“O povo da República Centro-Africana (RCA) quer a paz. Já sofreu muito. A paz significa também construirmos juntos um país”, declarou o Arcebispo de Bangui, Dom Dieudonné Nzapalainga. Após a reeleição do Presidente Faustin-Archange Touadéra com 76,15% dos votos para um terceiro mandato consecutivo, segundo resultados provisórios, o Cardeal Nzapalainga insta as autoridades a tomarem medidas mais concretas para melhorar as condições de vida dos centro-africanos.
Myriam Sandouno – Cidade do Vaticano “Espero que as atuais autoridades não continuem como antes. Ouvimos todo o tipo de coisas durante a propaganda. Agora, precisamos de traduzir isto num projeto social”. Estas palavras do Cardeal Arcebispo de Bangui ressoam numa nação como a República Centro-Africana que hoje anseia por paz, justiça e estabilidade. Reeleito com mais de 76% dos votos, segundo os resultados provisórios divulgados pela Autoridade Nacional Eleitoral (ANE), o atual presidente Faustin-Archange Touadéra vai iniciar um terceiro mandato consecutivo no meio de protestos da oposição, que denuncia a fraude eleitoral. Os resultados finais da eleição presidencial de 28 de dezembro de 2025 serão anunciados pelo Conselho Constitucional no próximo dia 20 de janeiro. Fazendo balanço do que foi feito e ainda se deve fazer "Espero que o governo tenha tido em conta todas as reivindicações", declarou o Arcebispo de Bangui em entrevista à Rádio Vaticano. "Não se pode continuar a dizer que está tudo bem quando as pessoas têm outras preocupações", confidenciou, instando as autoridades a fazerem uma "autocrítica do governo", uma "avaliação do que foi feito e do que ainda é preciso fazer" e, sobretudo, a perceberem "o que o povo quer". A corrupção A República Centro-Africana enfrenta actualmente graves desafios socioeconómicos, e a questão da corrupção está na boca de todos. Após a sua assembleia plenária, numa mensagem divulgada no domingo, 11 de janeiro, a Conferência Episcopal Centro-Africana denunciou "o abuso de poder e a corrupção, inimigos que ainda precisam de ser erradicados". “Vai ser necessário abordar seriamente este problema”, declarou o cardeal, acrescentando: “Não se deve utilizar o Estado para encher os próprios bolsos, para se enriquecer pessoalmente. Muito pelo contrário, o Estado deve arrecadar e redistribuir a riqueza. A exploração de ouro e diamantes por estas grandes corporações que estão a vir para o nosso país deve gerar benefícios económicos”. O cardeal lamentou ainda a difícil situação económica do país: “As estradas não estão a ser construídas, os hospitais são por vezes insuficientes e as escolas também são inadequadas”. Atos de Violência A instabilidade na segurança continua a ser uma grande preocupação. Recentemente, eclodiu violência no sudeste do país entre o exército e a milícia AAKG (Azandé Ani Kpi Gbé), um grupo de autodefesa da comunidade Zande que se rebelou contra o governo em Bangui. Isto ocorreu enquanto se aguardavam os resultados das eleições presidenciais e legislativas de 28 de dezembro. A calma está a regressar gradualmente a Zémio, na câmara municipal do Alto-Mbomou, mas a situação humanitária continua preocupante. “No leste do nosso país, as localidades de Zemio, Bambouti e outras, por exemplo, são motivo de preocupação”, enfatizou o Arcebispo de Bangui: “Posso dizer que, não há muito tempo, o imam, o pastor e eu fomos a Zemio para encontrar as pessoas, fazer apelos, ouvi-las e dizer-lhes que não se poderá construir o país com as armas. Infelizmente, não conseguimos encontrar os jovens que estavam na mata, porque estavam muito longe, e a nossa estadia foi curta”. O acolhimento da Igreja Católica Centro-africanos aterrorizados encontraram refúgio nas instalações da missão católica, e a Igreja está a organizar-se para acolher todos os deslocados. "A Igreja sempre foi como uma mãe. Uma mãe não rejeita os seus filhos", declarou o Arcebispo de Bangui. "É por isso que, instintivamente, quando confrontadas com dificuldades, as pessoas recorrem frequentemente à Igreja”. No quadro da plataforma de muçulmanos, católicos e protestantes, “viajámos até lá e reunimo-nos com os padres. O bispo mobilizou fundos para que a Cáritas possa enfrentar estas dificuldades e prestar assistência”. Mas, explica o purpurado, “o transporte de mercadorias é difícil, dadas as condições das estradas e a insegurança. Tudo isto complica os esforços em curso; a Igreja está a tentar fazer o que pode, porque não consegue satisfazer todas as necessidades”. “Ela está a dar o seu pequeno contributo”, garante o cardeal centro-africano. O povo anseia pela paz. “Os centro-africanos sofreram muito. Também viveram épocas de falta de medicamentos, em que as crianças já não iam à escola. Por isso, desejam a paz. Quem diz paz”, afirma o Arcebispo de Bangui, “diz também construirmos juntos um país”. “Isso significa que aqueles que estão ‘no comando’ podem trabalhar com a base que acaba de os eleger”.