Cinco das sete vítimas que se encontraram neste domingo com Leão XIV em Lourdes relataram posteriormente à imprensa internacional detalhes desse momento de diálogo. Todos se disseram impressionados com a “empatia” do Pontífice e com seu profundo conhecimento de suas histórias, da “sistematicidade” dos casos de abuso ao longo dos anos e do trabalho a ser realizado: “Ele não é ingênuo, sabe que é preciso permanecer vigilante”. Foram apresentadas inúmeras propostas.
Salvatore Cernuzio – Enviado a Lourdes Demoraram uma hora antes de se encontrarem com os jornalistas.
Queriam primeiro assimilar a emoção do encontro com o Papa, um homem de “escuta profunda” e de “incrível empatia”, “impressionado” e “comovido” pelas histórias que ouviu.
Cinco das sete vítimas que neste domingo (27/09), tiveram duas horas de diálogo e oração com o Papa em Lourdes encontraram-se, à noite, com um grupo restrito de veículos de comunicação internacionais — entre os quais a mídia vaticana — em um hotel da cidadezinha nos Pirineus para relatar o que viveram com Leão XIV e também a preparação para este importante encontro.
Um encontro organizado com o Papa “Trabalhamos durante um mês para definir o formato desse encontro.
Devíamos nos encontrar com ele por uma hora, mas acabamos nos encontrando por uma hora e cinquenta”, disse Olivier Mardi, ativista e cofundador da Voix Libérées de Touraine. “Tínhamos solicitado que fosse dividido em duas partes: um primeiro momento coletivo e um segundo momento individual (cara a cara).
E ontem à noite recebemos a resposta de que o Papa desejava nos ver primeiro em um encontro privado e, depois, coletivo”. “Foi exatamente um pedido do Papa para que o número de participantes fosse muito reduzido.
Inicialmente cinco, depois chegamos a sete”, explicou Jérôme Guillement, que sofreu abuso quando criança por parte de um padre.
As sete vítimas prepararam tudo juntas, entre si e com Leão: “as modalidades foram definidas diretamente com ele e conosco.
Como tomar a palavra, como nos dirigir a ele, os temas que gostaríamos de lhe contar”. [ Read Also ] Encontro transformador O resultado foi o encontro memorável desta noite: “a primeira hora foi muito intensa, já que cada pessoa teve, em média, cerca de 15 minutos”, conta ainda Guillement. “Ele recebeu muitos pedidos, ouviu histórias detalhadas.
E o que se pode simplesmente dizer é que percebemos um homem que realmente estava ouvindo.
Raramente encontrei alguém com uma capacidade de escuta tão profunda”. “Ele respondeu expressando seu compromisso, antes de tudo em relação às suas emoções”, acrescentou Mardi. “Ele disse que estava completamente impressionado, profundamente ferido.
Falou de feridas abertas, ainda abertas depois de ter se encontrado com as vítimas espanholas.
Ele estava completamente em sintonia com nossas histórias.
E acho que é exatamente esse o aspecto transformador”.
Empatia profunda Todas as cinco vítimas se disseram “comovidas” por essa “empatia tão profunda” por parte do Papa: “dá para sentir que ele percebe o menor detalhe, que estava extremamente atento.
Eu diria até que ele adora esse tipo de interação, porque eu o via, ao mesmo tempo, muito atento e muito concentrado em cada palavra”.
Bertrand Virieux, cofundador da La Parole Libérée, criada há exatamente dez anos, em 2016, destacou que o impacto dessa noite é “mundial”, não apenas “francês”.
Ele também se diz “realmente impressionado com este Papa” e com “sua linguagem não verbal, sua profundidade, sua capacidade de ouvir”. “Isso me reconciliou”. “Quando vi o Papa de perto, não conseguia acreditar.
Porque, em determinado momento, tive um sobressalto”, confidenciou Jean-Marie Delbos, vítima e testemunha-chave do grave caso do colégio Notre-Dame de Bétharram. “Na minha vida, não tive grandes momentos de emoção, porque tenho um temperamento muito forte.
Pedi a ele que abençoasse minha mãe.
E ali, quando ele viu em que estado eu estava, me abraçou com os dois braços.
Nunca teria imaginado que fosse o Papa a me abraçar.
Foi um momento extraordinário.
Já se passaram 65 anos desde que aquilo aconteceu, quando perdi a fé”.
Esperança na mudança “Eu não vou à missa”, contou ainda Delbos. “Hoje fui à missa pela primeira vez em 60 anos.
Já durante a missa, quando vi o Papa… tive momentos de emoção.
Juro a vocês, quando ele nos reuniu e disse ‘eu vos abençoo’, bem, fiz o sinal da cruz.
Até mesmo eu, que sou notoriamente ateu”.
