Em Bolonha, Itália, o prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos presidiu a cerimônia em homenagem aos três sacerdotes mortos no massacre de Monte Sole. “Vidas não ceifadas pelo mal, mas levadas à plenitude do amor”. “O sangue deles — destacou ele — não clama por vingança, mas anuncia Cristo”.
Benedetta Capelli – Vatican News Uma única tapeçaria para três vidas luminosas unidas pelo amor a Deus e ao seu povo, pelo sangue do martírio derramado no massacre de Monte Sole, na província de Bolonha, também conhecido como o massacre de Marzabotto, ocorrido entre 29 de setembro e 5 de outubro de 1944, com 770 vítimas.
Um massacre perpetrado pelos nazistas que queriam livrar a região da presença dos guerrilheiros.
Entre os mortos inocentes, é preciso incluir também os nomes dos novos beatos: os padres Ubaldo Marchioni, de 26 anos, diocesano; Elia Comini, salesiano, de 34 anos; e Martino Capelli, dehoniano, de 32 anos.
Mais de 150 concelebrantes A cerimônia de beatificação foi presidida neste domingo, 27 de setembro, pelo delegado pontifício, cardeal Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, na basílica de São Petronio, na capital da Emília.
Mais de 150 concelebrantes, entre os quais o cardeal Matteo Zuppi, arcebispo de Bolonha, e o cardeal Ángel Fernández Artime, atual pro-prefeito do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, juntamente com outros bispos e presbíteros, entre os quais o padre Carlos Luis Suárez Codorniú, superior geral dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus, e o padre Fabio Attard, reitor-mor da Sociedade Salesiana de São João Bosco. [ Photo Embed: O cardeal Matteo Zuppi, arcebispo de Bolonha] Após o pedido de beatificação dos veneráveis servos de Deus feito pelo cardeal Zuppi, os postuladores traçaram os perfis dos três sacerdotes: o professor Ulderico Parente, para o padre Ubaldo Marchioni; o padre Pierluigi Cameroni, para o padre Elia Comini; e o padre Ramón Domínguez Fraile, para o padre Martino Capelli.
Em seguida, o cardeal Semeraro leu, em nome do Papa, a carta apostólica que inscreve os três no registro dos beatos e que estabelece sua memória litúrgica para o dia 13 de outubro.
Aos pés do altar, as relíquias dos três sacerdotes: a Bíblia e uma caneta para o padre Marchioni; o diário pessoal para o padre Comini; e um escrito pessoal de entrega à Mãe de Deus para o padre Capelli. [ Photo Embed: As relíquias dos três novos beatos] Zuppi: apaixonados por Cristo e pelo próximo O cardeal arcebispo agradeceu ao Papa Leão pela beatificação, ressaltando que os três novos beatos não se deixaram contagiar pelo mal e continuam sendo, até hoje, um exemplo para este mundo ameaçador, sofredor, mas sedento de esperança e de vida. “Os três beatos estão unidos pelo amor de Cristo”, destacou o presidente da CEI, “irmãos confiantes, não heróis, mas apaixonados e indefesos por Cristo e pelo próximo, pois são pastores que não se separaram de sua comunidade”.
Não são, portanto, neutros, mas testemunhas do compromisso de construir um mundo melhor, de edificar a civilização do amor.
Os beatos, concluiu o cardeal, são sementes para fazer crescer comunidades fortes e, para os sacerdotes, são exemplos de como se une a própria vida à dos irmãos e irmãs.
O vazio, lugar para fazer florescer a caridade “O segredo dos mártires – destacou o cardeal Semeraro – não é o heroísmo, mas o amor que se esvazia de si mesmo”, assim como Jesus se esvaziou de si mesmo, assumindo a condição de servo; da mesma forma, aqueles que oferecem a vida se abrem misteriosamente “aos olhos do mundo” para uma nova vida. “A morte dos mártires”, prosseguiu o cardeal, “pode parecer uma planta sem fruto nem flor; no entanto, justamente esse vazio se tornou o lugar onde Deus fez florescer a caridade.
Assim como Cristo não reteve nada para si, também o padre Ubaldo, o padre Elia e o padre Martino não retiveram nem mesmo a própria vida”.
