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V. O JUÍZO SOBRE OS MEIOS
Julgar e preparar os meios
Comecemos recordando uma citação de São Tomás: «É próprio da prudência deliberar, julgar e ordenar os meios para se chegar ao fim devido». [21] Em sintonia com o santo doutor, Josef Pieper escreve que «o caráter próprio da prudência é o comprometimento no campo dos meios e dos caminhos, no campo das realidades concretas».[22]
E importante discernir os «caminhos verdadeiros», [23] ou seja, os meios apropriados para alcançar a meta proposta, porque a prudência – insistimos − é uma virtude prática: julga sobre a maneira adequada e eficaz de fazer algo.
Jesus mostra a importância dos meios com uma parábola simples:
Se algum de vós quer construir uma torre, porventura não se senta primeiro para calcular os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, ele vai pôr o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a zombar: “Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!” (Lc 14, 28-30).
Esse planejador tinha uma meta honesta: edificar uma torre. Começou por refletir: sentou-se para pensar. Mas descuidou frivolamente o juízo sobre os meios: não calculou se tinha o suficiente. E o projeto ficou truncado.
Todos conhecemos casos parecidos de fracassos em empreendimentos comerciais, industriais, imobiliários, agrícolas, familiares, etc.
Vejamos uma história atual: —Após o aviso prévio, chegou o momento de o protagonista desta história se achar na rua. Já vinha cismando sobre a possibilidade de um novo trabalho. De repente, uma ideia despontou na mente: “O fundo de garantia! Posso aplicá-lo na criação de uma pequena empresa”. Mas qual empresa? Sempre trabalhou como engenheiro no ramo da construção civil. “As pessoas comem – disse de si para si −, as pessoas são gulosas”; e, com embalo poético, resolveu montar uma doceira.
— Já tinha trabalhado em alguma? Não. Tinha experiência de fabricação de doces? Nenhuma. “Mas tenho um amigo, possível sócio, que trabalhou um tempo nesse ramo da alimentação, ele conhece”. Tão pouco o conheciam ambos que, após oito meses, o fundo de garantia estava queimado e a doceira fechada. Para maior desgraça, a rua onde abriram o negócio tinha fama de ser um “cemitério de fundos de garantia”.
Nessa história precisamos enxergar algo mais que uma incompetência profissional. Temos que considerar a imprudência grave que decorre – em todos os campos − da nossa falta de preparação pessoal.
No “juízo sobre os meios”, o meio principal a ter em conta é a própria pessoa que faz ou empreende: as suas qualidades, os seus conhecimentos, a sua competência, a sua experiência, as suas capacidades. Muitas das piores imprudências procedem de descuidar a devida “preparação da pessoa”; e, infelizmente, é para as coisas mais importantes da vida que se descura esse preparo.
Vamos meditar sobre duas delas a título de exemplo. Vou alongar-me propositadamente neste ponto, pois acho que vale a pena.
2. Imprudência no casamento
Por que fracassam tantos casamentos? Não pretendo citar as principais causas, mas só algumas básicas, decorrentes da falta de prudência. Pode ilustrar isso uma parábola do Evangelho.
Na parábola das “dez virgens” – como é tradicionalmente designada – Jesus focaliza um costume dos casamentos da época. Um grupo de moças, amigas da noiva, iluminavam à noite o cortejo nupcial. Para tanto, cada uma trazia uma lâmpada de azeite, mais uma pequena vasilha de reserva.
Na parábola que agora evocamos, as moças eram dez: cinco sensatas e cinco néscias. Essas últimas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram consigo o azeite de reserva. Como é da praxe, os noivos atrasaram-se, e todas as moças começaram a dormitar. À meia-noite ouviu-se um brado: “Aí vem o esposo, ide ao seu encontro!” Despertaram todas e aprontaram as lâmpadas. As imprudentes disseram às sensatas: “Dai-nos do vosso azeite, que as nossas lâmpadas apagam-se”. Mas não havia o suficiente. Tentaram comprá-lo mas, quando regressaram, a sala do banquete já tinha as portas trancadas. Bateram e não foram aceitas: Não conheço vocês, respondeu uma voz lá dentro (cf. Mt 25, 1-12).
Que lhe diz essa parábola? É o retrato das pessoas que sonham, que vibram com seu sonho – pensemos concretamente no casamento –, que preparam, longa e cuidadosamente tudo o que é material e secundário, como as cinco moças insensatas prepararam vestido e penteado, mas se esquecem de aprontar o imprescindível. Quando chega a hora sonhada, encontra-as sem chama, sem luz. Ficam no escuro e nele se perdem. Poucos anos depois do casamento não sabem mais o que querem nem aonde vão parar.
A conclusão é clara. Não basta a boa vontade, a emoção, o sentimento, etc. etc., para que o amor amadureça e dure. Além da formação espiritual e da graça de Deus, é preciso, no mínimo, preparar-se:
─ cultivando a amizade entre os dois. Se, no namoro e no noivado, eles só cultivam paixão, prazer e planos gostosos, não se conhecem; enganam-se com carinhos, festas, arrebatamentos e fumaças coloridas.
O namoro cristão é sábio: valoriza o mútuo conhecimento e a reflexão serena muito acima da paixão. Por isso, eu lhes diria: “Não façam como os namorados que se atiram estupidamente à embriaguez sensual. Vivam a castidade, delicada e sacrificada, que valoriza e torna o amor mais firme e estável, e não o reduz a um bem de consumo, que se gasta e pouco depois se joga fora”.
