Nesta manhã, no dia da Sexta-feira Santa, dez frades franciscanos puderam realizar o antigo rito da Via-Sacra pela Cidade Velha de Jerusalém.
Ibrahim Faltas * Desde 28 de fevereiro passado, não foi possível viver plenamente o tempo forte da Quaresma devido à guerra que se alastrou pelo Oriente Médio, chegando a atingir também Jerusalém. Pela mesma razão, não poderemos participar em grande número dos ritos e liturgias do Tríduo Pascal, firmemente ligados há milênios aos Lugares que testemunharam e sentiram a vida de Nosso Senhor e, posteriormente, Sua dolorosa Paixão e Morte. Os dias e as horas do Tríduo Pascal alternam a dor pela prisão e condenação à morte de Jesus, traído e negado, com a escuridão da solidão e do abandono à vontade do Pai, antes de finalmente ver a Luz. A Via-Sacra da Sexta-feira Santa de 2026, percorrida pela Cidade Velha de Jerusalém, meditando sobre as provações de Jesus sob o peso da Cruz na Via Dolorosa, foi seguida por apenas dez franciscanos, liderados pelo Custódio da Terra Santa, padre Francesco Ielpo. Lembro-me da Via-Sacra da Sexta-feira Santa de 2020, quando, devido às restrições impostas pela pandemia, apenas o então Custódio, padre Francesco Patton, eu e o guardião de São Salvador, padre Marcelo Cicchinelli, pudemos percorrer a Via Dolorosa meditando e rezando a devoção tão querida aos peregrinos e aos fiéis locais, sem a presença deles e sob o olhar de cerca de cinquenta militares. Não sabemos ao certo quando começou a devoção da Via-Sacra pela Cidade Velha de Jerusalém, meditando sobre as provações de Jesus sob o peso da Cruz. Podemos imaginar que Maria, a Mãe de Deus, tenha percorrido o mesmo caminho do Filho, talvez logo após Sua Morte; podemos imaginar a dor do coração aflito de uma Mãe que revê as pedras sobre as quais o Filho caiu, sente novamente Seus passos e continua a sofrer pelas humilhações sofridas. A peregrina Egeria havia transmitido a notícia da prática religiosa de Jerusalém que relembrava a Paixão de Jesus nos locais onde ela realmente ocorreu. Muitos peregrinos, cronistas e historiadores deixaram vestígios dessa devoção, mas é muito provável que tenha sido a devoção de São Francisco pela Paixão do Senhor Jesus a dar impulso a esse exercício piedoso, como fruto de sua peregrinação de paz à Terra Santa. O Santo de Assis amava Jesus imensamente; ele havia empreendido a Santa Viagem com o forte desejo de poder visitar e cuidar dos Lugares Santos. Gostaria de imaginar que, justamente na Via Dolorosa, São Francisco tenha cultivado o desejo de que seus frades se tornassem guardiões dos Lugares Santos. Ele amava com ternura o Menino Jesus, quis recordá-lo e tê-lo sempre visivelmente presente nos olhos e no coração, encenando o primeiro Presépio em Greccio. Desde 1333, há quase setecentos anos, guardamos a Memória dos Lugares da Salvação e, por mandato da Santa Sé desde 1342, quando o Papa Clemente VI nos pediu oficialmente “que permanecêssemos nos Lugares Santos e ali celebrássemos Missas cantadas e os Ofícios Divinos”. Para nós, franciscanos, é um privilégio que guardamos zelosamente e uma honra que nos permite enfrentar dificuldades e privações em uma terra santificada pela presença de Deus, ofendida e amargurada por conflitos e tensões. No caminho que nos levará à Santa Páscoa de 2026, encontramos violência, morte e dor pelo sofrimento de tantos irmãos a quem foram negados tantos direitos, a quem foi negado o amor. Podemos, porém, registrar uma alegria fraterna e uma grande honra para a Custódia da Terra Santa: o Santo Padre, Leão XIV, solicitou pessoalmente que fosse o Padre Francesco Patton, ex-Custódio da Terra Santa, a preparar as meditações para a Via Sacra que todos os anos é celebrada no Coliseu e guiada pelo próprio Pontífice. Um momento de graça para a Custódia da Terra Santa em meio a tantas tribulações por uma Terra que testemunhou o sofrimento de Cristo, que agora se reflete no sofrimento de uma humanidade ferida e ultrajada. * Responsável pelas escolas da Custódia da Terra Santa