Pastores de um rebanho que não abandonaram Diante da possibilidade de se salvarem, os três sacerdotes escolheram outro caminho, o caminho que o Bom Pastor lhes indicava, aquele que os levava a permanecer ao lado de seu rebanho.
Muitos pediram que fugissem, mas “naquela encruzilhada — destacou o prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos — eles reconheceram outra voz: aquela que o Evangelho nos fez ouvir hoje. ‘Minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço e elas me seguem’”. “Renunciaram livremente — continuou ele — à própria segurança para compartilhar até o fim o destino dos irmãos que lhes foram confiados.
Irmãos e irmãs, aqui se manifesta a beleza de sua santidade”. [ Photo Embed: O cardeal Marcello Semeraro durante a celebração] Oferta de vida e martírio Eles não buscaram o martírio, destacou o cardeal Semeraro, mas ofereceram a própria vida, escolhendo livremente, de forma consciente e com um espírito profundamente pastoral. “Oblatio vitae” e martírio, acrescentou ele, são caminhos diferentes, mas nascem de uma única fonte: a caridade de Cristo. “Foi justamente essa disponibilidade que os tornou prontos para acolher o martírio quando o ódio contra a fé se abateu sobre eles.
Distintas, mas intimamente unidas, oblatio vitae e martírio iluminam-se mutuamente na lógica evangélica do Bom Pastor, que dá a vida por suas ovelhas”.
O sangue que não clama por vingança Ao traçar o perfil dos novos beatos, o cardeal lembrou que “suas vidas não foram ceifadas pelo mal, mas levadas a bom termo pelo amor.
Por isso, seu sangue não clama por vingança, mas anuncia Cristo”.
Padre Ubaldo Marchioni era companheiro de padre Giovanni Fornasini, beatificado há 5 anos e assassinado com apenas 29 anos pelos nazifascistas em San Martino di Caprara, um dos locais de Monte Sole.
Padre Ubaldo “preferiu permanecer ao lado de seu povo – disse Semeraro – e caiu nos degraus do altar, quase oferecendo sua própria vida juntamente com o sacrifício eucarístico”.
Em memória perpétua de seu martírio, a comunidade monástica de Dossetti guarda uma píxide crivada de balas, encontrada entre os escombros da igreja de Casaglia.
O pai de padre Ubaldo foi um dos poucos que não se opôs ao pedido de clemência apresentado por Walter Reder, o major da SS que havia coordenado o massacre de Monte Sole.
Padre Elia Comini, explicou o prefeito das Causas dos Santos, “depois de celebrar o que seria a última missa de sua vida, deixou-se verdadeiramente partir, como o pão eucarístico, pela salvação de seu povo”.
Salesiano, foi assassinado em 1º de outubro de 1944, próximo ao reservatório da Canapiera, em Pioppe di Salvaro, após ter sido capturado enquanto levava, junto com o padre Martino Capelli, a extrema-unção aos agonizantes do massacre da Creda.
Este último, dehoniano, “permaneceu presente como pastor”, explicou o cardeal, “como irmão e como homem de Deus”. “Sua fidelidade sacerdotal tornou-se testemunho do Coração aberto de Cristo”.
À Virgem de Guadalupe, antes de se tornar sacerdote, o padre Martino pediu a graça de poder ser mártir.
Ele morreu, invocando o perdão, junto com o padre Elia, após a prisão pelas SS alemãs, o fuzilamento e, em seguida, a profanação com os corpos desfigurados pelas granadas de mão lançadas pelos soldados. [ Photo Embed: Grande número de fiéis na Basílica de São Petronio, em Bolonha] O perfume de uma Igreja que não foge O sangue deles, concluiu Semeraro, é “o perfume de uma Igreja que não foge, que não abandona, que permanece solidária ao lado de quem sofre”.
Um testemunho, como havia destacado o cardeal Zuppi, que nos interpela e nos impõe “escolher com determinação a paz”, “desarmar os corações e as mãos, neutralizar a hostilidade pelo diálogo e zelar juntos pela verdade e pelo perdão, pela justiça e pela misericórdia”.
Daí a oração para que os novos beatos ajudem, “nas provações do nosso tempo”, a reconhecer “a voz do Bom Pastor e a ter a coragem de segui-la”.