Cardeal Semeraro: o santo vive na história, mas imprime nela uma nova orientação

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Cardeal Semeraro: o santo vive na história, mas imprime nela uma nova orientação
Fonte: VATICANO

O prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, cardeal Marcello Semeraro, abriu na tarde desta segunda-feira, 19 de outubro, o congresso “A santidade na história”, explicando que a pesquisa histórica “nos faz reconhecer como a graça atua na liberdade de uma pessoa, nas condições e também nas contradições de seu tempo”. Para esta quarta-feira (21/10) está prevista uma audiência com Leão XIV e, à tarde, as conclusões do encontro.

Alessandro Di Bussolo – Vatican News “A santidade não apaga a humanidade da pessoa; ela a assume e a transfigura.

Não elimina a história, mas a atravessa, imprimindo-lhe uma nova orientação.

É isso que torna necessário o trabalho do historiador”, segundo o cardeal Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, que na tarde desta segunda-feira, 19 de outubro, introduziu os trabalhos do congresso de 2026 sobre o tema “A santidade na história”, no Pontifício Instituto Patrístico Augustinianum.

O historiador, em sua pesquisa, segundo Semeraro, “não pode se contentar em reproduzir uma imagem já consolidada pela devoção, mas deve reconstruir os fatos concretos, questionar criticamente as fontes, distinguir os eventos das interpretações posteriores e compreender o contexto no qual uma determinada experiência espiritual amadureceu”.

Nesta quarta-feira, a audiência com o Papa Leão Até a tarde do dia 21 de outubro, especialistas convocados pelo Dicastério analisarão o tema da importância da contribuição dos estudos históricos para as Causas dos Santos, que vem crescendo ao longo dos anos, tornando-se parte integrante de todas as Causas de beatificação e canonização, conforme prescrito pela constituição apostólica Divini perfectionis magister (1983) de São João Paulo II e pela instrução Sanctorum Mater.

Na quarta-feira, 21 de outubro, antes da Audiência Geral, o Papa Leão XIV receberá os participantes dos trabalhos do congresso, que dá continuidade aos que, ao longo dos anos, abordaram os temas “A santidade hoje”, da sua “Dimensão comunitária da Santidade”, do “Martírio e oferta da vida” e “A mística.

Os fenômenos místicos e a santidade”.

Semeraro: os santos, também contestadores das tendências dominantes Para o cardeal prefeito, a pesquisa histórica “não empobrece a santidade, não coloca em questão seu significado espiritual”, pelo contrário, contribui para devolvê-la à verdade humana, “permitindo-nos reconhecer como a graça atua na liberdade de uma pessoa, nas condições e também nas contradições de seu tempo”; e é justamente nesse encontro entre a concretude da história e a ação da graça que se abrem espaços para a reflexão dos participantes do congresso.

Um tema de grande interesse tanto para a pesquisa histórica quanto para o aprofundamento teológico.

A santidade, de fato, lembra Semeraro, “não é um ideal abstrato, separado das vicissitudes humanas, nem uma perfeição que se alcança fora das condições concretas da vida”.

Ela se concretiza em homens e mulheres “que realmente viveram, inseridos em épocas determinadas, pertencentes a comunidades, culturas e instituições que influenciaram suas escolhas, favoreceram seu testemunho ou, em alguns casos, até tornaram seu caminho mais difícil”.

Os santos são filhos e filhas da Igreja que falaram a linguagem da sua época, “em certa medida, assimilaram suas orientações e, não raro, ‘também contestaram profundamente as tendências dominantes na sociedade em que viviam’”.

O exemplo de São Luís Gonzaga Por exemplo, São Luís Gonzaga não é apenas o jovem com um lírio na mão retratado pela hagiografia, mas o homem que carrega o peso de um doente com peste e o leva ao hospital, acabando por ser contagiado.

Não é, portanto, uma figura fora de seu tempo, segundo o cardeal, “como se sua perfeição espiritual o tivesse subtraído das inquietudes, das tensões e das escolhas de sua condição humana”.

Por isso, para o historiador, não basta “reunir testemunhos que alimentam uma fama já consolidada; não é suficiente repetir imagens transmitidas pela devoção”.

É preciso “remontar à história concreta das pessoas”, examinar as fontes, distingui-las das interpretações que se sobrepuseram ao longo do tempo, “reconstruir o contexto em que uma determinada experiência espiritual tomou forma e se manifestou”.

O ensinamento de Santo Agostinho Nesse ponto, o prefeito se pergunta até que ponto “os instrumentos da pesquisa histórica permitem compreender a santidade e, por outro lado, como a teologia pode aprofundar seu significado ‘sem perder de vista a totalidade da experiência humana na qual ela se realizou?’”.

Ao considerar o ensinamento de Santo Agostinho em Cidade de Deus, é possível conciliar “o rigor da investigação histórica e a especificidade do olhar teológico”.

O santo, de fato, não se subtrai “às tensões e contradições de seu tempo”, mas, amando a Deus até o ponto de desprezar a si mesmo, consegue transformar a graça e “orientar progressivamente sua própria vida segundo a lógica do amor de Deus”.

