País arquipelágico com mais mar do que terra, Cabo Verde não podia ficar indiferente à Década do Oceano (2021-2030) proclamado pela ONU. A UNESCO foi encarregada de trabalhar nisso em colaboração com a FAO, onde se reuniu a 12/2/26 o Conselho Consultivo da Década. Leila Brito Neves participou por parte do Comité nacional de Cabo Verde. E no final partilhou connosco diversos aspetos relacionados com a temática do Oceano, particularmente em Cabo Verde e em África.
Dulce Araújo - Vatican News Apaixonada pelo mar e gestora duma empresa própria de comunicação - “Comunicar” - Leila Brito Neves, viu na Década do Oceano uma oportunidade para se formar e conhecer mais sobre a temática do Oceano e da vida na água, em geral. Decidiu então dar um contributo para a Década com um plano de comunicação para a implementação dos objetivos fixados pela ONU: tomar medidas para reverter o declínio da saúde oceânica. A sua empresa criou então, como iniciativa privada, um Comité nacional (o primeiro em África) que evoluiu para público-privado, servindo de ponto focal em Cabo Verde no que concerne à Década do Oceano. Como tal, Leila foi convidada para o encontro realizado em Roma a 12 de fevereiro, na FAO, Organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura que colabora com a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação e a Cultura) na implementação da Década do Oceano. Os governos interagem com estas duas agências da ONU através da COI, Comissão Oceanográfica Intergovernamental. Primeiro dos onze comités mundial para a Década do Oceano Cabo Verde - sublinha Leila Brito Neves - tem o primeiro Comité Nacional da África para o Oceano, está entre os onze primeiros do mundo e destaca-se pelo reconhecido trabalho para a melhoria do relacionamento com o Oceano. É que, refere, “a maior parte das pessoas não sabe como é que o seu comportamento diário impacta a saúde do Oceano e qual a importância do ecossistema marinho na sua vida”. Cabo Verde, país com mais mar do que terra Com uma superfície terrestre de 4033km quadrados e quase o dobro de superfície marítima, Cabo Verde deve investir muito, segundo Leila Brito Neves, na literacia do Oceano e transitar da triste memória coletiva que os cabo-verdianos têm do mar (esclavagismo, emigração, não retorno) para as oportunidades do presente, passando pela proteção do ecossistema com vista no futuro. A proteção é a mais valia, remata. E, felizmente, vai havendo uma certa interação entre a sociedade civil, instituições governamentais, universitárias e o próprio Presidente da República, José Maria Neves, graças à sua sensibilidade pela “Economia Azul” e pelo valor do Oceano na vida humana, foi convidado pela UNESCO a ser o Patrono da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável. Neste papel tem impulsionado uma série de conferências nacionais sobre a Década, contribuindo para a conscientização nesta matéria. A próxima conferência - recordou a nossa entrevistada - será na ilha da Boa Vista, de 23 a 24 de julho de 2026. Economia Azul Leila se detêm igualmente sobre a questão da “Economia Azul” como é designada a economia baseada nos recursos marinhos, salientando que “Cabo Verde está bem colocado no patamar internacional” e estão-se a estudar as possibilidades no território para “aprender a fazer bem”, afinando, antes de mais o “enquadramento legal” para depois desenvolver iniciativas. Perante a observação do que pode significar a “Economia Azul”, num arquipélago onde, no dizer popular, o peixe já começa a escassear, Leila sublinha que os “acordos são nocivos, às vezes, mas podem ser revertidos”. De qualquer modo, “a natureza está do nosso lado” - afirma, recordando que as ilhas atlânticas são um “ninho de biodiversidade”. Participação da África no encontro em Roma Cabo Verde foi o primeiro a criar um Comité Nacional da Década do Oceano, mas já há outros. Na reunião em Roma esteve, por exemplo, também o Comité do Quénia. E Cabo Verde vai trabalhar com a Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe para estabelecer comités nesses dois países irmãos. E no âmbito do Continente africano, há também que pensar em políticas específicas para proteger os países insulares. Participação da Igreja com base na Laudato Si Embora Leila não conhecesse essa Carta Encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado da Casa Comum, mostrou-se entusiasta e levou um exemplar consigo para conhecer mais a fundo a matéria. Está aberta e convicta de que “é uma mensagem necessária” e têm pessoas que podem fazer essa ponte com a Igreja, até porque “nenhum pescador ou trabalhador da costa faz nada antes de fazer a sua oração”, diz salientando o seu imenso respeito também pelo valor dos saberes e atitudes populares. E Leila conclui deixando um apelo a ter consciência do papel que cada um tem na salvaguarda da saúde do Oceano e, por conseguinte, a capacitar-se neste sentido.