UNESCO: “A visita do Papa chega no momento certo para o nosso mundo”

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UNESCO: “A visita do Papa chega no momento certo para o nosso mundo”
Fonte: VATICANO

Em entrevista concedida aos meios de comunicação do Vaticano, a diretora-geral adjunta da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), Åsa Regnér, destaca a importância da presença de Leão XIV na UNESCO, em 25 de setembro, durante sua viagem apostólica à França. Ela ressalta como as instituições multilaterais podem continuar contribuindo para a construção da paz.

Isabella H. de Carvalho – Cidade do Vaticano Em 1980, o Papa João Paulo II pronunciou um histórico discurso na UNESCO, a agência das Nações Unidas dedicada à construção da paz e da segurança por meio da educação, da ciência e da cultura. 46 anos depois, enquanto o mundo continua marcado por conflitos e polarizações, as instituições multilaterais enfrentam uma crise e o rápido desenvolvimento da inteligência artificial suscita preocupações, outro Papa percorrerá os corredores da agência das Nações Unidas em Paris e se dirigirá à comunidade internacional, bem como aos parceiros e colaboradores da UNESCO.

Leão XIV visitará a UNESCO no primeiro dia de sua viagem apostólica à França, de 25 a 28 de setembro.

Åsa Regnér, diretora-geral adjunta da UNESCO, conversou com o Vatican News sobre a importância da visita do Papa e sobre como as instâncias multilaterais podem continuar trabalhando pela paz e enfrentando os grandes desafios que nossas sociedades enfrentam.

Qual é o significado da visita do Papa e o que a senhora espera de seu discurso?

Somos muito gratos a Sua Santidade por ter aceitado visitar a UNESCO.

Consideramos que esta visita chega em um momento muito oportuno.

A UNESCO foi criada em 1945 para preservar um espaço intelectual aberto: preservar a liberdade de expressão, de pensamento, da ciência e da informação, assim como os direitos humanos...

Foi fundada para criar um espaço intelectual livre de qualquer influência política, onde a ciência e os fatos possam circular livremente, para que os cidadãos dos Estados-membros possam tomar suas próprias decisões sobre suas vidas e suas sociedades.

Hoje vivemos uma época muito diferente daquela.

O Papa é uma das principais figuras mundiais, que expressa suas opiniões sobre ética e igualdade entre as pessoas e transmite uma forte mensagem de paz – algo que esteve na base do mandato da UNESCO e continua a estar.

Ao mesmo tempo, enfrentamos atualmente muitos problemas globais que se agravam simultaneamente.

Temos as mudanças climáticas, enfrentamos profundas desigualdades no mundo, conhecemos mais conflitos armados do que nunca, que também são mais longos e, na realidade, mais brutais devido a um desprezo sem precedentes pelo direito internacional.

Também enfrentamos tecnologias que evoluem muito rapidamente, e até mesmo aqueles que contribuíram para seu desenvolvimento nos alertam de que esses avanços podem estar acontecendo rápido demais para garantir a dignidade, os direitos e a autonomia do ser humano.

O Papa realmente se pronunciou sobre esses dilemas éticos: de um lado, o fato de que os seres humanos não sejam considerados como tendo o direito de decidir sobre o uso da tecnologia; de outro, o fato de que os seres humanos também deveriam desempenhar um papel na garantia da igualdade, do direito de cada pessoa à tomada de decisões, da dignidade etc.

Portanto, esta visita tem um caráter muito estratégico de modo geral, considerando a importância do Papa no mundo, mas também chega em um momento muito oportuno, levando em conta este contexto.

No dia da visita do Papa, está previsto o Fórum da Juventude na era da IA, para refletir com os jovens sobre os desafios contemporâneos colocados pela inteligência artificial, uma iniciativa da UNESCO.

O evento também se inspira na encíclica Magnifica Humanitas do Papa.

Como a UNESCO recebeu o texto de Leão XIV e quais pontos foram úteis para seu trabalho?

Isso é muito importante para o mundo e – naturalmente, quando Sua Santidade, o Papa, se pronuncia, isso sempre desperta muita atenção –, mas penso que esta publicação teve um alcance ainda maior e realmente interpelou os jovens.

