A voz profética que interpela: evangelização como compromisso concreto com a causa do povo negro! “Todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,28).
Padre Guanair da Silva Santos - Secretário executivo do Instituto Mariama (IMA) A missão evangelizadora da Igreja no Brasil exige, hoje, uma escuta atenta e comprometida dos clamores que brotam das periferias existenciais e sociais. Entre esses clamores, ressoa com particular urgência o grito do povo negro, historicamente marcado pela exclusão, pela violência e pela negação de sua dignidade. A voz profética de Dom Hélder Câmara continua a ecoar com impressionante atualidade: é necessário que a Igreja — especialmente por meio da CNBB — não fique apenas nas palavras, mas “entre de cheio na causa do negro” (1985). Essa urgência é reafirmada também pelo Magistério recente. No pontificado de Leão XIV, a Santa Sé reitera a “condenação plena e firme do racismo e da discriminação racial em todas as suas formas”, reafirmando que toda prática racista constitui grave ofensa à dignidade humana e ao próprio Deus. Trata-se de uma continuidade da tradição viva da Igreja, que reconhece no combate ao racismo uma exigência moral inegociável. A Palavra de Deus ilumina este caminho com clareza e força. O apóstolo Paulo proclama: “Todos vós sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Pois todos vós que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. Já não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus.” (Gl 3,26-28). O testemunho do Apóstolo Paulo expõe uma verdade fundamental da fé cristã, que, derruba toda forma de discriminação e revela a radical igualdade de todos diante de Deus. Portanto, a exigência evangélica afirma: não basta condenar o racismo em documentos; é preciso assumir, com coragem, um compromisso pastoral efetivo que transforme realidades. A Boa Nova como Boa Notícia ao povo afro-brasileiro O próprio Senhor inaugura sua missão proclamando: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e proclamar um ano da graça do Senhor.” (Lc 4,18-19) Reafirmando a missão da Igreja, no combate ao racismo e discriminação, especialmente em Fratelli Tutti e Laudato Si’, compreendemos que o racismo não é apenas uma questão social, mas também uma ferida espiritual, pois contradiz o projeto de Deus e rompe a fraternidade universal. A evangelização, portanto, deve ser profética: denunciar o pecado e anunciar a justiça do Reino. Nesse contexto, a afirmação do observador da Santa Sé junto a OEA, monsenhor Juan Antonio Cruz Serrano, é clara e inegociável: “A eliminação da discriminação racial começa com leis que a proíbam e se completa com a conversão dos corações e das mentes a valores autênticos que vêm de Deus, nosso Criador”. Tal afirmação não se reduz a um posicionamento moral, mas constitui um imperativo profundamente evangélico, enraizado na missão de Jesus Cristo. Diante desta realidade, a pergunta fundamental permanece: como o Evangelho pode ser, de fato, Boa Notícia para o povo afro-brasileiro? Afirma a Evangelii Nuntiandi, que a evangelização deve tocar a vida concreta das pessoas. Ora, essa vida concreta, no caso da população negra no Brasil, é frequentemente marcada por profundas feridas sociais: Vulnerabilidade estrutural, que atinge milhões de famílias; Morte de jovens e adolescentes negros, vítimas de violência sistemática; Condições precárias de moradia, em cortiços, periferias e favelas; Desigualdade salarial e exclusão do mercado de trabalho digno; Êxodo religioso, especialmente para comunidades pentecostais, onde muitos encontram acolhida, reconhecimento e pertencimento. Essa realidade encontra eco na Palavra de Deus: “Eu vi, eu vi a aflição do meu povo que está no Egito e ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores; pois eu conheço os seus sofrimentos. Por isso desci para libertá-lo.” (Ex 3,7-8). Deus não é indiferente ao sofrimento dos oprimidos — e a Igreja, como seu Corpo, também não pode ser. Diante dessa realidade, o anúncio do Evangelho só será Boa Nova se responder concretamente a essas dores. Como afirma o Documento de Aparecida, é necessário reconhecer os rostos sofridos de Cristo nos afrodescendentes e assumir sua defesa (cf. DAp, 402). Eliminar o “vírus do racismo”: caminho de conversão e ação pastoral O racismo, como um “vírus” que contamina consciências e estruturas, exige uma resposta integral da Igreja. À luz da Doutrina Social da Igreja e de Fratelli Tutti, algumas atitudes pastorais tornam-se urgentes: 1. Conversão pessoal e comunitária: Reconhecer o racismo presente, inclusive nas práticas eclesiais, ainda que de forma velada. 2. Formação antirracista permanente: Educar comunidades, agentes pastorais e ministros ordenados para compreender e enfrentar o racismo estrutural. 3. Igreja que acolhe e reconhece: O êxodo de muitos negros para igrejas pentecostais interpela a Igreja Católica: é necessário oferecer espaços reais de acolhida, escuta e protagonismo. 4. Inculturação autêntica: Valorizar a cultura afro-brasileira como dom de Deus, integrando-a na vida pastoral de modo fiel ao Evangelho. 5. Opção preferencial com rosto negro: Assumir que a pobreza no Brasil tem cor, e orientar a ação pastoral a partir dessa realidade concreta. 6. Defesa da vida e da dignidade: Denunciar a morte de jovens negros e promover iniciativas concretas de proteção à vida. 7. Compromisso social transformador: Atuar junto à sociedade para superar desigualdades estruturais, promovendo justiça e equidade. Evangelizar, neste contexto, é testemunhar a dignidade inviolável de cada pessoa humana. É reconhecer Cristo presente nos que sofrem: “Em verdade vos digo: todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes.” (Mt 25,40) Uma Igreja em saída, fiel ao Evangelho Inspirados pelo Concílio Vaticano II, somos chamados a ser uma Igreja que não se fecha em si mesma, mas que vai ao encontro das periferias existenciais e sociais. Não há verdadeira evangelização sem compromisso com a justiça, a fraternidade e a libertação integral. O Corpo de Cristo continua hoje ferido na carne do povo negro. Que ressoe em nossas comunidades a Palavra do profeta: “Ele te mostrou, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige de ti: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus.” (Mq 6,8) As palavras de Dom Hélder Câmara permanecem como critério profético: não basta falar — é preciso agir. Reforçada pela posição firme da Igreja no pontificado de Leão XIV, a condenação do racismo exige coerência pastoral, coragem profética e compromisso concreto. Se o Evangelho é verdadeiramente Boa Nova, ele deve ser Boa Notícia também para o povo negro — especialmente para aqueles que vivem à margem, sofrem violência e carregam as marcas de uma história de exclusão. Que o Espírito Santo conduza a Igreja no Brasil a uma conversão profunda, para que seja, de fato, sinal de justiça, reconciliação e dignidade para todos. - Padre Guanair da Silva Santos - Secretário executivo do Instituto Mariama (IMA); colabora na coordenação nacional da Pastoral Afrobrasileira.