Autoridade Sinodal: aprender com o Bom Pastor

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Autoridade Sinodal: aprender com o Bom Pastor
Fonte: VATICANO

Padre Wladimir Porreca, da Diocese de São João da Boa Vista (SP), retoma a reflexão sobre a autoridade cristã em um contexto marcado por crises de confiança, fragilidades nas relações, desafios à saúde mental e abusos de poder.

Padre Wladimir Porreca, da Diocese de São João da Boa Vista (SP) Inspirado no capítulo 10 do Evangelho de João, destaca-se Jesus como o Bom Pastor, que oferece um modelo de liderança fundamentado no cuidado, na proximidade e no amor.  Sua autoridade não se baseia no domínio ou na imposição, mas no serviço, na escuta e na capacidade de promover relações humanas saudáveis e fecundas.

Nesse sentido, o Bom Pastor oferece importantes referências para a vivência da autoridade sinodal, caracterizada pela comunhão, pela participação e pela corresponsabilidade na missão.

Diante dos desafios atuais, a Igreja Católica é chamada a redescobrir no Bom Pastor o modelo da autoridade cristã sinodal (Jo 10,10-28).

Conhecer, escutar, conduzir, caminhar à frente, proteger, procurar e dar a vida constituem um verdadeiro itinerário pastoral, marcado pela proximidade, pelo serviço e pelo cuidado.

Nesses verbos encontra-se o fundamento de uma autoridade evangélica saudável, capaz de promover comunhão, confiança e cuidado integral nas comunidades eclesiais.

Conhecer: a autoridade que se faz presença O primeiro verbo do Bom Pastor é conhecer.

Jesus afirma: "Eu conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem" (Jo 10,14).

No Evangelho, conhecer vai muito além de possuir informações sobre alguém.

Significa intimidade, fazer-se presente, criar vínculos, cultivar proximidade e construir relações de confiança.

Trata-se de um conhecimento que nasce do encontro, da convivência e da atenção à vida concreta das pessoas.

Não existe autoridade cristã saudável sem essa presença.

Quem assume uma missão de liderança na Igreja não pode limitar-se a relatórios, estatísticas ou informações recebidas de terceiros.

É chamado a conhecer pessoas, suas histórias, seus sofrimentos, suas alegrias, seus dons e suas esperanças.

O Bom Pastor não conduz o rebanho à distância.

Caminha com ele, partilha seus desafios e conhece sua realidade.

Por isso, uma das perguntas centrais para quem exerce a autoridade não é apenas quantas pessoas estão sob sua responsabilidade, mas quantas delas são verdadeiramente conhecidas, escutadas e acompanhadas.

Quando desaparece a proximidade, a autoridade corre o risco de transformar-se em mera administração e manutenção de estruturas.

Quando o encontro cede lugar aos processos, o cuidado pode dar lugar ao controle.

Conhecer exige tempo, presença e disponibilidade para deixar-se tocar pela realidade do outro.

Conhecer as pessoas, suas histórias e contextos é também uma exigência da sinodalidade.

Não se caminha junto com aqueles que permanecem desconhecidos.

A comunhão e a participação começam pelo encontro concreto com a realidade do povo de Deus.

Escutar: a autoridade que acolhe Quem conhece verdadeiramente aprende também a escutar. (Jo 10,27).

A escuta pessoal e pastoral não consiste apenas em ouvir palavras, dar uma atenção vazia de uma pseudocompreensão.

Ela supõe acolhimento, empatia, respeito pela singularidade de cada história e disposição para compreender a realidade a partir da perspectiva do outro.

Escutar ao modelo de Jesus Bom Pastor é suspender julgamentos precipitados, evitar respostas prontas e permitir que a pessoa expresse aquilo que vive, sente e espera.

É estar atento não apenas ao que é dito, mas também aos silêncios, às fragilidades e aos sofrimentos que muitas vezes não encontram palavras.

O Bom Pastor conhece a voz de suas ovelhas e é reconhecido por elas.

Essa reciprocidade revela que a verdadeira autoridade nasce da confiança e da comunhão.

Na prática, uma liderança evangelicamente saudável cria espaços de diálogo, acolhe sugestões, valoriza a corresponsabilidade, vai ao encontro e sabe ouvir críticas sem sentir-se ameaçada.

A escuta sinodal, tão enfatizada pela Igreja nos últimos anos, não é mera estratégia organizacional.

É uma atitude evangélica que reconhece que o Espírito Santo fala através de todo o Povo de Deus.

Chamar, reunir e conduzir: a autoridade que orienta sem manipular Jesus conduz suas ovelhas para a vida plena (Jo 10,3.16).

