"A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo. Sempre as considerou, e continua a considerar, juntamente com a sagrada Tradição, como regra suprema da sua fé". (DV, 21)
Jackson Erpen - Cidade do Vaticano O Concílio Vaticano II promoveu uma renovação profunda na vida da Igreja ao recolocar a Sagrada Escritura no centro da espiritualidade e da liturgia, incentivando maior acesso e participação dos fiéis na escuta da Palavra de Deus. Ao mesmo tempo, a reforma litúrgica destacou o Mistério Pascal — a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo — como o núcleo da fé cristã e o fundamento de todo o Ano Litúrgico, fazendo com que as celebrações da Igreja passem a expressar de forma mais clara e participativa esse mistério central da salvação. Nesta mesma linha, Pe. Gerson Schmidt* nos propõe hoje a reflexão "A Palavra de Deus no contexto histórico": "A liturgia da Igreja contempla o tempo maravilhoso do Tríduo Pascal vivido e o ciclo da Páscoa, a maior festa da liturgia cristã. Cristo nasce para morrer, e morre para ressuscitar, razão da nossa fé. O Concílio Vaticano II, além de resgatar a importância da Palavra de Deus na vida da Igreja e nas ações litúrgicas, resgata o profundo sentido do mistério pascal, centro de todo o ano litúrgico. O mistério Pascal não se vive apenas como um rito externo, programático, ritualístico ou cheio de símbolos, sobretudo na Vigília Pascal. Mas o mistério se insere na vida da Igreja, da comunidade e no contexto histórico em que é vivido. O documento “Catequese Renovada”, publicado em 1983 pela CNBB já traduzia que a vida dos catequisandos faz parte do conteúdo catequético, pois não podemos deixar de iluminar o mistério revelado com a situação concreta vivido por quem recebe a mensagem cristã. A catequese substitui os antigos manuais por um processo de iniciação cristã vinculada à vivência comunitária, integrando fé e vida. Papa Leão, na sua catequese da Audiência Geral de 21 de janeiro de 2026, disse que “Jesus Cristo é revelador do Pai com a própria humanidade. Precisamente porque é o Verbo encarnado que habita entre os homens, Jesus revela-nos Deus com a sua humanidade verdadeira e íntegra: «Por isso – diz o Concílio – vê-lo é ver o Pai (cf. Jo 14, 9), com toda a sua presença e manifestação da sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a sua morte e gloriosa ressurreição, enfim com o envio do Espírito de verdade, completa e confirma... a revelação» (DV, 4). Para conhecer Deus em Cristo, devemos acolher a sua humanidade integral: a verdade de Deus não se revela plenamente, quando se priva o humano de algo, assim como a integridade da humanidade de Jesus não diminui a plenitude do dom divino. É o humano integral de Jesus que nos revela a verdade do Pai (cf. Jo 1, 18). E continua o Papa nessa sua audiência, ainda falando da Dei Verbum: “Quem nos salva e nos convoca não são apenas a morte e a ressurreição de Jesus, mas a sua própria pessoa: o Senhor que se encarna, nasce, cura, ensina, sofre, morre, ressuscita e permanece entre nós. Por isso, para honrar a grandeza da Encarnação, não é suficiente considerar Jesus como o canal de transmissão de verdades intelectuais. Se Jesus tem um corpo real, a comunicação da verdade de Deus realiza-se naquele corpo, com o seu modo próprio de perceber e sentir a realidade, com a sua maneira de habitar o mundo e de o atravessar. É o próprio Jesus que nos convida a partilhar o seu olhar sobre a realidade: «Olhai para as aves do céu – diz – não semeiam, nem ceifam, nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as. Não valeis vós mais do que elas?» (Mt 6, 26). Este princípio da encarnação do Verbo, também se aplica ao anúncio da Palavra de Deus: se perde o contato com a realidade, com as esperanças e os sofrimentos da humanidade, se utiliza uma linguagem incompreensível, incomunicativa ou anacrônica, é ineficaz. Em cada época, a Igreja é chamada a reapresentar a Palavra de Deus com uma linguagem capaz de se encarnar na história e de chegar aos corações. Como recordava o Papa Francisco, «Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual.» Por outro lado, igualmente redutiva é uma leitura da Escritura que negligencia a sua origem divina e acaba por compreendê-la como um mero ensinamento humano, como algo a ser estudado simplesmente de um ponto de vista técnico ou como «um texto só do passado». Pelo contrário, sobretudo quando proclamada no contexto da liturgia, a Escritura destina-se a falar aos crentes de hoje, a tocar as suas vidas presentes com os seus problemas, a iluminar os passos a dar e as decisões a tomar. Isto só se torna possível quando o crente lê e interpreta os textos sagrados sob a guia do mesmo Espírito que os inspirou (cf. DV, 12). Neste sentido, as Escrituras servem para alimentar a vida e a caridade dos fiéis, como nos recorda Santo Agostinho: «Quem crê, compreendeu as Sagradas Escrituras , se por meio dessa compreensão não for capaz de erguer o edifício dessa dupla caridade, para com Deus e para com o próximo, ainda não as compreendeu». A origem divina da Escritura recorda-nos também que o Evangelho, confiado ao testemunho dos batizados, embora abranja todas as dimensões da vida e da realidade, as transcende: não pode ser reduzido a uma mera mensagem filantrópica ou social, mas é o anúncio jubiloso da vida plena e eterna que Deus nos deu em Jesus, sobretudo pela sua morte e ressurreição, mistério pascal celebrado por esse rico tempo litúrgico em que vivemos nesse período na Igreja". *Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.