Foram inauguradas, na província de Idlib, duas instituições de ensino, que voltaram a funcionar quase 60 anos após o fechamento, graças ao empenho dos frades da Custódia da Terra Santa. Frei Khukaz Mesrob: em uma região onde “estávamos quase mortos e desesperados, recomeçar e renascer é realmente um milagre”.
Beatrice Guarrera - Vatican News Tornar-se advogado, engenheiro, professor, jornalista?
Ou o que mais?
As crianças da província de Idlib podem voltar a alimentar esses e outros sonhos, onde, nas aldeias cristãs sírias de Knaye e Yacoubieh, foram inauguradas nos últimos dias duas escolas, que voltaram a funcionar quase 60 anos após o fechamento, graças ao empenho dos frades da Custódia da Terra Santa.
Recomeçar pela educação para construir um futuro sólido para a Síria foi uma das prioridades na realização dos trabalhos nessa região, que por décadas foi palco de guerras e violência.
A inauguração dos novos espaços no último domingo, 20 de setembro, na presença das autoridades civis e religiosas locais, foi, portanto, uma festa que envolveu as duas aldeias, distantes de apenas um quilômetro uma da outra.
De abrigo para deslocados a local de formação “Desde sempre, os frades franciscanos do norte da Síria, na missão do Orontes, abriram escolas e se encarregaram do ensino nas aldeias.
Os frades haviam inaugurado essa escola em 1958, mas em 1972 ela foi ocupada”.
É o que conta à mídia vaticana o Frei Khukaz Mesrob, pároco de Knaye, que, junto com o Frei Luai Bisharat, pároco de Yacoubieh, acompanhou as obras de reconstrução dos prédios escolares. “Quando o exército se retirou do território, a escola foi usada como abrigo por 10 anos”, afirma o Frei Mesrob, de origem síria.
Ao retornar ao seu país para prestar serviço na aldeia, ele teve então a intuição de acender “uma luz de esperança” no coração das pessoas. “‘Por que não começar a restaurar uma parte dessas escolas?’, nos perguntamos”, relata o frade.
A partir daí, a escola voltou a funcionar, inicialmente com 20 alunos, durante a guerra, quando, devido ao cerco, não havia liberdade de movimento. “Mas sempre tivemos esperança no bem, de que um dia as crianças voltariam — continua o padre — e pensamos que deveríamos começar a trabalhar antes que as coisas mudassem.
Assim, iniciamos a restauração”.
Educação e trabalho para reconstruir Após um ano, com a queda do governo de Assad, a escola ficou completamente vazia dos refugiados que ainda permaneciam nela, e assim começaram os trabalhos a todo vapor para restaurar os espaços educacionais. «Com a ajuda das associações eclesiásticas, da ONG Pro Terra Sancta, da Custódia e dos frades, conseguimos restaurar 80% das escolas, que compartilham o mesmo nome: Terra Santa».
Todo o ciclo de ensino está, portanto, distribuído entre os prédios de Yacoubieh, que acolhem crianças de 3 a 10 anos, e os de Knaye, que recebem alunos de 10 a 17 anos.
Além disso, durante as obras, surgiram muitas oportunidades de trabalho para as famílias e para os jovens: quase 100 pessoas foram empregadas em diversos setores, entre eletricistas, marceneiros, artistas e operários.
Cem pessoas que trabalharam significa que 100 famílias tiveram uma fonte de renda, explica o Pe.
Mesrob.
Um resultado importante em um momento delicado de reconstrução do país. “Após a guerra, os jovens professores formados também voltaram para a Síria.
Hoje, 25 professores das mais diversas disciplinas — como inglês, matemática, química e biologia — estão em atividade, e todos são ‘filhos das aldeias’ e cristãos”, diz o sacerdote. [ Photo Embed: Os alunos da escola de Terra Santa] Escolas abertas a todos Atualmente, a escola conta com 80 crianças, mas no próximo ano, quando estiver 100% restaurada, poderá acolher quase 300 alunos, inclusive de famílias muçulmanas da região.
Assim, poderá se tornar ainda mais aquele espaço de diálogo que tanto caracteriza a obra dos frades na Terra Santa e que “é o centro da missão franciscana: evangelizar por meio de boas obras e boas palavras”.
Nossas escolas na Síria — continua o Frei Mesrob — sempre estiveram abertas a todos”.
Um exemplo disso é um episódio vivido pelo frade: ao retornar à Síria, certo dia ele encontrou um xeique da mesquita local, que lhe contou ter frequentado a escola da Terra Santa antes do fechamento e ter tido justamente o pai do franciscano como professor de inglês.
Portanto, uma autoridade religiosa muçulmana que se formou em uma escola cristã.
Assim, hoje muitos muçulmanos voltam a lecionar, após terem recebido uma excelente educação nas instituições administradas pelos frades. “As escolas franciscanas abrem esse diálogo com as famílias muçulmanas e também educam as crianças a amar o próximo, a respeitar a humanidade, à caridade e ao bem do próximo”, afirma o frade Mesrob.
O milagre de renascer Assim, a inauguração dos novos espaços trouxe “muita alegria, muita esperança, muita coragem”: em uma região onde “estávamos quase mortos e desesperados, recomeçar e renascer de novo é realmente um milagre”.
Naquele dia, observa o pároco de Knaye, “entre líderes religiosos, embaixadores e chefes de governo, entre cristãos e muçulmanos, éramos como um mosaico.
Cada pedrinha do quadro é importante em seu lugar, com sua cor, e ninguém pode ocupar seu lugar, se ela faltar.
Nós somos essas pedrinhas quando estamos todos reunidos”.
A arte da paz “A escola é a primeira pedra angular para reconstruir o país — declara à mídia vaticana o bispo Hanna Jallouf, vigário apostólico de Aleppo dos Latinos —.
Sem educação, as pessoas não podem ter um futuro.
Em tantos anos de guerra, os jovens aprenderam apenas a arte da guerra.
Devemos fazer com que aprendam a arte da paz e da convivência”. O custódio da Terra Santa, Frei Francesco Ielpo, presente na inauguração, destacou a importância do evento: “reconstruir uma escola não significa simplesmente restaurar um prédio.
Significa devolver às crianças um lugar onde possam crescer, aprender e sonhar.
Essa é a face mais bela da nossa presença franciscana: permanecer ao lado das pessoas, compartilhar o esforço e reconstruir juntos a esperança”.
Viver com fé e esperança Hoje, entre Knaye, Yacoubieh e as aldeias vizinhas, somam-se 200 famílias: o dobro do número que havia ali durante a guerra. «As pessoas voltaram, graças a Deus.
Estávamos exaustos, desesperados, mas agora as coisas estão melhores.
Nós, como frades — conclui o Frei Mesrob —, estamos trabalhando, junto com todas as associações, para que todos possam se estabelecer.
As pessoas continuam vivendo e “lutando” sempre com fé e esperança».