Uruguai e o ouro azul do Guarani: irmã Rita destaca que visita do Papa pode impulsionar o cuidado com a Criação

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Uruguai e o ouro azul do Guarani: irmã Rita destaca que visita do Papa pode impulsionar o cuidado com a Criação
Fonte: VATICANO

No país onde, em 60 mil quilômetros quadrados de seu subsolo, está localizada parte da maior reserva subterrânea de água doce do mundo, as Franciscanas do Verbo Encarnado participam da Rede Eclesial do Grande Chaco e Aquífero Guarani (REGCHAG), lançada em 2022, por incentivo do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM), para promover a ecologia integral, a sinodalidade e a defesa da biodiversidade contra o extrativismo, o desmatamento e a poluição.

Antonella Palermo – Enviada a Montevidéu Que o Uruguai já não é aquela “Suíça da América do Sul”, para onde tantos europeus vieram morar — entre eles, numerosos italianos que chegaram a partir da década de 1950 —, é uma constatação compartilhada por todos no país que receberá o Papa de 6 a 8 de novembro.

São muitas as desigualdades, talvez pouco visíveis, mas que se acentuam apesar da estabilidade política e dos padrões de assistência sanitária, considerados bastante satisfatórios para a população.

O sistema educacional, por sua vez, apresenta dificuldades, e as áreas de pobreza, mais disseminadas do que se imagina, refletem essa realidade.

Essa é a avaliação da irmã Rita Fierro, que dedicou a vida ao ensino e é missionária franciscana do Verbo Encarnado.

Também de origem italiana, ela manifesta preocupação sobretudo com as consequências dos “modelos de produção predominantes, que nem sempre seguem a orientação evangélica.

Penso que esse tema será abordado no encontro na universidade, no dia 7 de novembro”, confidencia. [ Photo Embed: Os diálogos territoriais promovidos pela Rede Eclesial] Religiosas comprometidas com o cuidado da Casa Comum   “Graças a Deus, temos muitos jovens que estudam e que realmente desejam uma existência fundamentada na justiça social”.

O problema, porém, é garantir a todos o acesso a uma educação escolar de qualidade e que ofereça perspectivas concretas para o futuro.

As religiosas de sua comunidade — que vivem em um povoado de aproximadamente mil habitantes, no departamento de Durazno — dedicam-se a essa tarefa, tornando-se uma verdadeira família para adolescentes cujos pais moram em regiões distantes. “São jovens que frequentam a escola pública, mas depois passam o tempo conosco”.

Entre os valores fundamentais que as irmãs procuram transmitir às novas gerações está o cuidado com a Casa Comum.

A consciência sobre essa responsabilidade amadureceu na experiência anterior de irmã Rita na África Centro-Ocidental, onde aprendeu o quanto é imprescindível manter uma relação profunda com a natureza e com os antepassados. “Vivemos egoisticamente o nosso presente.

E ponto final.

Somos apenas administradores do mundo, não seus proprietários.

Rezo para que possamos viver uma verdadeira fraternidade e acabar com a exploração.

A fé exige, todos os dias, trabalho, responsabilidade, compromisso e, às vezes, até riscos.

Em nossas regiões, muitas pessoas morrem para defender os territórios dos povos indígenas.

Todos temos algo a fazer.

Deus nos espera”.

A Rede Eclesial do Grande Chaco e do Aquífero Guarani   Juntamente com a irmã Nahir Curbelo, com quem certamente estará presente na Missa presidida pelo Papa no domingo, 8 de novembro, em Florida, irmã Rita integra a Rede Eclesial do Grande Chaco e Aquífero Guarani (REGCHAG).

A iniciativa foi lançada no final de 2022, por incentivo do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho), com o objetivo de promover a ecologia integral, a sinodalidade e a defesa da biodiversidade, da água — com atenção especial ao Aquífero Guarani e aos rios da região — e das populações que habitam esses territórios, diante das ameaças do extrativismo, do desmatamento e da poluição.

As religiosas estão elaborando um relatório sobre a situação socioambiental do Uruguai, com foco na conscientização sobre a defesa da água como direito humano fundamental. “Promovemos os Diálogos Territoriais: espaços de escuta, reflexão e compromisso nos quais vieram à tona problemas relacionados aos possíveis impactos dos aterros sanitários sobre os cursos de água; à migração das áreas rurais, provocada pela falta de oportunidades de trabalho; à pouca valorização do papel das mulheres na sociedade e das culturas indígenas; e à má gestão das pastagens, consequência da adoção de modelos estrangeiros”. [ Photo Embed: Vistorias de locais em territórios uruguaios] Os riscos para a maior reserva subterrânea de água doce do mundo   Em colaboração com a Universidade da República, a rede participa, entre outras atividades, de um projeto de monitoramento de poços de água no norte do país, região situada sobre o Aquífero Guarani.

O objetivo é reunir dados objetivos sobre a influência das atividades extrativas nos níveis de água.

Existe uma comissão específica que reúne instituições estatais, empresas privadas, universidades e organizações sociais.

Isso porque, no Uruguai, a contaminação provocada por produtos agroquímicos é um problema bastante disseminado e, conforme lamenta a irmã Nahir, agravado pela falta de fiscalização.

Quase 60 mil quilômetros quadrados do subsolo uruguaio abrigam parte do Aquífero Guarani, a maior reserva subterrânea de água doce do planeta, com aproximadamente 1,2 milhão de quilômetros quadrados, abrangendo territórios da Argentina, do Brasil, do Paraguai e do Uruguai.

Esses são também os quatro primeiros países sul-americanos que deram origem ao Mercosul, cuja sede está instalada em um edifício histórico de Montevidéu.

A presidência pro tempore do bloco é exercida pelo presidente do Uruguai até dezembro. [ Photo Embed: As freiras franciscanas com os estudantes uruguaios que apoiam] A gratidão ao Papa por seu compromisso com a promoção da paz   O paradoxo é que, “em teoria, o Uruguai possui um dos modelos de gestão virtuosa da água, que não está submetida à privatização.

No entanto, são facilitados investimentos privados no financiamento de grandes infraestruturas hidráulicas que prejudicam o consumo, sobretudo nas comunidades mais pobres”. “Esperamos que o Papa fale sobre os modelos de desenvolvimento e suas implicações, especialmente no que diz respeito à vida dos jovens e ao futuro.

É necessária uma consciência crítica, particularmente no interior das comunidades eclesiais.

Gostaríamos de dizer ao Papa Leão que apreciamos sua firme posição na busca pela paz — continua a franciscana — e que apoiamos sua liberdade de continuar se manifestando contra os poderosos interesses envolvidos nos conflitos armados”.

Que a defesa da nossa Casa Comum, é o apelo que se eleva do Uruguai às vésperas da visita pontifícia, continue sendo aprofundada no magistério do Papa e nas comunidades eclesiais locais.

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