"Durante todo o seu sacerdócio, Sheen colocou a oração no centro de seu apostolado: falava corajosamente de Jesus em público, mas somente depois de tê-lo escutado em particular, em oração diante da Eucaristia. Desde o dia de sua ordenação, sua dedicação à Hora Santa diante do Santíssimo Sacramento tornou-se uma das práticas distintivas de sua vida espiritual. Considerava esse tempo de oração essencial para sua identidade como sacerdote e para a fecundidade de seu ministério".
Vatican News A vigília da beatificação de Fulton J.
Sheen, celebrada na catedral de Saint Louis, reuniu peregrinos vindos de diferentes partes dos Estados Unidos e evidenciou uma característica central da vida do arcebispo norte-americano: a capacidade de unir profunda vida espiritual, formação intelectual e paixão missionária.
Sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos lotaram a igreja na noite anterior à cerimônia, muitos deles desejosos de participar de um momento que consideravam histórico.
Entre os presentes estavam católicos das dioceses de Saint Louis e Peoria, além de grupos vindos de outros Estados, como os fiéis do Alabama que chegaram em uma van com um cartaz: “Católicos do Alabama a caminho para celebrar o Venerável Beato Fulton Sheen”.
Fulton Sheen e a amizade com Cristo A celebração das Vésperas foi presidida pelo arcebispo Mitchell Rozanski, de Saint Louis, e contou com a presença de quatro cardeais norte-americanos — Seán O’Malley, Raymond Burke, Blaise Cupich e Robert McElroy — além do cardeal Luis Antonio Tagle, pró-prefeito do Dicastério para a Evangelização.
A homilia foi proferida pelo bispo Robert Barron, de Winona-Rochester, fundador da organização católica de evangelização pelos meios de comunicação Word on Fire. [ In Evidence ] Barron recordou que Sheen foi para ele um “modelo e fonte de inspiração” desde o início de seu próprio trabalho evangelizador.
O bispo destacou o papel pioneiro do arcebispo na utilização do rádio e da televisão para anunciar o Evangelho a milhões de pessoas.
Mas, segundo Barron, a dimensão mais importante da vida de Sheen não está no sucesso de seus programas nem na sua capacidade de comunicação.
A questão fundamental é outra: o que fez de Fulton Sheen um homem santo?
A resposta apresentada pelo pregador foi a amizade com Cristo.
Para Sheen, explicou Barron, o cristianismo não era simplesmente uma filosofia ou um conjunto de normas morais.
Era, antes de tudo, o encontro e a relação com uma Pessoa viva: Jesus Cristo.
A partir da autobiografia de Sheen, Treasure in Clay (Tesouro no barro), e do chamado do profeta Isaías, Barron apresentou três momentos da vida espiritual: o encontro com a santidade de Deus, o reconhecimento da própria fragilidade e a resposta ao chamado divino.
A graça antes da missão A vida espiritual, segundo a perspectiva apresentada por Barron, começa com a graça.
Antes de qualquer realização pessoal, existe a iniciativa de Deus.
Na trajetória de Sheen, essa presença da graça podia ser reconhecida desde a infância, passando pelo batismo e pela formação sacerdotal, até o período de estudos em Lovaina e às experiências que aprofundaram sua fé.
Barron também recordou dois elementos essenciais da espiritualidade de Sheen: sua devoção à Virgem Maria e, sobretudo, a prática diária de uma Hora Santa diante do Santíssimo Sacramento.
A adoração não era para ele uma atividade separada da missão.
Era o espaço no qual permanecia diante de Cristo e encontrava a força necessária para servi-lo.
Essa dimensão contemplativa ajuda a compreender a relação entre oração e comunicação na vida do futuro beato.
Antes de falar às multidões, Sheen procurava permanecer diante daquele de quem desejava falar.
A evangelização pelos meios de comunicação nascia, assim, de uma vida espiritual alimentada pela oração e pela Eucaristia.
O tesouro em um vaso de barro Outro aspecto ressaltado por Barron foi a capacidade de Sheen de reconhecer suas próprias limitações.
Em sua autobiografia, o arcebispo não esconde sua atração pelos honras, privilégios e reconhecimento associados à sua posição como professor, pregador e personalidade pública.