É um tema sobre o qual queremos trabalhar durante a manhã, antes que Sua Santidade vá à UNESCO.

Organizaremos uma discussão com jovens mulheres e homens, cujas reflexões alimentarão posteriormente o encontro previsto com o Papa.

Penso que Sua Santidade se antecipou, embora este documento tenha sido publicado apenas há alguns meses.

Basta observar os alertas lançados nas últimas semanas por alguns dirigentes de empresas de tecnologia.

O Papa realmente tocou em um ponto sensível e abordou questões que interessam às pessoas.

Já organizamos um debate com jovens, em colaboração com nosso país anfitrião, a França.

O ministro francês das Relações Exteriores esteve presente e encontrou-se com jovens que lhe apresentaram os resultados de uma pesquisa que havíamos realizado.

Eles disseram que, no que diz respeito ao uso das redes sociais e da inteligência artificial, frequentemente lhes dizem que dominam bem a tecnologia e que, portanto, podem cuidar dela sozinhos.

Os jovens responderam: “Não, não nos deixem sozinhos.

Somos capazes de tomar decisões por nós mesmos, mas precisamos de um diálogo sobre isso e, quer a geração mais velha compreenda ou não, a questão é ampla demais para considerar que diz respeito apenas à nossa geração.

Precisamos que a geração mais experiente nos acompanhe e também assuma suas responsabilidades.” Os jovens fizeram muitas contribuições; também apresentaram muitas reflexões sobre a paz e a igualdade, seja a igualdade de renda, a igualdade racial ou a igualdade entre os sexos, tanto dentro dos países e regiões quanto entre eles.

Por isso, estou ansiosa para ouvir mais na manhã de sexta-feira, antes da visita do Papa.

A UNESCO e a Santa Sé trabalham ambas para promover a dignidade humana em um contexto de rápidas transformações tecnológicas.

Como isso pode ser realizado hoje, especialmente em um mundo que tende a caminhar na direção oposta?

A UNESCO dispõe de diferentes instrumentos para isso, e trabalhamos especificamente com a IA em todos os níveis da organização.

Temos um setor de ciências, assim como um setor de comunicação e informação, e ambos se interessam, cada um à sua maneira, pela IA ou pelas novas tecnologias, assim como pela dignidade humana e pelos direitos humanos.

Por exemplo, acabamos de publicar um relatório sobre IA e gênero, que apresenta nossas ações, nossos conhecimentos e as redes de que dispomos.

Temos uma rede chamada “Women for Ethical Use of AI” (Mulheres pelo Uso Ético da IA), que encontrei recentemente.

Trata-se de pesquisadoras de destaque nessa área, que consideram existir uma disparidade entre os sexos não apenas quanto à composição das instâncias de decisão relacionadas às novas tecnologias, mas também quanto à maneira como as redes sociais podem ser, de diferentes formas, benéficas e prejudiciais para mulheres e homens.

Já em 2021, a UNESCO publicou diretrizes sobre o uso ético da IA destinadas aos Estados-membros, e elas foram adotadas por estes.

Recentemente, estive na Arábia Saudita, que sediou uma grande conferência mundial da UNESCO sobre IA e ética.

O que a UNESCO também fez depois da publicação dessas diretrizes foi propor aos Estados-membros um processo que lhes permitisse fazer uma autoavaliação por meio de uma lista de verificação ou de um questionário de avaliação.

Esses processos foram implementados em 78 países, e muitos deles se reuniram na Arábia Saudita para trocar experiências: quais conclusões vocês tiraram, quais são suas ações no campo dos serviços médicos ou da pesquisa, como seu processo ético em matéria de IA influenciou as reformas na educação etc.

A UNESCO pode promover um debate intelectual sobre esse tema com base nas pesquisas mais recentes, mas também fornecer instrumentos concretos àqueles que devem prestar contas aos cidadãos.

