Na véspera da primeira visita de Leão XIV à Biblioteca Apostólica Vaticana, o arcebispo Giovanni Cesare Pagazzi reflete sobre o vínculo entre o ministério do Papa e o serviço à cultura, sobre o diálogo com a arte contemporânea e sobre o valor da leitura, “antídoto contra as polarizações”. Um olhar também sobre a inteligência artificial, que pode ampliar o acesso ao conhecimento, mas corre o risco de se tornar um “atalho” capaz de roubar tempo e ansiedade dos desejos.
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Nas palavras do arcebispo Giovanni Cesare Pagazzi, arquivista e bibliotecário da Santa Igreja Romana, está resumido o significado da primeira visita do Papa Leão XIV à Biblioteca Apostólica Vaticana.
O Pontífice entra em “sua” Biblioteca, local de conservação e estudo, mas também instrumento necessário para aquele serviço universal que exige conhecimento, memória e capacidade de interpretar o presente.
Nesta segunda-feira, 14 de setembro, Leão XIV visita a Biblioteca para inaugurar AQVA, o primeiro capítulo do ciclo de exposições “Catástrofe e Maravilha”.
O projeto expositivo, realizado com o apoio da Fundação Roma e de Intesa Sanpaolo, representa um novo capítulo da missão de conservação e divulgação da Biblioteca Vaticana e é dedicado a uma reflexão sobre os elementos naturais como espelho dos medos e das esperanças da humanidade.
O primeiro evento é dedicado à água, que, partindo da percepção inicial de uma força ameaçadora, torna-se o centro de um percurso de reconciliação capaz de restaurar seu valor como recurso vital.
Na exposição, as obras de três criativos contemporâneos – o artista JR, o tipógrafo Bill Moran e o chef Fulvio Pierangelini – dialogam com o patrimônio e os ambientes da Biblioteca do Papa.
Nesta entrevista concedida à mídia vaticana, o arcebispo Giovanni Cesare Pagazzi aprofunda o significado da primeira visita de Leão XIV à Biblioteca Apostólica Vaticana e o valor de um gesto que relembra o vínculo entre o ministério do Sucessor de Pedro e o serviço à cultura.
Pagazzi reflete ainda sobre a missão da Biblioteca como local de preservação, pesquisa e diálogo, sobre a relação entre patrimônio histórico e arte contemporânea, sobre a importância da leitura na formação de um julgamento livre e responsável, sobre seu valor como antídoto contra as polarizações e, por fim, sobre os desafios impostos pela Inteligência Artificial à luz do magistério mais recente do Papa Leão XIV.
P – Que significado assume a primeira visita do Papa Leão XIV à Biblioteca Apostólica Vaticana, justamente para inaugurar o ciclo de exposições “Catástrofe e Maravilha”?
R - O Papa Leão XIV vem visitar sua biblioteca, pois essa biblioteca se chama Biblioteca Apostólica, ou seja, a Biblioteca do Apóstolo.
Dessa forma, é como se disséssemos que o Apóstolo precisa de uma biblioteca para exercer seu ministério.
Portanto, essa visita confirma e ressalta o fato de que, de fato, o Apóstolo possui uma biblioteca e se vale dela também para desempenhar bem seu serviço universal.
Além disso, é um “leão” que vem nos visitar, é um leão que vem à sua biblioteca: Leão XIV, que leva o mesmo nome de um grande Papa, Leão XIII, que muito fez pela Biblioteca e pelo Arquivo Apostólico, pois ampliou o acesso à própria Biblioteca, tornando-a ainda mais aberta a todos os estudiosos que desejassem, justamente, realizar pesquisas nesse lugar maravilhoso.
O Papa vem inaugurar um ciclo de exposições — esta é a primeira — que leva o título “Catástrofe e Maravilha”, e o objetivo é ver, justamente no que parece catastrófico, até mesmo “inimigo” dos livros, uma possibilidade maravilhosa.
Acredito que isso seja particularmente importante, também no contexto da insistência de Leão na busca por uma paz desarmada e desarmante.
Pois ver algo maravilhoso, mesmo naquilo que poderia ser meu inimigo, é um grande desafio, mas é justamente um desafio do Evangelho. [ Video Embed: Pagazzi: Leão XIV vem visitar a sua Biblioteca] P – A exposição AQVA estabelece um diálogo entre o patrimônio da Biblioteca e a arte contemporânea.
Por que esse diálogo é tão importante hoje para a missão da Igreja?
R – Eu diria, antes de tudo, que esse diálogo sempre existiu.
Muitas vezes se fala do interesse da Igreja pela arte contemporânea, talvez referindo-se ao grandioso discurso de Paulo VI aos artistas daquela época (nota do editor: 1964).
Na verdade, a Igreja sempre esteve atenta à arte contemporânea e sempre a promoveu.
Pensemos, por exemplo, nos pintores convidados por Sisto IV e Júlio II para pintar a Capela Sistina.
Para nós, são pintores clássicos, mas naquela época eram pintores contemporâneos e nem todos gostavam deles.
Ou ainda o fato de que o grande projeto da Praça São Pedro tenha sido confiado a Bernini.