Por isso, chamar e conduzir é uma dimensão essencial da autoridade eclesiástica pastoral.

Entretanto, conduzir não significa controlar pessoas, impor preferências pessoais ou criar dependências.

Significa ajudar homens e mulheres a discernirem o caminho de Deus para suas vidas.

O Bom Pastor chama, convida, orienta e caminha junto.

As ovelhas o seguem porque reconhecem sua voz, não porque são constrangidas.

Sua liderança inspira confiança e liberdade.

Por isso, uma autoridade evangelicamente saudável escuta antes de decidir, é transparente em suas intenções, respeita a liberdade das pessoas, favorece a participação e acolhe divergências sem interpretá-las automaticamente como desobediência.

A grande pergunta para quem lidera é simples e exigente: minha ação ajuda as pessoas a crescerem em liberdade ou as torna cada vez mais dependentes de mim?

A autoridade cristã não substitui a consciência dos outros.

Ao contrário, ajuda a formá-la.

Não cria seguidores dependentes, mas discípulos maduros.

Essa perspectiva corresponde ao espírito da sinodalidade, que reconhece cada batizado como sujeito ativo da missão da Igreja.

A autoridade não anula a participação, mas a promove; não centraliza todas as decisões, mas favorece processos de discernimento e corresponsabilidade.

Caminhar à frente: a autoridade do testemunho O Evangelho afirma que o pastor caminha à frente do rebanho (Jo 10, 4).

Ele abre caminhos, enfrenta riscos e torna-se referência.

Por isso, a autoridade cristã não se fundamenta primeiramente em discursos, mas no testemunho.

Antes de pedir compromisso, vive o compromisso.

Antes de falar sobre oração, reza.

Antes de exigir comunhão, cultiva a comunhão.

As pessoas e comunidades são profundamente influenciadas pelo exemplo de seus líderes.

A coerência entre palavra e vida continua sendo uma das maiores fontes de credibilidade da ação pastoral.

Caminhar à frente, contudo, não significa caminhar sozinho.

O pastor permanece unido ao rebanho, atento aos seus ritmos e necessidades.

Sua missão não é chegar primeiro, mas ajudar todos a seguir adiante.

Também não significa controlar cada passo das pessoas.

O líder evangelicamente saudável oferece direção, critérios e acompanhamento, sem sufocar iniciativas nem impedir o crescimento da autonomia.

Caminhar à frente exige ainda coragem.

Muitas vezes será necessário enfrentar conflitos, proteger os mais vulneráveis e tomar decisões difíceis em favor do bem comum.

Numa Igreja sinodal, caminhar à frente é apenas uma das dimensões da liderança.

A autoridade também aprende a caminhar com os outros, reconhecendo os dons, os carismas e as contribuições presentes em todo o povo de Deus.

Proteger: a autoridade que cuida da vida O Bom Pastor protege suas ovelhas (Jo 10,12-13).

No contexto atual, esse verbo adquire especial relevância.

Proteger não significa isolar as pessoas dos desafios do mundo, mas ajudá-las a atravessá-los com segurança, esperança e discernimento.

Uma autoridade verdadeiramente pastoral promove ambientes seguros, enfrenta abusos, acolhe fragilidades e cuida da dignidade humana.

Isso implica proteger da solidão, fortalecendo vínculos comunitários; proteger da desinformação, promovendo a busca da verdade; proteger a saúde mental, acolhendo sofrimentos e incentivando redes de apoio; proteger os mais fragiliozados; prevenir abusos de consciência, poder e sexualidade; e sustentar a esperança diante das crises da vida.

A proteção oferecida pelo Bom Pastor nasce da proximidade.

Não é vigilância opressora, mas cuidado amoroso.

Não é controle, mas responsabilidade.

Procurar: a autoridade que sai ao encontro (Lc, 15,4-7).

Na tradição bíblica, o pastor não permanece esperando.

Ele vai ao encontro da ovelha perdida.

O verbo procurar impede que a autoridade se torne autorreferencial.

Recorda à Igreja sua vocação permanente de saída missionária.

Uma liderança inspirada pelo Evangelho dedica atenção não apenas aos que permanecem próximos, mas também aos que se afastaram, se decepcionaram, se cansaram ou se perderam no caminho.

Procurar pressupõe atenção às ausências, sensibilidade às fragilidades humanas e coragem para deixar zonas de conforto.

Supõe também esperança.

O pastor busca porque acredita na possibilidade do reencontro, da reconciliação e da cura.

A busca pastoral não nasce da necessidade de aumentar números, mas do reconhecimento da dignidade única de cada pessoa diante de Deus.

A sinodalidade possui igualmente uma dimensão missionária.

