Ucranianos no exterior também feridos pela guerra

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Ucranianos no exterior também feridos pela guerra
Fonte: VATICANO

No último domingo, foi realizada uma coleta entre os ucranianos greco-católicos que vivem na França, no Benelux e na Suíça, com o objetivo de contribuir para a criação, em sua missão em Lourdes, de um centro de cura espiritual destinado aos ucranianos traumatizados pela guerra. Entrevista com dom Ihor Rantsya, eparca de São Volodymyr, o Grande, em Paris.

Marie Duhamel – Cidade do Vaticano Nascido em 1978 na região de Lviv, no oeste da Ucrânia, dom Ihor Rantsya estudou geografia, filosofia e teologia antes de ir para a França, aos 36 anos, para estudar no Instituto Católico de Paris.

Ali, tornou-se diácono, vigário, administrador e, posteriormente, protossincelo da catedral de São Volodymyr, o Grande, de Paris.

Foi justamente naquele ano, 2022, que a Rússia lançou sua “operação especial” na Ucrânia.

Nomeado bispo por Leão XIV em outubro de 2025, dom Ihor Rantsya é atualmente eparca da Igreja Greco-Católica Ucraniana na França, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo e Suíça.

Em Roma na semana passada, para participar de uma formação destinada aos novos bispos, dom Rantsya falou sobre as feridas que a guerra provoca também no exterior entre seus fiéis. [ In Evidence ] Como sua comunidade vive a guerra em curso em seu país de origem?

Os fiéis fazem várias perguntas difíceis.

A primeira é: “Por que Deus não reage?

Onde está o Senhor nesta tragédia?

A Ucrânia é culpada?

O que fizemos para que essa injustiça histórica acontecesse?”.

A segunda é uma questão de ordem mais prática: “Como continuar a vida?”.

Hoje, duas opções se apresentam a eles: ou decidem voltar para a Ucrânia — mas, neste momento, é difícil concretizar projetos no país —, ou escolhem permanecer, e às vezes nossos fiéis vivem isso como uma pequena traição à sua pátria.

Isso não deixa de ter efeitos sobre seus pensamentos, sua vida mental e espiritual.

Quando o Papa denuncia as guerras ou o rearmamento, como fazer essa mensagem ser compreendida por seus fiéis, que têm familiares envolvidos na frente de batalha?

É uma questão difícil.

Antes de tudo, o Papa, seja Leão XIV ou, antes dele, Francisco, dirige-se à humanidade, a todos.

Ele não pode concentrar sua mensagem em uma situação particular e, de modo geral, para os ucranianos, é muito problemático quando as mensagens deixam de ser específicas.

Há sempre uma generalização das questões e, realmente, esperamos mensagens mais concretas, mais inclusivas, que nos digam respeito.

Também é preciso destacar que, muitas vezes, os ucranianos não escutam diretamente o Papa.

Eles não leem seus pronunciamentos, mas são influenciados por certas provocações lançadas nas redes sociais, e isso também influencia a percepção geral que têm da mensagem do Papa.

O senhor gostaria que o Papa fosse à Ucrânia?

Sim, certamente.

Ele também é chefe de Estado e outros já fizeram essa viagem.

Mas o Papa não iria para fazer pronunciamentos políticos; iria para estar com seus fiéis dos três ritos. [ Photo Embed: Bispo Ihor Rantia durante entrevista no Estúdio 9 da Rádio Vaticano] Os testemunhos de fé dos ucranianos nos parecem muito fortes quando vistos de Roma.

Essa fé precisa ser encorajada?

Os ucranianos precisam ser encorajados.

Na minha opinião, precisam que o mundo manifeste sua proximidade.

Quando uma pessoa passa por uma provação, se não está sozinha, pode enfrentar as situações, administrá-las e vivê-las de maneira diferente.

Sua primeira missão é, como o senhor afirma, abraçar seus fiéis com sua oração.

Mas parte de seu trabalho também consiste em fazer a Igreja e, naturalmente, aqui no Vaticano, compreender a importância que a guerra tem para os ucranianos?

Participei, de 7 a 11 de setembro, do curso de formação para novos bispos organizado pela Cúria em Roma.

Evidentemente, a guerra na Ucrânia não era o tema do curso, mas, durante as refeições ou nos encontros em pequenos grupos, procurei sempre explicar algumas coisas, porque percebi que os bispos vindos da África ou da Ásia não conhecem nossa situação.

Alguns pensam que os Estados Unidos estão fazendo a guerra na Ucrânia.

Outros não conhecem as Igrejas Católicas Orientais.

Por isso, eu e o outro bispo ucraniano presente em Roma procuramos nos aproximar deles para ajudá-los a compreender melhor nossa situação.

Quando o Papa defende o multilateralismo, a diplomacia e o diálogo, do seu ponto de vista é possível e desejável iniciar um diálogo de vida na França, no Benelux ou na Suíça com os ortodoxos ligados ao Patriarcado de Moscou e de toda a Rússia?

Na minha opinião, isso é inevitável, porque a natureza divina é uma natureza dialogal.

O Pai, o Filho e o Espírito Santo estão em diálogo, na Trindade.

A fonte da nossa vida é o nosso diálogo, a nossa oração com o Senhor.

Quando rompemos nosso diálogo, nos isolamos e estamos mortos.

Portanto, o diálogo tem um fundamento profundamente espiritual e deve ser considerado dessa maneira.

É preciso começar a criar vínculos, talvez informais, manter contato.

Existe, no entanto, uma condição para que esse diálogo aconteça: a justiça.

Sem justiça, é impossível ter um diálogo sincero com os russos e com a Igreja Ortodoxa Russa.

No que diz respeito à Igreja Ortodoxa Russa, há ainda outro problema.

Ela não reconhece a nossa Igreja, a Igreja Católica Bizantina.

Portanto, há coisas a fazer, mas, na minha opinião, é preciso considerar e transformar esse diálogo em um projeto. [ In Evidence ] Vivendo, como o senhor, em países europeus onde partidos favoráveis à Rússia têm ganhado espaço, que ações de defesa sua Igreja pode realizar?

Como fazer sua voz ser ouvida?

Penso que tudo deve estar baseado na verdade.

É preciso que os meios de comunicação ou as mensagens públicas a transmitam e combatam a propaganda.

É normal que existam diferentes correntes dentro da sociedade.

Mas, quando uma dessas partes utiliza meios de propaganda mais eficazes e dispõe de mais recursos financeiros, isso se torna um problema, porque a sociedade deixa de ter acesso à verdade.

Na minha opinião, o Estado — e talvez também a Igreja — deve acompanhar essa situação, para que todas as posições sejam representadas nos meios de comunicação.

O senhor considera importante mostrar o que é a guerra na Ucrânia?

Mostrar o horror da guerra para apresentar a realidade dos ucranianos, sua verdade?

É preciso reconhecer que o horror da guerra diz respeito aos dois lados.

Essa é uma verdade, ainda que alguns ucranianos não queiram que isso seja dito.

A guerra é sempre uma tragédia, dos dois lados.

Dito isso, a verdade pode ser gravemente afetada ou até mesmo deixar de existir.

Dou alguns exemplos.

Existe uma falsa ideia de que ucranianos e russos são uma mesma nação.

Diz-se que os ucranianos são um grupo étnico dentro da população russa, ou ainda que a Rússia é o país de origem que deu nascimento à Ucrânia.

Tudo isso não corresponde à verdade.

Para todos aqueles que estudaram a história, isso é evidente.

Relatar essas coisas dessa maneira é, portanto, um erro.

É propaganda, e é preciso recolocar as coisas em sua ordem.

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