Na tarde deste Domingo de Ramos, 29 de março, a oração no Getsêmani foi conduzida pelo Patriarca de Jerusalém dos Latinos, o cardeal Pierbattista Pizzaballa. “Momento muito complicado. Queremos construir a paz”, destacou ele no início. “A guerra interrompeu nossa jornada festiva, tornando difícil até mesmo a simples alegria de seguir nosso Rei”. E acrescentou: “Jesus chora mais uma vez por Jerusalém e por esta Terra Santa”.
Roberto Paglialonga - Vatican News O cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca de Jerusalém dos Latinos, conduziu, no Getsêmani, aos pés do Monte das Oliveiras, a oração especial pela paz, na Solenidade do Domingo de Ramos neste 29 de março. A súplica ocorreu poucas horas após o bloqueio imposto pelas autoridades israelenses ao próprio Pizzaballa e ao Pe. Francesco Ielpo, Custódio da Terra Santa, impedindo-os de acessar o Santo Sepulcro para a celebração da missa. “Estamos vivendo uma situação muito complicada”, “nos reunimos porque queremos construir a paz e a fraternidade”, destacou o patriarca no início da celebração, que ocorreu sem a presença de peregrinos. Sem procissão, sem ramos de palma “Nesta tarde de Domingo de Ramos, estamos aqui sem a procissão, sem os ramos de palma que são levantadas pelas ruas”, observou. E “não é uma ausência formal, mas deve-se à guerra, que suspendeu nossa caminhada festiva, tornando difícil até mesmo a simples alegria de seguir o nosso Rei. Nossos irmãos e irmãs da Terra Santa hoje não podem encher as ruas nem unir suas vozes ao cortejo festivo”, disse ele. No entanto, “a ausência deles não é um vazio diante do Senhor”, porque “Ele não busca estradas triunfais, entra onde a porta está entreaberta, onde a fidelidade é o pão de cada dia”. O Ressuscitado entre nós, mesmo quando o caminho está bloqueado “O Crucificado Ressuscitado não deixa de passar entre nós. Mesmo quando o caminho está bloqueado — sublinhou ele, falando de um altar da Basílica do Getsêmani, com vista para as muralhas da Cidade Santa e rodeado por numerosos concelebrantes —, "Ele habita no coração daqueles que não deixaram de segui-Lo. Mas, justamente neste silêncio forçado, esta liturgia se torna mais verdadeira. Porque o grito ‘Hosana’ não precisa de ramos para subir ao céu, e a fé não se abate quando lhe faltam os ritos externos”. Jesus chora por Jerusalém e pela Terra Santa sem paz Mas “hoje Jesus volta a chorar por Jerusalém”, disse ainda. “Ele chora por esta cidade que permanece sinal de esperança e de dor, de graça e de sofrimento. Ele chora por esta Terra Santa que ainda não sabe reconhecer o dom da paz”. E ainda: “Ele chora por todas as vítimas de uma guerra que não dá sinais de acabar, pelas famílias divididas, pelas esperanças frustradas. Mas as lágrimas de Jesus nunca são estéreis: elas nos abrem os olhos, nos interpelam, nos revelam a verdade”. Testemunhas de um amor que não desiste Por isso, continuou Pizzaballa, “nesta terra que continua à espera da paz, somos chamados a ser testemunhas de um amor que não desiste. Que o nosso caminho de fé, também hoje, possa ser um caminho de esperança. E que nossa vida, mesmo na dureza do presente, saiba levar o amor de Cristo e sua luz para onde tudo parece escuridão”. O verdadeiro poder não está na violência Ao comentar a Paixão, o Patriarca deteve-se então na traição de Judas, na negação de Pedro, no silêncio de Pilatos, nos gritos da multidão que invocava a cruz e a morte de Jesus, mas também na figura do centurião: ele “descobre que o verdadeiro poder não reside na violência ou na espada que mata, mas numa vida doada livremente”. E assim, naquele momento dramático, “faz a mais alta confissão: este homem é o Filho de Deus. Justamente no momento em que a morte parece triunfar, a verdade se revela, o amor se manifesta e a salvação se realiza”. A paz é fruto da cruz: Deus se entrega por completo Mesmo “hoje, enquanto a guerra parece sufocar cada palavra de paz, aqui — onde Jesus chorou — podemos ouvir ressoar essa mesma confissão. A última palavra de Deus é o túmulo vazio. É o Senhor que precede os discípulos na Galileia e que também nos precede, guiando-nos para uma paz que não é uma ilusão, mas o fruto da cruz”, disse o cardeal. Portanto, “a paz que Jesus oferece não é um frágil acordo entre inimigos, mas uma paz nascida da cruz, uma paz que vem de um Deus que se entrega completamente e não precisa de força nem de armas. Este é o paradoxo que somos chamados a acolher hoje”. Pois “Jerusalém, a Terra Santa, não é apenas um lugar geográfico; é o coração pulsante da nossa fé. Cada pedra aqui fala de salvação; cada colina traz a lembrança do Deus que escolheu se aproximar”, acrescentou. Por isso, “viver a fé nesta terra significa aceitar a contradição que ela encarna: o lugar da ressurreição é também o lugar do Calvário; o lugar do abraço de Deus ainda está marcado por demasiado ódio”. Carregar a cruz e se tornar construtor de reconciliação No entanto, é justamente neste lugar santo que “aprendemos a olhar para a cidade com os olhos de Cristo. Aprendemos a chorar com ele, mas também a ter esperança com ele. Pois a mesma Jerusalém que rejeitou o Príncipe da Paz também viu o túmulo vazio. A guerra não apagará a ressurreição. A dor não extinguirá a esperança”, concluiu o Patriarca. Hoje, sem ramos, “carregamos, em vez disso, a cruz – não um fardo inútil, mas a fonte da verdadeira paz. Não agitamos ramos de oliveira; optamos, em vez disso, por nos tornarmos construtores de reconciliação, por meio de cada gesto, cada palavra, cada relação”.