De uma infância marcada pela experiência da fragilidade à dupla vocação como cientista e sacerdote, a trajetória de Pierre Teilhard de Chardin narrada no documentário apresentado nesta segunda-feira, 20 de abril, na Filmoteca Vaticana. Entre pesquisa, fé e intuições proféticas como a noosfera, emerge a figura de um homem que buscou a Deus no âmago da evolução.
Silvia Guidi - Cidade do Vaticano Um menino e sua mãe estão em casa, sentados em frente à lareira; a mãe está cortando o cabelo da criança e, distraidamente, joga os cachos que cortou no fogo. Em poucos instantes, tudo desaparece, consumido pelas chamas. A criança olha para o fogo, tenta entender o que aconteceu e começa a chorar desesperadamente, sem conseguir parar. "Eu devia ter cinco ou seis anos; provavelmente foram as lágrimas mais amargas de toda a minha vida", escreve Pierre Teilhard de Chardin, o célebre jesuíta e paleontólogo que deu uma contribuição fundamental para a descoberta do Sinanthropus, relatando seu primeiro encontro, ainda criança, com a mortalidade e a impermanência das coisas. O pequeno Pierre percebe, de repente, que seu próprio corpo é algo destinado a perecer, que tudo o que vê pode ser destruído. Até mesmo a esplêndida paisagem da Auvergne, onde nasceu. O ferro rapidamente se transforma em ferrugem, os rostos daqueles que amamos estão destinados a mudar. No pequeno Pierre, esses pensamentos foram a semente de uma dupla vocação, como sacerdote e cientista, como explicam Frank e Mary Frost em seu documentário de 2023, "Teilhard visionary scientist" ("Teilhard: Cientista Visionário"), apresentado em Roma na tarde de 20 de abril na Filmoteca Vaticana. "Seu conceito de noosfera - enfatizam os Frosts - antecipou em décadas o mundo interconectado em que vivemos hoje". Durante a adolescência, seu amor pela natureza cresceu e sua consciência da vocação religiosa se aprofundou. Em 1899, ingressou no noviciado jesuíta em Aix-en-Provence para uma formação que, como a de todos os membros da Companhia de Jesus, durou 13 anos. Nomeado para a cátedra de física e química no colégio jesuíta do Cairo, iniciou sua primeira pesquisa de campo. "E foi o Oriente que vislumbrei e absorvi avidamente, sua luz, suas formas e seus desertos", escreve o homem a quem seus amigos muçulmanos chamavam de Sidi Marabout, uma pessoa protegida por Deus. "O mundo ainda está sendo criado, e nele, Cristo se cumpre. Quando compreendi e absorvi esta palavra, contemplei e percebi, como em êxtase, que por meio de toda a natureza eu havia mergulhado em Deus." Ordenado sacerdote em Hastings em 1911, ele escreveu: "Com todas as minhas forças, como sacerdote, quero ser o primeiro a perceber o quanto o mundo ama, busca e sofre... Mais profundamente humano, mais nobremente terreno do que qualquer outro servo do mundo." Sua paixão pela paleontologia o levou a estudar com o renomado cientista Marcelin Boule em Paris; a Primeira Guerra Mundial, presenciada de perto como socorrista, aprofundou sua fé e sua paixão pelo conhecimento, como se pode ver nas cartas que enviou à sua prima Marguerite durante a guerra. O documentário dedica bastante espaço às mulheres que estimavam e apoiavam o trabalho deste sacerdote, apaixonado pela vida e pelo conhecimento. Na China, onde viveu por vinte anos, Teilhard fez amizade com a escultora Lucile. Para evitar ambiguidades e mal-entendidos, em uma bela carta a Lucile, ele explica a misteriosa finalidade de sua vocação: "Não posso pertencer inteiramente a ninguém porque não pertenço mais a mim mesmo." Poucos meses antes de sua morte, em uma carta a um conhecido, ele escreveu: "Se não me engano, peço ao Senhor que me deixe morrer no Domingo de Páscoa". Em 15 de março de 1954, durante um almoço no Consulado Francês, confidenciou a seus familiares: "Gostaria de morrer no Domingo de Páscoa". No ano seguinte, em 10 de abril, faleceu em Nova York, após participar da solene Missa de Páscoa na Catedral de São Patrício.