Uma Igreja que caminha junta não permanece voltada para si mesma, mas sai ao encontro daqueles que se encontram distantes, esquecidos ou feridos pelas diversas circunstâncias da vida.

Dar a vida: a autoridade como serviço O verbo central do Bom Pastor é dar a vida.

Jesus afirma: "O bom pastor dá a vida por suas ovelhas" (Jo 10,11).

Nessa afirmação encontra-se o coração da autoridade cristã.

Dar a vida não se limita ao martírio ou ao sacrifício extremo.

É, antes de tudo, uma atitude cotidiana de entrega.

Significa colocar os próprios dons, competências, tempo e energias a serviço da vida dos outros.

Toda autoridade saudável nasce desse amor concreto que busca o bem das pessoas acima dos interesses pessoais, do prestígio ou da autopreservação.

Dar a vida pressupõe disponibilidade, generosidade, coragem diante das dificuldades e genuíno amor pelo povo confiado aos seus cuidados.

Ao mesmo tempo, não significa descuidar da própria saúde física, emocional ou espiritual.

O próprio Jesus alternava momentos de intensa dedicação com tempos de oração, silêncio e descanso.

A verdadeira doação não é ativismo compulsivo nem esgotamento permanente.

É amor fecundo, capaz de cuidar dos outros sem negligenciar o próprio cuidado.

No Evangelho, dar a vida significa escolher diariamente viver para que outros tenham vida, dignidade e esperança.

Considerações Os verbos do Bom Pastor constituem uma verdadeira pedagogia da autoridade cristã: conhecer, escutar, chamar, conduzir, caminhar à frente, reunir, proteger, procurar e dar a vida.

Mais do que funções, eles expressam atitudes relacionais que transformam o exercício da autoridade em serviço, cuidado e promoção da vida.

Neles encontramos o retrato de uma liderança humana, evangélica e saudável, capaz de gerar confiança, comunhão e esperança.

Pe.

Wladimir Porreca, pesquisador e professor da Universidade de Brasília, considera que a autoridade sinodal encontra no Bom Pastor sua inspiração mais profunda.

Quanto mais a liderança eclesial se aproxima do estilo relacional de Jesus, mais se torna fonte de comunhão, participação, confiança e crescimento humano e espiritual.

A configuração da autoridade ao modelo do Bom Pastor deve ser compreendida como um horizonte de contínuo amadurecimento.

Trata-se de um processo gradual, marcado por aprendizagens, revisões, conversões e recomeços.

Entre o ideal evangélico e as fragilidades humanas, a autoridade saudável é aquela que permanece aberta ao discernimento, à correção fraterna e ao crescimento permanente, aproximando-se progressivamente do estilo relacional e cuidador de Jesus.

O Bom Pastor não é apenas um modelo a ser admirado, mas um caminho a ser percorrido.

Aproximamo-nos dele cada vez que cuidamos, escutamos e servimos.

E, quando nos afastamos desse ideal, o caminho cristão continua sendo o mesmo: reconhecer as falhas, pedir perdão, reconciliar-se e recomeçar.

A autoridade evangélica cresce menos pela perfeição e mais pela humildade de voltar ao caminho.

À luz do Bom Pastor, a autoridade cristã, exercida por ministros ordenados ou leigos, não é um lugar de superioridade nem um comando distante, mas uma missão de proximidade.

Trata-se de uma autoridade que sabe discernir as necessidades das pessoas e das comunidades, colocando-se onde o cuidado mais exige: à frente para indicar horizontes e inspirar confiança; ao lado para acompanhar, sustentar e escutar; no meio para fortalecer a comunhão e favorecer a participação; e atrás para amparar os mais frágeis, respeitando os diferentes ritmos do povo de Deus.

Essa compreensão encontra forte ressonância nas palavras Homilia na Missa Crismal do Papa Francisco (2013), que afirma que o pastor deve caminhar "à frente do rebanho para indicar o caminho, no meio do rebanho para sentir o seu odor e manter a unidade, e atrás do rebanho para ajudar os que ficam para trás e, sobretudo, para deixar que o próprio povo encontre novos caminhos".

Nessa dinâmica pastoral, a autoridade deixa de ser exercício de poder para tornar-se presença, serviço e corresponsabilidade.

Atenta às diferentes realidades e necessidades, a autoridade sinodal inspirada no Bom Pastor não busca dominar, mas servir.

Ela evita a autossuficiência, combate a pseudocompreensão e cultiva uma escuta verdadeira, capaz de acolher a singularidade de cada pessoa.

Dessa forma, favorece a participação, fortalece a comunhão e impulsiona a missão, conduzindo homens e mulheres, com humildade e amor, ao encontro da plenitude da vida em Cristo.

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