É justamente aí que aparece a imagem presente no título Treasure in Clay: um tesouro guardado em um vaso frágil.
Para Barron, a consciência das próprias fraquezas não contradiz a santidade.
Ao contrário, pode fazer parte do caminho pelo qual uma pessoa se abre à graça.
Reconhecer-se pecador, explicou o bispo, não significa afastar-se de Deus.
É justamente a luz da graça que permite perceber com maior clareza a própria fragilidade.
A santidade de Sheen, portanto, não estava baseada em uma imagem de perfeição humana, mas na disposição de deixar-se transformar por Cristo. [ In Evidence ] Um precursor da nova evangelização Depois da graça e da conversão vem a missão.
Barron recordou que Sheen procurou preparar-se intelectualmente para dialogar com o mundo de seu tempo.
Seus estudos não se limitaram à teologia: ele se interessou também pela arte, pela ciência, pela filosofia e pela literatura da sociedade contemporânea.
Essa abertura tinha uma finalidade missionária.
Sheen desejava apresentar a fé cristã de maneira capaz de dialogar com as questões, inquietações e linguagens de sua época.
O rádio e, posteriormente, a televisão ofereciam uma possibilidade inédita de ampliar o alcance de sua sala de aula.
Foi assim que Sheen se tornou um dos pioneiros da presença católica nos meios de comunicação de massa.
Mesmo diante das dúvidas de alguns acadêmicos sobre a possibilidade de apresentar conteúdos teológicos complexos a um público televisivo amplo, ele demonstrou que a profundidade da fé podia alcançar grandes audiências sem abandonar sua riqueza.
Barron relacionou essa experiência com o caminho posteriormente assumido pela Igreja na evangelização contemporânea.
O Concílio Vaticano II apresentou a Igreja como chamada a levar a luz de Cristo a todos os homens e mulheres, enquanto Paulo VI, na Evangelii nuntiandi, destacou a evangelização como missão essencial da Igreja.
João Paulo II desenvolveu posteriormente o conceito de “nova evangelização”, que continuou a marcar o magistério dos papas seguintes.
Nesse sentido, Fulton Sheen aparece como uma figura que antecipou, com os meios disponíveis em seu tempo, uma questão que permanece atual: como anunciar a antiga mensagem do Evangelho utilizando as novas linguagens da sociedade?
Uma missão que atravessa gerações A presença de Sheen na Catedral de Saint Louis, mesmo décadas depois de sua morte, foi evocada também pelos mosaicos do templo.
As imagens de santos missionários como Santa Rose Philippine Duchesne, Santo Isaac Jogues, São René Goupil, Santa Kateri Tekakwitha e Santa Francesca Saverio Cabrini recordam diferentes capítulos da evangelização da América do Norte.
Há entre essas figuras uma diversidade de contextos e experiências: as missões junto aos povos indígenas, o testemunho dos mártires, a educação, o trabalho pastoral e o atendimento às comunidades de imigrantes.
Sheen se insere nessa história não simplesmente por ter utilizado rádio e televisão, mas porque colocou esses instrumentos a serviço de uma missão muito mais antiga.
A mensagem da vigília, portanto, ultrapassou a celebração de um pioneiro da comunicação católica.
A trajetória de Fulton Sheen foi apresentada como um itinerário no qual oração, formação, reconhecimento da própria fragilidade e compromisso missionário se encontram.
Sua contribuição para a evangelização dos meios de comunicação ganha sentido dentro de uma vida orientada para Cristo.
Quando as Vésperas terminaram, os peregrinos permaneceram diante da catedral, conversando e compartilhando a experiência.
Uma família pediu a bênção de Barron.
Pouco depois, em um supermercado, um jovem perguntou a um sacerdote por que havia tanta gente reunida.
A resposta abriu uma oportunidade inesperada de evangelização: “Você conhece Fulton Sheen?”. “Não...”.
Então o sacerdote começou a contar sua história.
E talvez essa cena sintetize a própria herança de Sheen: a comunicação só cumpre plenamente sua finalidade quando se transforma em encontro e quando uma pessoa ajuda outra a descobrir a beleza da fé. *Com informações de Agência Fides