Entrevista concedida à mídia vaticana pelo reitor da Universidade de Belém, irmão Hernan Santos. Há muitas restrições à liberdade de movimento dos estudantes, e há medo do futuro, afirma ele. “Mas não perdemos a esperança”. E sobre as eleições na Palestina, que o presidente Mahmoud Abbas adiou para setembro de 2027: “Em uma situação de grande instabilidade, talvez seja melhor não introduzir muitas mudanças”, admite
[ Audio Embed Ouça e compartilhe] Roberto Paglialonga - Vatican News Há três anos, ocorreu o ataque terrorista liderado pelo Hamas contra Israel e o consequente início da guerra na Faixa de Gaza.
Em 9 de outubro de 2025, foi assinado o acordo de cessar-fogo entre o governo de Benjamin Netanyahu e as milícias islâmicas, definido hoje, porém, por cerca de cem ONGs humanitárias que atuam no enclave palestino como uma “trégua de fachada”.
Fome, escassez de água, falta de serviços de saúde adequados, violência e mortes diárias, milhares de pessoas ainda deslocadas: a situação, há um ano, não melhorou, apesar da suspensão dos combates.
Um estado de tensão constante que ainda se reflete na vida na Cisjordânia, no Estado da Palestina, onde praticamente todos os dias ocorrem ataques por parte de colonos israelenses extremistas e são frequentes as incursões militares das tropas das Forças de Defesa de Israel (IDF).
E que afeta de perto também os jovens e os estudantes universitários, que, com muito esforço, tentam dar continuidade aos estudos.
Quando não decidem tentar se mudar para o exterior.
As restrições à liberdade de movimento dos estudantes “A situação política geral nos afeta diretamente”, afirma aos microfones da mídia vaticana, durante uma visita a Roma, o irmão Hernán Santos, natural do Paraguai, lasalista, que desde 2024 ocupa o cargo de reitor da Universidade de Belém. “Mas já muito antes da guerra nossos alunos enfrentavam dificuldades para chegar à cidade” — controles, postos de controle, bloqueios —: uma situação que se tornou permanente, eu diria, e que chamamos de ‘restrição à mobilidade’”.
Quem mais sofre com isso são aqueles que vêm de outras cidades: “Os postos de controle costumam estar fechados”, e quem se desloca precisa fazer percursos intermináveis para chegar ao destino: mais de 40% vêm, de fato, de Jerusalém, 10% de Hebron e de outras localidades do sul da Cisjordânia.
Mas não é só isso.
Os problemas são também, e sobretudo, econômicos. “Belém é uma cidade muito turística, como vocês sabem.
No entanto, desde outubro de 2023, não há mais atividades e muitas das famílias cristãs da região são obrigadas a abandonar suas casas e seus empregos”.
As dificuldades das comunidades cristãs [ Read Also ] E são justamente as comunidades cristãs, em toda a Terra Santa – assim como grande parte da população palestina –, que são obrigadas a sofrer privações e opressões.
A tal ponto que já se espalham a falta de confiança e o medo em relação ao futuro, afirmou há alguns dias o cardeal Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém. “Concordo com ele”, diz o reitor da universidade católica de Belém, um local de encontro e diálogo, idealizado pelo Papa São Paulo VI e inaugurado em 1973, que hoje recebe, a cada início de ano letivo, cerca de 900 estudantes.
Enquanto mais de 20% dos estudantes são cristãos (principalmente católicos latinos e greco-ortodoxos), o restante é de fé muçulmana. “Mas 80% dos nossos funcionários, ou seja, professores e equipe administrativa, são cristãos”.
Ter “esperança hoje é muito difícil para eles; basta conversar com eles para entender: estão céticos em relação ao futuro, muitas vezes sofrem incursões em suas cidades durante a noite.
Não há confiança nessa situação”. [ Photo Embed: O reitor da Universidade de Belém na sede da imprensa vaticana (Vatican Media)] Os temores de uma transferência do conflito para a Cisjordânia [ Read Also ] Isso faz ressurgir um temor presente entre a população — e já expresso no passado pelo irmão Hernan — sobre uma possível transferência da guerra da Faixa de Gaza para a Cisjordânia. “No fim das contas, isso pode até acontecer”, afirma ele, “há muitas aldeias na Palestina que estão sob ataque” todos os dias.
Até mesmo aldeias cristãs, como Taybeh, por exemplo, que estão sob pressão constante dos colonos israelenses.
O mesmo ocorre na região de Belém: onde ficam as “Piscinas de Salomão”, a sudoeste da cidade, logo abaixo de al-Khader, há um assentamento situado nas colinas, mas seus habitantes estão conquistando e ocupando cada vez mais terras e, assim, estão invadindo essa parte de Belém.
A ocupação, digamos, está se aproximando.
E crescem os riscos de confrontos entre colonos violentos e a população local.
A guerra, meu Deus, é algo que poderia acontecer”.
O trabalho pela paz Embora a esperança e o trabalho concreto para que isso não aconteça estejam sempre vivos. “Oramos constantemente por isso e também promovemos programas específicos na universidade”, explica o irmão Hernan, “atividades que já vêm ocorrendo há algum tempo: promovemos a paz e trabalhamos pela paz, pela compreensão mútua, pelo diálogo.
Muitos de nossos alunos são hoje embaixadores pelo mundo, e muitos outros atuam em suas áreas em prol da paz.
Não, apesar de tudo, nunca perdemos a esperança”.
Na Palestina, eleições adiadas para setembro de 2027 [ Read Also ] Há alguns dias, a decisão da presidência palestina, divulgada pela agência de notícias Wafa, de adiar para setembro de 2027 as eleições previstas para o final de novembro gerou diversas polêmicas e reações negativas, inclusive na comunidade internacional.
Mas o reitor explica que, em sua opinião, “é preciso compreender o quanto é difícil lidar com toda a situação política atual na Palestina.
A estabilidade certamente precisa de mais tempo para ser alcançada”.
Portanto, “vejo também bom senso nessa decisão, pois a situação ainda é realmente crítica.
Acho que, para avançarmos em direção a uma forma mais democrática de agir, precisamos dar muitos passos.
Não acredito que haja necessidade de grandes mudanças quando a situação” é tão instável, conclui.