Também gostaria de mencionar que, na minha opinião, algumas empresas de tecnologia são hoje gigantescas e, às vezes, até mais poderosas do que alguns Estados-membros ou Estados nacionais individualmente; é evidente que elas também precisam prestar contas, embora de maneiras diferentes.

A UNESCO pode apenas oferecer essas informações e esses processos; cabe então aos Estados-membros decidir por si mesmos se desejam legislar ou regulamentar.

Alguns deles escolheram fazê-lo com base nos instrumentos da UNESCO.

O Papa frequentemente falou sobre a crise do multilateralismo no mundo atual, mas também sobre o papel essencial das Nações Unidas como instrumento de promoção de uma civilização do amor.

Como instituição multilateral, o que a senhora pensa deste período de crise e como a UNESCO e os demais órgãos das Nações Unidas podem trabalhar para continuar promovendo a paz e ajudar os mais necessitados?

Esse é o nosso pão de cada dia; é uma discussão que temos aqui todos os dias, ou até quase todas as horas.

As Nações Unidas elegerão seu novo dirigente [o secretário-geral, nota da redação] neste outono; portanto, deveríamos ter alguém que assumirá o cargo em 1º de janeiro de 2027.

Há, sem dúvida, uma crise do multilateralismo; há também uma crise financeira, uma crise de confiança, e penso que existe uma crise relacionada ao fato de o Conselho de Segurança não conseguir chegar a um acordo sobre tantas questões quanto seria necessário para realmente alcançar acordos de paz e iniciar negociações.

Ao mesmo tempo, a ONU está presente.

É a única organização mundial que realmente existe e da qual todos os Estados são efetivamente membros; ela também desempenha uma enorme missão humanitária, realizada em mais países do que nunca e, infelizmente, por períodos mais longos, porque é disso que o mundo precisa atualmente.

Ela continua trabalhando em favor do desenvolvimento e ajudando os governos a fortalecer suas capacidades e seus sistemas em benefício das pessoas que mais precisam.

A UNESCO, evidentemente, faz parte dessa grande família.

Penso que é importante que as Nações Unidas recuperem uma influência manifesta nas negociações de paz, na construção da paz e na manutenção da paz, no espírito para o qual foram originalmente criadas.

As expectativas em relação ao novo secretário-geral são enormes, mas existem pessoas competentes que desejam assumir essa tarefa.

Quando ele ou ela for eleito, será importante oferecer apoio e trabalhar pelo objetivo comum de uma maior paz no mundo e do respeito à Carta das Nações Unidas, assim como à Carta da UNESCO.

No final dos anos 1980, o mundo caminhava para o fim dos regimes totalitários, e a educação já era apresentada como um caminho para a compreensão mútua e o respeito às diferenças.

Hoje, o mundo está mais dividido do que nunca, e o multilateralismo dá lugar ao recurso à força.

Como recolocar o diálogo pacífico no centro das preocupações?

Que papel a UNESCO pode desempenhar?

Essa é evidentemente a pergunta de um milhão de dólares, mas acredito firmemente que é preciso apoiar-se no diálogo, em fatos concretos que envolvam o setor privado, a sociedade civil e as pessoas que se organizam porque têm opiniões e desejam se comprometer mais, em um espírito de solidariedade.

No nosso caso, isso também significa dialogar com pesquisadores, cientistas, bibliotecários, professores, organizações filantrópicas, o setor privado, todos aqueles que desejam um mundo melhor, ao lado dos Estados-membros.

Essa é sempre a chave.

Vemos aliados em todos os grupos que mencionei e que desejam avançar.

Acredito que o diálogo e encontros como aquele que teremos na sexta-feira, assim como discussões fundamentadas em fatos e na liberdade de expressão, são aquilo de que precisamos.

Realmente não vejo outra solução.

Também precisamos denunciar o fato de que existe um risco quando o poder e os recursos se concentram nas mãos de poucas pessoas, em detrimento da maioria: isso não é algo positivo.

Como podemos contribuir para promover a igualdade, uma educação de qualidade para todos, a esperança e tentar restabelecer a confiança?

Somente quando existe confiança é possível construir sociedades que realmente trabalhem pelo bem de todos.

Não é uma tarefa pequena.

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