Um novo olhar sensível em tempos de caça-cliques

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Um novo olhar sensível em tempos de caça-cliques
Fonte: VATICANO

Tema escolhido pelo Papa Leão XIV para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2027 motiva a Igreja a redescobrir a atenção como caminho de encontro.

Pe.

Tiago Barbosa, do clero de Marília (SP), assessor da Pascom no Regional Sul 1 da CNBB Quantas vezes você já abriu uma notícia porque o título dizia algo como: “Você não vai acreditar no que aconteceu”?

Ou começou a assistir a um vídeo porque a chamada prometia uma revelação que, no final, nem era tão surpreendente assim?

Essa experiência tão comum no ambiente digital tem nome: clickbait, expressão que pode ser traduzida como “caça-cliques” ou “isca de clique”.

São títulos, imagens ou chamadas construídos para despertar nossa curiosidade e conquistar aquilo que se tornou um dos bens mais disputados do nosso tempo: a atenção.

Nem sempre estamos diante de uma notícia falsa.

O conteúdo pode até ser verdadeiro, mas a chamada exagera, esconde parte da informação ou cria uma expectativa para provocar o clique.

Foi justamente essa realidade que apareceu no tema escolhido pelo Papa Leão XIV para a Mensagem do 61º Dia Mundial das Comunicações Sociais (DMCS): “Um novo olhar: ‘prestar atenção’ na era do clickbait”.

O tema da Mensagem para o DMCS de 2027 foi divulgado pelo Dicastério para a Comunicação nesta terça-feira, 29 de setembro, dia em que a Igreja celebra os Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael.

E talvez sua maior riqueza esteja no fato de que o Papa não nos convida simplesmente a discutir uma técnica utilizada na internet.

A provocação é muito mais profunda: o que está acontecendo com o nosso olhar em uma cultura que disputa permanentemente nossa atenção?

Vivemos cercados por conteúdos.

Acordamos e encontramos mensagens, notificações, vídeos, notícias e comentários.

Rolamos a tela e, antes mesmo de decidirmos se queremos continuar, outro conteúdo já aparece.

Nesse ambiente, todos querem alguns segundos dos nossos olhos, uma reação, um comentário, um compartilhamento, um clique.

E talvez estejamos aprendendo, sem perceber, a olhar depressa demais.

Vemos uma manchete e reagimos.

Vemos uma fotografia e julgamos.

Assistimos a alguns segundos de um vídeo e chegamos a uma conclusão.

Lemos um comentário e imediatamente queremos responder.

A velocidade da comunicação nem sempre é acompanhada pela profundidade do encontro.

É justamente neste ponto que a proposta do Papa Leão XIV se torna tão frutuosa e profética para a cultura que vivemos: precisamos reaprender a olhar.

Na apresentação do tema, o Dicastério para a Comunicação fala de uma verdadeira “conversão do olhar”: olhar novamente, com atenção e amor, aprendendo a enxergar o mundo, os outros e também nós mesmos como Cristo nos vê, chamados pelo nome e amados.

A reflexão, portanto, deixa de ser somente tecnológica e se torna profundamente cristã.

As plataformas possuem sua lógica própria.

Quem trabalha com comunicação precisa conhecer formatos, linguagens, alcance, métricas e algoritmos.

Mas conhecer essa lógica não significa assumi-la como critério para nossa maneira de comunicar o Evangelho.

Assim, o algoritmo pode premiar a agressividade, mas o Evangelho continua pedindo caridade.

Em tempos de redes, uma polêmica pode gerar alcance.

Uma resposta agressiva pode produzir engajamento.

Uma manchete exagerada pode conquistar mais cliques.

Mas, para o comunicador católico, existe uma pergunta anterior às métricas: o que estamos fazendo com as pessoas?

Antes do perfil existe uma pessoa.

Antes do comentário existe um coração humano.

Antes do número que aparece na tela existe uma história.

Antes do seguidor existe alguém que precisa ser reconhecido em sua dignidade.

E talvez aqui esteja uma chave preciosa para compreender o tema escolhido pelo Romano Pontífice: existe uma enorme diferença entre chamar a atenção e prestar atenção!

Chamar a atenção pode significar fazer de tudo para que alguém olhe para mim.

Prestar atenção significa dirigir meu olhar para alguém.

A primeira atitude pode colocar o outro a serviço do meu conteúdo.

A segunda coloca minha comunicação a serviço do outro.

Jesus sabia prestar atenção!

No meio da multidão, Ele enxergava pessoas.

Percebia quem estava à margem.

Fazia perguntas.

Escutava.

Chamava pelo nome.

Deixava-se tocar pelo sofrimento humano.

Seu olhar não transformava pessoas em audiência e engajamento; ao contrário, seu divino olhar produzia encontro.

Talvez seja justamente esse olhar repleto de sensibilidade que falte no hoje da comunicação da sociedade em geral e também nos esforços eclesiais.

Para quem comunica na Igreja, o desafio é ainda maior.

Antes de publicar, talvez precisemos aprender a perguntar: isso é verdadeiro?

É necessário?

É o momento?

Esta linguagem aproxima ou apenas provoca?

Preserva a dignidade das pessoas?

Estou comunicando para encontrar alguém ou apenas tentando conquistar sua atenção?

Há algum tempo tenho repetido em encontros de formação sobre comunicação uma convicção que o tema escolhido pelo Papa Leão XIV ajuda a aprofundar: Não basta alcançar.

É preciso encontrar.

Não basta aparecer.

É preciso estar presente.

Não basta publicar.

É preciso evangelizar!

As métricas têm sua importância, mas há frutos que nenhuma plataforma consegue medir.

Uma publicação pode ter poucas curtidas e ajudar alguém a voltar a rezar.

Um vídeo pode não viralizar e tocar profundamente uma pessoa.

Uma mensagem pode chegar justamente a quem precisava encontrá-la naquele momento.

Deste modo, há fecundidade que não possui métrica.

Em uma cultura que transforma nossa atenção em objeto de disputa, a comunicação cristã pode testemunhar outra maneira de estar no mundo: olhar sem imediatamente julgar; escutar sem preparar antecipadamente a resposta; reconhecer um rosto antes de enxergar um perfil; encontrar uma pessoa antes de classificá-la.

No fundo, o convite do Papa Leão XIV talvez seja simples e, ao mesmo tempo, profundamente exigente: em tempos de clickbait, quando tantos disputam nosso olhar, precisamos recuperar o olhar de Jesus, repleto de sensibilidade.

Um olhar que não captura, mas acolhe.

Que não rotula, mas reconhece.

Que não transforma pessoas em números, mas se deixa tocar por suas histórias a fim de transformá-las.

Porque a comunicação verdadeiramente católica começa justamente quando, no meio de tantos conteúdos disputando nossa atenção, conseguimos novamente enxergar a pessoa que está do outro lado da tela.

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