É claro que o encontro de hoje não é um ponto de chegada: “Para mim — continua Delbos —, só terá acabado quando a fumaça sair da chaminé.
Até lá, vou ficar aqui, mas com uma nova visão do que é a Igreja, do que é esse Papa que me abalou”.
A percepção de todos é de que “desta vez aconteceu algo”.
Alguns estavam “céticos” ou “temiam esse encontro”.
Depois de saírem da Casa Episcopal, “cada um de nós realmente sentiu uma sensação de vislumbre da eternidade… Realmente aconteceu algo, aconteceu aqui na terra”.
Uma sensação diferente daquela desta manhã na missa, onde, como disse Véronique Garnier, do coletivo Foi & Résilience, vítima de abusos por parte de seu pároco em Nancy, “eu estava francamente abatida; enfim, dizia a mim mesma: ‘mas o que estou fazendo aqui?’.
Por outro lado, a tarde foi tranquila.
Nos disseram que o encontro havia sido um pouco antecipado; [o Papa] chegou mais cedo do que o previsto”. “Eu — relatou ainda uma das três mulheres presentes no encontro (as outras duas preferiram manter o anonimato) — senti alívio porque pude dizer a ele tudo o que queria, pois havia mais tempo; no início, tínhamos previsto 2 ou 3 minutos para cada uma, tínhamos cronometrado tudo.
Na verdade, tivemos muito tempo”.
A presença do Papa, acrescentou Véronique, é “muito marcante… Ele nos disse para comermos os doces, algo simples, e nos deu a esperança de que algo possa mudar.
Ele não nos ouvia de forma superficial, com belas palavras que nunca são seguidas de nada concreto.
Acho que a mudança está na profundidade da presença dele, em algo não verbal, na maneira como ele nos ouvia, na forma como acolhia o que contávamos e nas reações ao que dizíamos”.
Um Papa atento e bem informado Acima de tudo, a impressão que tive foi a de uma pessoa bem informada sobre tudo: “Ele é um jurista de formação acadêmica.
Estava a par da minha história e fez perguntas muito precisas”, reiterou Guillement. “Então dá para perceber que é alguém que já trabalhou antes e continuará trabalhando depois.
E percebi que é um homem comprometido; aliás, ele falou sobre compromisso.
Também percebi que era um homem decidido.
Ele sabe que essa mudança, essa transformação, levará tempo.
Não é ingênuo, sabe que os fatos continuarão a ocorrer e que é preciso permanecer vigilante.
E isso me tocou profundamente, porque há, ao mesmo tempo, um lado muito emotivo, muito empático, muito centrado nas emoções e na escuta, e, ao mesmo tempo, uma atitude muito decidida e firme quando ele toma a palavra”.
A sistematicidade dos abusos Uma das palavras-chave que surgiram durante o encontro foi a da “sistematicidade” com que os abusos foram cometidos nessas décadas na Igreja francesa, como foram enfrentados e como a prevenção foi colocada em prática.
Uma palavra proeminente também no Relatório Ciase de 2021.
O Papa, disse Olivier Mardi, “tem uma opinião muito clara sobre a dinâmica sistêmica, pois é um tema que afeta obviamente a Igreja, mas também o ensino católico”. “O que cria ou permite que esses indivíduos continuem a cometer abusos é, de fato, a dimensão sistêmica que existe na instituição, que existiu, mas que ainda existe”.
Ainda há muito trabalho a ser feito “Na França, trabalhou-se muito” e “o Papa reconheceu, de fato, que a Igreja fez muito na França” e “que os bispos franceses colocaram em prática medidas que tornam a França um pouco pioneira nesse assunto”, destacou o grupo.
Mas “ainda há uma enorme quantidade de trabalho a ser feito”.
Trabalho e empenho, inclusive por parte do Papa: “Foi realmente importante ouvir isso”.
Agora, portanto, começa uma caminhada e Leão XIV “a fará conosco”, garantiram as vítimas. “Nós temos nossos caminhos… Ele entendeu bem, foi muito preciso ao falar em unir forças com entidades externas para trabalharmos juntos.
E, nesse ponto, reagiu muito bem às nossas propostas, pedidos muito concretos”.
Foram muitos os apresentados: “Naturalmente, ele não respondeu de imediato, mas sabe que precisa trabalhar.
E isso é bastante encorajador”. “Eu”, exclamou Delbos, “propus a dissolução da Congregação dos Padres de Bétharram”, presente também na África e na América Latina. “Permaneceremos vigilantes”, é a promessa final dos ‘convidados’ do Papa. “Hoje fizemos inúmeros pedidos.
Aguardamos respostas”.
Lourdes, entretanto, continua sendo “uma etapa fundamental”.