Ao celebrarmos o primeiro aniversário da eleição do Santo Padre, o Papa Leão XIV, o nosso coração de pastor e de fiel volta-se, em profunda acção de graças, para o Mistério da Providência Divina que rege a barca de Pedro.
Cardeal Orani João Tempesta, O. Cist. - Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ O conclave de 8 de maio de 2025, que elevou o primeiro filho das terras norte-americanas à Cátedra da Unidade, não representou apenas uma sucessão administrativa após o falecimento do saudoso Papa Francisco; significou, antes de tudo, a renovação da promessa de Cristo de que o Espírito Santo jamais desampararia o Seu rebanho. O Papa Leão XIV, trazendo consigo a mística e a disciplina da Ordem de Santo Agostinho, assumiu o múnus petrino num momento histórico de profundas dificuldades mundiais e de interrogações, oferecendo-nos, desde os seus primeiros gestos, uma bússola segura baseada na escuta, na paz e na radicalidade evangélica. O primeiro grande pilar deste pontificado, que marcou indelevelmente este ano inicial, é a busca incansável e teológica pela paz. Não nos referimos aqui a uma paz meramente diplomática ou à ausência de conflitos armados, mas àquilo que o Santo Padre definiu como a “paz desarmada”. Ao saudar o mundo com o bíblico “A paz esteja convosco”, Leão XIV estabeleceu o programa do seu governo: uma diplomacia que não se fundamenta no poder das armas ou na hegemonia dos nacionalismos, mas na força da humildade. Neste contexto, a Igreja assume uma postura ativa e profética, denunciando a barbárie das guerras contemporâneas e exigindo que o diálogo seja a única linguagem admissível entre as nações. O Magistério Pontifício deste primeiro ano ensina-nos que a paz verdadeira nasce do reconhecimento da face de Cristo no outro, especialmente naqueles que a geopolítica do descarte insiste em transformar em inimigos. Avançando sobre a estrutura da Igreja, observamos que a sinodalidade deixou de ser um conceito abstrato para se tornar uma prática de governo tangível. O Consistório Extraordinário, realizado nos dias 7 e 8 de janeiro de 2026, foi o momento em que o sucessor de Pedro reuniu o Colégio Cardinalício para exercer a primazia da escuta. A afirmação do Pontífice — “Estou aqui para ouvir” — ressoa como um convite à humildade para todos nós que exercemos o governo nas Igrejas Particulares. A decisão de instituir Consistórios anuais permanentes é um passo decisivo para que a Cúria Romana e os pastores de todos os continentes caminhem em uníssono. Esta nova dinâmica de governação permite que os desafios das periferias do mundo cheguem com clareza ao centro da cristandade, fortalecendo a comunhão e a transparência que o Povo de Deus tanto anseia. No que concerne à missão evangelizadora, o Papa Leão XIV consolidou a chamada “teologia da acolhida”. Este ensinamento exige de cada batizado, e especialmente do clero, o abandono definitivo de uma mentalidade de pura preservação institucional. A Igreja não existe para se olhar ao espelho, mas para sair ao encontro. O Papa exorta-nos a transformar as nossas paróquias em hospitais de campanha, onde a prioridade absoluta é o acompanhamento e a cura das feridas espirituais e sociais. Aqui, a figura de São José Operário emerge com renovado vigor no discurso papal, fundamentando uma acção pastoral que luta pela dignidade do trabalho e pela justiça social. Ao defender os imigrantes e os trabalhadores precarizados, o Santo Padre não faz política partidária, mas exerce a caridade política que emana diretamente do Evangelho, lembrando-nos que o juízo final versará sobre o amor concreto aos mais pequeninos. As viagens apostólicas deste primeiro ano materializaram, em gestos geográficos, as prioridades do seu coração pastoral. A peregrinação à Turquia, para celebrar os 1700 anos do Primeiro Concílio de Niceia e a assinatura da declração junto ao Patriarca Ortodoxo Bartolomeu I, foi um marco histórico para o ecumenismo, demonstrando que a unidade dos cristãos é uma urgência que não pode esperar. Da mesma forma, a sua histórica visita à Argélia, onde celebrou a primeira missa pública do país, abriu novos caminhos para o diálogo inter-religioso num mundo tentado pelo fundamentalismo. Por fim, a sua presença em Pompeia e Nápoles, no dia do seu aniversário de pontificado, selou o seu compromisso com as periferias sociais. Ao ouvir a juventude desempregada do sul da Itália, Leão XIV mostrou que o Papa não é apenas um soberano, mas um pai que sofre com as dores dos seus filhos. Para nós, na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, este primeiro ano do Papa Leão XIV serve como um combustível para a nossa própria missão. A nossa realidade urbana, marcada por tantos contrastes, exige de nós a mesma coragem e a mesma paz desarmada que o Santo Padre testemunha em Roma. Somos chamados a ser, nesta “Cidade Maravilhosa” que também sofre, o rosto visível dessa Igreja que acolhe e que não teme o diálogo. São Sebastião, nosso padroeiro, que entregou a sua vida por fidelidade a Cristo, inspire-nos a caminhar com firmeza sob a guia do novo Pedro. Que a Bem-Aventurada Virgem Maria, sob o título de Nossa Senhora Aparecida, interceda pelo ministério do Papa Leão XIV, para que ele continue a conduzir a Igreja com a sabedoria de Agostinho e a ternura de um verdadeiro pastor.