“Se a Escritura é a palavra de Deus expressa em palavras humanas, qualquer abordagem que negligencie ou negue qualquer uma destas duas dimensões é incompleta. Daqui se conclui que uma interpretação correta dos textos sagrados não pode ignorar o contexto histórico em que se desenvolveram e as formas literárias empregues; aliás, abandonar o estudo das palavras humanas usadas por Deus corre o risco de resultar em leituras fundamentalistas ou espiritualistas da Escritura que traem o seu significado”
Jackson Erpen – Cidade do Vaticano Neste ano de 2026, o Papa Leão XIV está nos oferencendo uma série de catequeses sobre os documentos do Concílio Vaticano II. Na Audiência Geral de 4 de fevereiro, propôs, entre outros, o n. 2 da Constituição Dogmática Dei Verbum, que assim diz: «As palavras de Deus, expressas por línguas humanas, tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do eterno Pai se assemelhou aos homens, tomando a carne da fraqueza humana» (DV, 13) E precisamente “A Palavra de Deus em palavras humanas”, é o tempa da reflexão do Pe. Gerson Schmidt*: O Papa Leão XIV dedicou suas primeiras catequeses do Ano à Constituição Dogmática Dei Verbum, que é a constituição que reflete sobre a revelação e a Palavra de Deus no Concílio Vaticano II, que proporcionou à toda Igreja uma valorização maior das Sagradas Escrituras na liturgia, na Catequese, nos encontros eclesiais e em toda a ação da Igreja. Talvez por um tempo na Igreja se tenha valorizado a doutrina e a defesa apologética da fé, frente às heresias que pululavam no cotidiano. Nossa ação eclesial hoje quer anunciar o que Deus revelou à humanidade na sua atuação e presença na história da Salvação, sobretudo descrita na Bíblia, que contêm a Palavra de Deus. Diga-se que a Palavra de Deus é bem mais ampla que o que está descrito nas Sagradas Escrituras. Na catequese da Audiência Geral de 4 de fevereiro de 2026, o Sumo Pontífice falou sobre a Constituição Dogmática Dei Verbum, com o tema “A Sagrada Escritura: A Palavra de Deus em palavras humanas”. Concluímos na semana anterior dizendo assim: “Deus fala de maneira amigável, compreensível. Torna o homem capaz de entender sua revelação porque sua comunicação é humana, é pedagógica, é cativante, é envolvente, na linguagem própria do ser humano, apesar de manifestações divinas e extraordinárias”. O Papa Leão diz que a “Constituição Conciliar Dei Verbum, sobre a qual temos refletido nas últimas semanas, aponta na Sagrada Escritura, lida na Tradição viva da Igreja, para um espaço privilegiado de encontro no qual Deus continua a falar aos homens e mulheres de todos os tempos, para que, ao ouvi-Lo, possam conhecê-Lo e amá-Lo. Os textos bíblicos, porém, não foram escritos numa linguagem celestial ou sobre-humana”. De fato, Deus não fala para os anjos, mas para os homens e tem o objetivo de se conectar com o objeto salvífico que é o ser humano. E o Papa faz então uma comparativa: “Como nos ensina a realidade diária também, duas pessoas que falam línguas diferentes não se conseguem entender, não conseguem dialogar, não conseguem estabelecer uma relação. Em alguns casos, fazer-se entender pelo outro é um primeiro ato de amor. Por isso, Deus escolhe falar utilizando as linguagens humanas, e assim vários autores, inspirados pelo Espírito Santo, escreveram os textos da Sagrada Escritura. Como recorda o documento conciliar, ‘as palavras de Deus com efeito, expressas por línguas humanas, tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do eterno Pai se assemelhou aos homens tomando a carne da fraqueza humana” (DV,13). Há um profundo desejo de Deus de se aproximar do homem, diz o Papa. Por isso não só revela um conteúdo salvífica, mas se utiliza de linguagem humana, direta para homem que consigam compreender e captar essa mensagem e esse conteúdo revelado. Alertando não só para o conteúdo, mas para os hagiógrafos, que são também “verdadeiros autores” dos textos sagrados, Leão XIV alerta assim: “Por isso, não só no seu conteúdo, mas também na sua linguagem, as Escrituras revelam a misericordiosa condescendência de Deus para com os homens e o seu desejo de se aproximar deles. Ao longo da história da Igreja, tem sido estudada a relação entre o Autor divino e os autores humanos dos textos sagrados. Durante vários séculos, muitos teólogos preocuparam-se em defender a inspiração divina da Sagrada Escritura, considerando os autores humanos quase como meros instrumentos passivos do Espírito Santo. Em tempos mais recentes, a reflexão reavaliou o contributo dos hagiógrafos na elaboração dos textos sagrados, ao ponto de o documento conciliar falar de Deus como o principal «autor» da Sagrada Escritura, mas também chamar aos hagiógrafos «verdadeiros autores» dos livros sagrados”. Aqui o Papa referenda a Dei Verbum, número 11. Os escritores da Palavra de Deus, inspirados pelo Espírito Santo, não são simplesmente monges copistas, que sobretudo na idade média reproduziam cópias da Bíblia. “Como observava um perspicaz exegeta do século passado, - fala o Papa - «reduzir a operação humana à de um simples copista não é glorificar a operação divina». Deus nunca menospreza o ser humano e as suas potencialidades! Se a Escritura é a palavra de Deus expressa em palavras humanas, qualquer abordagem que negligencie ou negue qualquer uma destas duas dimensões é incompleta. Daqui se conclui que uma interpretação correta dos textos sagrados não pode ignorar o contexto histórico em que se desenvolveram e as formas literárias empregues; aliás, abandonar o estudo das palavras humanas usadas por Deus corre o risco de resultar em leituras fundamentalistas ou espiritualistas da Escritura que traem o seu significado”. Não é por nada que inúmeros pregadores, dos mais diversos credos, interpretem a Sagrada Escritura de qualquer forma, como bem entendem, sendo fundamentalistas e rubricistas. O Magistério da Igreja que garante a verdadeira interpretação correta das sagradas letras. É a Igreja Católica que garante que a Bíblia é Palavra de Deus. Santo Agostinho, na sua Carta dos Fundamentos, declarou: “Eu não acreditaria no Evangelho se a isso não me movesse a autoridade da Igreja Católica”. A Igreja Católica Apostólica Romana é a única que existia nos primeiros séculos e é a autoridade dos bispos, em unidade com o Sumo Pontífice, que garante a veracidade da Bíblia. *Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.