A santidade se desenvolve em condições concretas “e, na medida em que se deixa moldar pela caridade, pode transformar as relações, as comunidades e o próprio modo de reconhecer o bem”.

A obra do historiador e do teólogo Por isso, e para responder à sua pergunta, para o cardeal Semeraro, o historiador pode reconstruir a origem de uma santidade, acompanhar seu desenvolvimento, estudar as relações com o contexto social, documentar suas transformações; e o teólogo, “sem se substituir a essa pesquisa, reconhece nela outra dimensão: “a possibilidade de que a caridade, por meio da ação do Espírito Santo, edifique a comunhão cristã e torne presente na história a própria vida de Cristo”.

Rusconi: a historiografia e a compreensão da santidade Após a introdução do prefeito, o historiador do cristianismo Roberto Rusconi proferiu palestra sobre “a contribuição da historiografia para a compreensão e o aprofundamento da santidade”.

Ele relembra as palavras do Papa Leão XIV: “os santos fazem a história”, para enfatizar que a santidade “não pode ser percebida fora das pessoas e não pode ser considerada de maneira abstrata em relação a personagens que vivem imersos na história.

Não levar em conta esses aspectos reduz os santos a figurinhas de devocionais”.

Ele também retoma uma reflexão de Albino Luciani, antes de se tornar o Papa João Paulo I: “a santidade vivida é, de longe, mais ampla do que a santidade canonizada”.

São os “santos da porta ao lado” do Papa Francisco.

Os 30 anos da Aiscca, que estuda a santidade na Itália Em sua análise, Rusconi aprofunda três elementos.

O primeiro: como, ao longo do tempo, “a abordagem histórico-crítica em relação aos santos e à santidade se modificou”.

O segundo: “os reflexos produzidos no trabalho histórico pelas mudanças nos procedimentos de reconhecimento da santidade”.

E o terceiro, as perspectivas de investigação de maior relevância que surgiram na era contemporânea e nos últimos tempos.

Ele lembra também que, daqui a dois dias, terá início um congresso organizado para comemorar os 30 anos de fundação da Associação Italiana para o Estudo da Santidade, do Culto e da Hagiografia (Aiscca), com o tema: “Família e santidade da Antiguidade aos dias de hoje”.

Desde o final do século XIX, o papel da sociologia e da antropologia O historiador destaca que, há um século e meio, desde o final do século XIX, a aplicação do método histórico-crítico aos documentos do primeiro milênio cristão — e não apenas a textos estritamente hagiográficos, mas também a fontes litúrgicas — “enriqueceu uma abordagem restrita exclusivamente à dimensão teológica e devocional”.

E, a partir das últimas décadas do século XX, na metodologia de pesquisa, “também passaram a ser incorporadas outras ciências humanas, como a sociologia e a antropologia”, utilizadas não apenas para a análise da santidade na era moderna.

As inovações nos procedimentos de reconhecimento da santidade Rusconi traça, em seguida, as inovações nos procedimentos de reconhecimento da santidade, desde a reserva papal de 1234, sob Gregório IX, até o decreto de non cultu de Urbano VIII, em 1600, com “a proibição de qualquer forma de reconhecimento devocional da santidade, em particular por parte dos fiéis, que não tenha sido submetida a um controle prévio por parte da autoridade hierárquica”.

Se, com o Papa Bento XIV, em meados do século XVIII, foi introduzida a verificação médica dos milagres de cura, com a constituição Divinus Perfectionis Magister, de 1983, o Papa João Paulo II introduziu uma redução drástica do tempo previsto para o início de uma causa de canonização, de 50 para 5 anos (com exceções significativas).

Isso desloca a origem da documentação disponível “para o papel preponderante das testemunhas diretas (e, portanto, também dos próprios curados) – acentuando o caráter processual do procedimento”.

Com a utilização direta do material biográfico e cronológico.

Além disso, é de grande alcance a norma “segundo a qual o martírio dispensa da comprovação do único milagre exigido”.

Schuman, De Gasperi e São Carlos Acutis Por fim, o historiador Rusconi analisa, em sua palestra de abertura, a evolução dos modelos de santidade, bem como o surgimento da questão de uma “política de canonizações” nas primeiras décadas do século XIV, durante a transferência do Papa e da Cúria para Avignon.

A canonização dos fundadores e de outros expoentes das Ordens Mendicantes na primeira metade do século XIII e das Ordens de Clérigos Regulares no início do século XVII, segundo o palestrante, “foi, ao mesmo tempo, o reconhecimento e a promoção de um papel dentro da Igreja”.

Ao analisar, em seguida, a evolução do papel dos escritos dos santos, Rusconi chega a figuras políticas como o francês Robert Schuman e o italiano Alcide De Gasperi, para os quais a pesquisa histórica realizada até agora não levou “em conta, de maneira específica, a componente religiosa de sua personalidade”.

Por fim, o historiador faz referência ao uso da fotografia como fonte historiográfica, até o uso atual da Inteligência Artificial.

Apenas uma breve menção ao fenômeno hagiográfico na era da internet, com “as formas e os temas da religião digital”, com um “fenômeno à vista de todos” como o de São Carlo Acutis.

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