A iniciativa, organizada pelo Conselho Missionário Arquidiocesano (COMIDI) com a presença próxima de Dom Paulo Andreolli, bispo auxiliar, não foi apenas um evento protocolar. Foi um mergulho na história de quem, provocado pelo Evangelho, não recuou diante das cercas, das ameaças ou da injustiça.
Vívian Marler - Assessora de Comunicação CNBB Regional Norte 2 O calendário marcava o fim de março, mas nas paróquias de Belém, o que se sentia era o vigor de um recomeço. A Arquidiocese de Belém encerrou nesta terça-feira (31/03), a “Vigília dos Missionários Mártires da Caminhada”, uma jornada que, ao longo de dez dias, percorreu 12 comunidades, levando mais do que ritos, mas um exercício vivo de memória e compromisso social. A iniciativa, organizada pelo Conselho Missionário Arquidiocesano (COMIDI) com a presença próxima de Dom Paulo Andreolli, bispo auxiliar, não foi apenas um evento protocolar. Foi um mergulho na história de quem, provocado pelo Evangelho, não recuou diante das cercas, das ameaças ou da injustiça. Sob a inspiração de São Oscar Romero, o bispo que se fez voz dos sem voz em El Salvador, as vigílias recordaram homens e mulheres que entregaram a vida para que o próximo pudesse ter dignidade. Na memória do saudoso Papa Francisco, “os mártires não são heróis do passado, mas sinais de que a Igreja está no caminho certo quando se coloca ao lado dos vulneráveis”. Durante as noites de oração, histórias de religiosos e leigos foram partilhadas, não como lamento, mas como combustível. Relembrar a luta pela terra, pela justiça e pela fidelidade ao Reino de Deus é uma forma de renovar o compromisso que cada cristão assume no batismo. A Vigília deixou um recado claro, o testemunho desses “profetas da selva” e da cidade continua ecoando. Suas vidas ensinam que amar a Cristo exige um serviço concreto, muitas vezes difícil, mas sempre amparado pela força do Espírito Santo. Em Belém, a memória dos mártires provou que o sangue derramado por amor nunca é em vão; ele se torna semente de uma Igreja mais corajosa e fiel. Missionários Mártires no Pará e Amapá Falar de martírio na Amazônia é tocar em feridas abertas, mas também em fontes de esperança. No Pará, a luta pela terra e pela floresta moldou o perfil de nossos mártires. E dentre os Mártires da Vigilia estavam: Irmã Dorothy Stang (2005): A Voz de Anapu – Nascida nos EUA, Dorothy escolheu o Pará como pátria. Em Anapu, ela se tornou o escudo dos pequenos agricultores contra a ganância do latifúndio. Foi assassinada aos 73 anos com seis tiros, segurando a Bíblia e lendo as Bem-aventuranças. Hoje, seu túmulo em Anapu é lugar de peregrinação e resistência ambiental. Padre Josimo Morais Tavares (1986): O Mártir da CPT em Marabá – Um orgulho e uma dor para a nossa região. Josimo, nascido em Marabá e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), sabia que estava marcado para morrer. “Tenho que assumir”, disse ele pouco antes de ser baleado em Imperatriz. Sua luta contra a opressão dos posseiros no Bico do Papagaio fez dele um símbolo eterno da juventude e do clero engajado na justiça social. Padre João Bosco Burnier (1976): O Gesto de Coragem – Jesuíta mineiro, Burnier foi assassinado em Mato Grosso, mas sua história é indissociável da missão amazônica. Ele morreu ao interceder por duas mulheres que estavam sendo torturadas em uma delegacia. Seu gesto de proteção ao próximo resume o que significa ser missionário na linha de frente dos conflitos humanos. Padre Ezequiel Ramin (1985): O Defensor da Ecologia Integral – Missionário Comboniano, Ezequiel foi metralhado ao tentar mediar um conflito de terra. Embora seu martírio tenha ocorrido em Rondônia, sua memória é celebrada em todo o Pará por representar a missão junto aos povos indígenas e camponeses, antecipando o que hoje chamamos de “ecologia integral”. Amapá: A Missão da Perseverança Diferente do Pará, o Amapá não possui registros de martírio por assassinato político-fundiário com o mesmo destaque histórico. No entanto, a memória missionária no Amapá é marcada pelo martírio da perseverança. O Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras (PIME), que atua no estado há décadas, é o guardião dessa história. Ali, o “martírio” se dá no cotidiano, na resistência contra o isolamento geográfico, na luta contra a exploração predatória de recursos e na defesa das comunidades ribeirinhas e quilombolas. A memória local honra figuras que, embora não tenham morrido pela espada, consumiram suas vidas inteiras no serviço silencioso à Amazônia, como o legado de Dom Aristides Pirovano, o primeiro bispo de Macapá, que dedicou sua existência à caridade e à organização da Igreja local.