odessa, Ucrânia, em 2 de setembro de 2026.
REUTERS/Nina Liashonok] Dimensão militar e logística Embora muitos ataques atinjam áreas civis, Moscou afirma que seu objetivo é atingir infraestrutura relacionada às capacidades militares ucranianas.
A rede ferroviária, depósitos, centros logísticos e instalações energéticas são particularmente importantes porque permitem o deslocamento de tropas, armas, combustível e equipamentos.
Os ataques recentes atingiram, entre outros alvos, infraestrutura ferroviária na região de Kiev.
Ao dificultar esses fluxos, a Rússia procura aumentar o custo da manutenção do esforço de guerra ucraniano.
A infraestrutura energética O presidente Vladimir Putin afirmou que a Rússia prepara ataques intensivos contra o setor energético ucraniano.
A estratégia ganha ainda mais importância com a aproximação dos meses frios, quando interrupções de eletricidade, aquecimento e abastecimento podem produzir consequências muito maiores para a população.
O ataque simultâneo a Kiev e Odessa sugere uma tentativa de pressionar diferentes pontos da infraestrutura nacional. [ In Evidence ] Razão política e diplomática As negociações para pôr fim à guerra continuam sem produzir um acordo, enquanto a Rússia enfrenta dificuldades para transformar seus lentos avanços no campo de batalha, com um alto custo de vidas humanas, em uma vitória decisiva.
O Institute for the Study of War avaliou que a ofensiva russa de primavera e verão de 2026 não conseguiu alcançar seus principais objetivos operacionais.
Nesse cenário, a intensificação dos bombardeios pode servir para demonstrar força e aumentar a pressão sobre Kiev e seus aliados ocidentais.
Ucrânia amplia ataques em território russo e zonas ocupadas Ao mesmo tempo, a Ucrânia tem ampliado seus próprios ataques de drones contra alvos em território russo, inclusive instalações ligadas ao setor energético, aumentando o risco de um ciclo de retaliações cada vez mais intenso.
Nos últimos dias, a Ucrânia intensificou sua campanha de ataques de longo alcance contra posições russas, procurando atingir não apenas instalações dentro da própria Rússia, mas também estruturas militares nas áreas ocupadas.
Entre os alvos estão depósitos de munições e combustível, centros de preparação e lançamento de drones, instalações logísticas e posições de comando.
Em 31 de agosto e na noite para 1º de setembro, forças ucranianas afirmaram ter atingido, entre outros alvos, instalações russas de drones em Donetsk e na Crimeia, além de um depósito de combustível na região russa de Belgorod.
Um dos ataques de maior importância ocorreu em 26 de agosto, em Donetsk, quando as forças ucranianas atingiram os postos de comando principal e de reserva das tropas russas na cidade ocupada.
Segundo o Estado-Maior ucraniano, os alvos foram atingidos por mísseis lançados do ar.
Avaliações de fontes abertas indicaram que uma das instalações atingidas funcionava em uma estrutura subterrânea e estaria sendo utilizada como posto de comando de um agrupamento militar russo. 27 militares russos teriam morrido e 58 ficado feridos, incluindo oficiais de alta patente No mesmo período, a Ucrânia também atingiu instalações militares, depósitos e estruturas relacionadas à operação de drones em Donetsk, Luhansk e na Crimeia.
A estratégia ucraniana parece ter dois objetivos principais: reduzir a capacidade ofensiva russa e aumentar o custo da guerra para Moscou.
Ao atacar centros de comando, Kiev procura desorganizar a coordenação das tropas e dificultar a transmissão de ordens; ao atingir depósitos, centros de drones, combustível e logística, tenta interromper o fluxo de armas e suprimentos para a linha de frente.
A campanha também ocorre enquanto a Rússia mantém uma intensa ofensiva aérea contra cidades ucranianas, incluindo Kiev, que chegou ao sétimo dia consecutivo em 2 de setembro.
Nesse contexto, os ataques ucranianos em profundidade representam uma tentativa de responder à pressão russa não apenas defendendo o território, mas levando a guerra às estruturas militares e econômicas que sustentam a ofensiva de Moscou.