─ “Dediquem mais empenho e mais tempo a conversar – diria também –, a trocar ideias, a conhecer bem o pensamento um do outro – para perceber se é superficial, vazio, frívolo, egoísta; ou é idealista, profundo, generoso, disposto ao sacrifício necessário para construir um ideal de família e de amor verdadeiro … – ; dediquem tempo a planear juntos essa construção (tijolo a tijolo!), sem ansiedade nem pressa afobada, degrau a degrau, doação a doação, renúncia a renúncia, aprendendo a achar a sua maior alegria na alegria que procuram dar ao outro…”
─ Além disso (que não passa de uma síntese parcial e breve), procurem adquirir uma formação sólida sobre o matrimónio e a família. Não bastam breves cursos de noivos de fim de semana. Fazem falta semanas e meses de leitura, estudo e preparo sistemático, contando com o aconselhamento de casais experientes e exemplares. Há entidades dedicadas à família, que já oferecem cursos de alto padrão e eficiência. [24]
─ Não digam que não têm tempo, porque isso de “não ter tempo” é uma história da carochinha. Não é questão de tempo, mas de vontade, de “querer”. E esforcem-se para que nunca se lhes possa aplicar aquela sentença desoladora: «Viveram sem se conhecerem, e morreram sem se amarem».
3. Imprudência na formação dos filhos
Muitas das atitudes que acabamos de mencionar aplicam-se – com a mesma força e urgência – à formação dos filhos.
Todos os pais desejam que os filhos sejam “bons”, que não sejam arrastados pelo aluvião de desordem, desorientação e vícios, que parece sequestrar boa parte da nossa juventude.
Não pretendo fazer aqui uma exposição sobre educação dos filhos. Limito-me a conclamar os pais a terem a prudência de não confundirem os filhos com anjinhos ou com couves. Sim, isso mesmo.
─ “Anjinhos” não são. Todos nascemos com “uma gota do veneno da serpente do Paraíso”, como dizia Ratzinger, ou seja, com as tendências e os puxões dos sete vícios capitais: orgulho, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça. Não empenhar-se em educar a sério as virtudes dos filhos – dentro de um clima de dedicação amiga, de exigência e de liberdade acompanhada – equivale a deixá-los prisioneiros dos sete tentáculos desse polvo dos vícios capitais.
– Também não confunda filhos com “couves”, que podem crescer sozinhas, e mal, em qualquer terreno baldio. Não vão formar-se por si mesmos, nem basta o melhor colégio, se os pais não assumem “pessoalmente” a tarefa de educá-los (além de garantir-lhes escola, faculdade, saúde, etc.). Concretamente, assumam:
- A tarefa de formar-lhes o caráter, de formá-los nas virtudes humanas (fortaleza, justiça, temperança, desprendimento, respeito, compreensão…)
- A tarefa de formá-los na caridade, na vitória sobre o egoísmo grande ou pequeno. Isso é importante! Façam tudo para que abram o coração às necessidades do próximo – começando pelos irmãos, se tiverem – e não fiquem fechados em si mesmos
- Especialmente, ponham empenho em formá-los na fé, nos valores morais perenes do Cristianismo e na prática cristã Leiam juntos, rezem juntos, expliquem-lhes a doutrina.
Reparem que muitos pais, com as suas omissões na educação dos filhos, são como o tal terreno baldio onde os filhos crescem como couves mirradas e bichadas, como mato que a vida se encarregará de queimar.
─ Ninguém nasce sabendo formar filhos, [25] menos ainda numa sociedade de confusões, ameaças, naufrágios e fogos cruzados de ideologias como é a atual. Nos tempos atuais, é preciso preparar-se bem para essa grande tarefa.
“Preparar-se” não é recusar-se a ter filhos ou ter apenas um por medo dos perigos desse mundo. É dar o máximo para proporcionar-lhes os meios de formação moral e espiritual adequados – mais necessários do que o pão que comem – e para que sejam assim o que Deus quer deles: bons filhos de Deus, protagonistas da grande aventura de um futuro melhor.
─ E ainda mais uma consideração, bem importante nos nossos dias: é preciso aprender a arte de corrigir os filhos. É uma das prudências mais elevadas. Seleciono aqui apenas algumas breves sugestões de São Josemaria para os pais e formadores:
Quando se vê a necessidade de corrigir, é preciso «contar antecipadamente com o desgosto alheio e com o próprio, se desejamos de verdade cumprir santamente as nossas obrigações de cristãos … Não esqueçais que é mais cómodo – mas é um descaminho – evitar a todo o custo o sofrimento, com a desculpa de não desgostar o próximo. Frequentemente, esconde-se nessa inibição uma vergonhosa fuga à dor própria, já que normalmente não é agradável fazer uma advertência séria. Meus filhos, lembrai-vos de que o inferno está cheio de bocas fechadas». [26]
«Que nenhuma razão hipócrita vos detenha: aplicai o remédio nítido e certo. Mas procedei com mão maternal, com a delicadeza infinita com que as nossas mães nos curavam as feridas grandes ou pequenas dos nossos jogos e tropeções infantis. Quando é preciso esperar umas horas, espera-se; nunca mais que o imprescindível, já que outra atitude encerraria comodismo, covardia, que são coisas bem diferentes da prudência. Todos nós − e principalmente os que se encarregam de formar os outros − devemos repelir o medo de desinfetar a ferida». [27]
Vimos esses dois exemplos práticos com certa extensão. Sirva isso como apelo para não ficarmos com ideais gerais ao exercitar a prudência.