Bernini era um arquiteto contemporâneo e o Papa Alexandre teve que intervir diretamente para defendê-lo, pois nem todos gostavam dele.
Portanto, desde sempre a Igreja e, desde sempre, os Pontífices têm dedicado uma atenção especial à arte de sua época, que mais tarde se tornou clássica.
O interesse pela arte da época é também o interesse pela cultura da época, pelas dinâmicas do tempo presente, e significa acreditar que Deus pode falar também por meio da cultura de hoje, das dinâmicas de hoje — não apenas nas dinâmicas do passado, não apenas nas do futuro, mas nas de hoje.
Investir também na arte contemporânea é um ato de temperança espiritual. [ Photo Embed: A Biblioteca Apostólica Vaticana surgiu em meados do século XV por iniciativa do Papa Nicolau V; A sua fundação formal, porém, remonta a 15 de junho de 1475, com a bula "Ad decorem militantis Ecclesiae" de Sisto IV] P – O Papa Leão XIV definiu o livro como um antídoto contra o fechamento mental e os atalhos ideológicos.
Que contribuição os livros e a cultura podem oferecer hoje para a formação de um julgamento livre e responsável?
R - São muitas as contribuições que um livro pode trazer ao leitor, e até mesmo o ato de ler, por si só, é um gesto extremamente importante.
Vou me referir apenas a uma dessas contribuições.
Ler um livro, o ato de ler um livro, significa uma interrupção: interrompe-se a atividade normal que realizamos todos os dias, interrompe-se o ritmo normal — talvez até bastante acelerado — que mantemos diariamente.
A interrupção é a condição de possibilidade da visão, das visões.
Quem nunca interrompe não tem visões e, provavelmente, agora precisamos de “visões”.
Em um discurso que o Papa Leão proferiu, ainda como prior dos agostinianos, ele falou justamente da capacidade de ter visões, que é a capacidade típica de quem vê as coisas que não se veem.
Quando mantemos um ritmo normal, quando realizamos atividades normais, não vemos as coisas que não se veem.
Para vê-las, é preciso interromper.
Aliás, em hebraico, o verbo “interromper” é o mesmo que dá origem à palavra “shabat”, ou seja, festa, descanso, interrupção.
A leitura é um shabat da mente, um domingo do coração, que, ao interromper, nos permite ter visões.
P – O Papa Francisco escreveu que a leitura ajuda a ver através dos olhos dos outros.
Em uma época marcada por polarizações e simplificações, até que ponto é necessária essa educação do olhar?
R - A prática da leitura, o gesto repetido e contínuo de ler, é realmente um antídoto contra as polarizações, pois estas dividem e afastam.
A leitura, para funcionar, une e mantém unido.
Para ler, precisamos juntar as letras, as sílabas, as palavras e as frases, acostumando-nos a manter tudo unido.
Além disso, o verbo “ler” deriva de uma raiz indo-europeia que significa “amarrar”, “manter unido”.
E é essa mesma raiz, a de “ler”, que gera outros verbos muito importantes, como “eleger”, “escolher”, “preferir” e até mesmo “diligere”, que significa “amar”.
Mas, para fazer essas coisas, é preciso se exercitar em manter unidas também formas diferentes, assim como são diferentes as palavras e até mesmo as letras.
Acredito que o exercício, o hábito da leitura, seja uma realidade, um gesto muito modesto que, justamente, funciona como antídoto contra qualquer forma de polarização. [ Video Embed: Pagazzi: A Inteligência Artificial não deve se tornar um atalho] P – Na era da Inteligência Artificial, da informação instantânea, que testemunho uma biblioteca milenar pode oferecer sobre o valor do tempo lento, do estudo, da memória e da busca pela verdade?
R - Essa pergunta me lembra a primeira grande campanha publicitária em prol do primeiro cartão de crédito.
Estamos no final dos anos 60, início dos anos 70 do século passado.
O anúncio dizia mais ou menos assim. “O cartão serve para acabar com a espera pelos seus desejos”.
Portanto, a pressa, a imediatidade, não é exclusividade da Inteligência Artificial.
A IA pode ser usada em um contexto que visa acabar com a espera pelos desejos, mas, se se acaba com a espera pelos desejos, acaba-se também com a energia deles.
Sobre a Inteligência Artificial, só me vem isso à mente.
Quando houve uma grande revolução — da qual esta Biblioteca também é testemunha —, a grande revolução da imprensa tipográfica, ou seja, a transição dos livros manuscritos para os livros impressos, essa revolução foi um trauma, um trauma para a cultura.
Muitos se rebelaram e se assustaram diante dessa novidade, dizendo que a cultura chegaria ao fim.
Na verdade, essa grande inovação proporcionou a muitos, proporcionou a todos a possibilidade de acessar o tesouro da cultura humana.
O problema da Inteligência Artificial não é a Inteligência Artificial.
O problema da IA é, entre outros, se ela é usada como uma ferramenta para eliminar o cansaço da espera em relação aos nossos desejos.
Se ela se torna um atalho, devemos agradecer também ao Papa Leão, pois, com sua encíclica Magnifica humanitas, ele nos oferece a possibilidade de observar esse fenômeno complexo com calma, com paciência, parando por um instante, fazendo uma pausa, para que possamos ter novas visões.