Na Somália, o colapso da ajuda (com uma redução de até 80% por parte de alguns doadores ocidentais) já diminuiu a cobertura dos serviços de saúde em 30% e corre o risco de levar ao fechamento permanente de até 618 unidades de saúde em todo o país.
Vatican News Os cortes sem precedentes na ajuda humanitária estão agravando a crise que atinge as crianças na Somália.
Segundo dados apresentados pelo UNICEF, 205 unidades de saúde e nutrição já fecharam as portas, interrompendo serviços essenciais de atendimento, alimentação, água, educação e proteção.
O impacto é imediato: nos primeiros seis meses deste ano, aumentou em 32% o número de crianças internadas em centros de estabilização com desnutrição aguda grave e complicações, em comparação com o mesmo período do ano passado.
A redução dos serviços também significa maiores distâncias para mães e crianças em busca de atendimento, atrasando o início dos tratamentos e aumentando o risco de agravamento das doenças e de mortes evitáveis.
A situação ocorre em meio a uma combinação de fatores que amplia a vulnerabilidade da população: seca severa em regiões do norte, conflitos, deslocamentos forçados e aumento dos preços de combustíveis e fertilizantes.
Além disso, um fenômeno de El Niño de intensidade recorde ameaça provocar graves inundações nos próximos meses.
Para o UNICEF, é uma contradição que os recursos destinados à proteção das crianças estejam diminuindo justamente quando aumentam as pressões que empurram milhares delas para uma situação de emergência.
No setor da saúde, os cortes já provocaram uma redução de 30% na cobertura dos serviços sanitários e nutricionais, enquanto, em um cenário de grave falta de recursos, até 618 unidades de saúde poderiam fechar em todo o país.
Na área nutricional, quase um milhão de crianças menores de cinco anos, adolescentes e mulheres correm o risco de perder o acesso aos serviços.
A previsão para este ano é de que quase 1,9 milhão de crianças sejam afetadas pela desnutrição, incluindo cerca de 500 mil casos de desnutrição aguda grave.
Ao mesmo tempo, o orçamento destinado ao UNHAS, serviço aéreo humanitário da ONU fundamental para operações de salvamento e transporte, sofreu uma redução de 40% entre 2025 e 2026.
Os cortes atingem também o acesso à água, à educação e à proteção infantil.
Mais de 1,6 milhão de pessoas precisam de água potável, enquanto mais de 800 mil correm o risco de ficar sem produtos básicos de higiene; nas áreas rurais e pastorais, o preço da água chegou a quadruplicar.
Na educação, mais de 78 mil estudantes já abandonaram a escola e outros 660 mil estão em risco, após o setor perder 30 milhões de dólares em 2025 e diante da previsão de novos cortes superiores à metade dos recursos em 2026.
Na proteção da infância, pelo menos 65 centros e estruturas foram fechados, ameaçando serviços de acompanhamento, apoio psicológico, reunificação familiar e reinserção de crianças anteriormente associadas a grupos armados ou vulneráveis ao recrutamento.
Apesar da crise, o UNICEF destaca que os resultados obtidos demonstram que os investimentos produzem efeitos concretos.
Entre 2021 e 2025, a organização apoiou mais de 2,25 milhões de internações de crianças com desnutrição aguda grave, alcançando, em 2025, uma taxa de recuperação de 97,6%.
Em 2024, uma campanha de vacinação oral contra a cólera alcançou mais de 885 mil pessoas em áreas de risco.
Para a organização, portanto, o problema não é a falta de programas ou parceiros, mas de financiamento.
Em um país atingido simultaneamente por conflitos, deslocamentos, mudanças climáticas e pobreza, proteger as crianças não pode ser tratado como uma despesa secundária.
Reduzir a ajuda justamente no momento de maior necessidade pode representar, no futuro, um custo ainda maior em recursos, segurança, desenvolvimento perdido e vidas humanas. *Com informações de UNICEF