Valentyn Bebik, diretor do departamento de distribuição de ajuda humanitária, relata o serviço da Cáritas greco-católica no país atingido por ataques russos massivos. Destaca também a importância da solidariedade internacional: "A ajuda nunca é suficiente. Há pessoas que se empenham em permanecer vivas e manter o equilíbrio interior para ajudar os outros"
Svitlana Dukhovych – Vatican News A emergência causada pelo frio na Ucrânia começou já no outono e, com a chegada do inverno e os contínuos bombardeios russos, tornou-se um dos principais desafios: muitas pessoas vivem sem aquecimento, frequentemente perto da linha de frente, e sobreviver torna-se uma luta diária. Nos próximos dias, os meteorologistas preveem uma queda ainda maior nas temperaturas. Em Kiev, são esperados entre -11°C e -17°C. Diante dessas condições, o prefeito da capital, Vitalij Klychko, convidou os cidadãos "que tiverem a possibilidade, a se mudarem temporariamente para fora da cidade, onde estejam disponíveis fontes alternativas de energia e aquecimento". Valentyn Bebik, diretor do departamento de distribuição de ajuda humanitária da Cáritas Ucrânia, em entrevista à mídia vaticana fala das dificuldades dos mais vulneráveis, da importância da assistência humanitária e da solidariedade internacional, destacando o empenho em campo dos colaboradores da Cáritas da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Atualmente, quais são as principais áreas que recebem assistência humanitária? No momento, nossa prioridade de assistência humanitária é a emergência do frio. O trabalho já começou no outono, com o planejamento de projetos e a arrecadação de fundos. As comunidades que vivem em um raio de 30 quilômetros da linha de frente receberam material de aquecimento ou apoio financeiro para comprá-lo. A atenção agora está voltada para as necessidades que surgiram com a crise energética causada pelos bombardeios: distribuímos power banks e pequenas estações de carregamento, além da ajuda comum. As áreas mais próximas à frente de batalha continuam sendo uma prioridade, pois é onde se encontra a população mais vulnerável. Ao mesmo tempo, auxiliamos na evacuação das zonas mais perigosas. Como vocês conseguem monitorar as necessidades das pessoas em um território tão vasto e em condições tão complicadas? A Cáritas é parte da Igreja e está profundamente integrada às comunidades locais. Não temos uma rede tão extensa como em outros países, por exemplo na Polônia ou na Alemanha, mas em cada região operam unidades da Cáritas diocesanas e paroquiais que fornecem assistência e conhecem bem as necessidades das pessoas. Quando ocorre uma situação de crise, a comunicação com essas realidades é imediata: recebemos informações diretas dos sacerdotes responsáveis e, com base nesses dados, planejamos a resposta. Às vezes, a intervenção é muito rápida; outras vezes, requer mais tempo, especialmente quando nos deparamos com emergências de grande escala. Em comparação ao início da guerra em larga escala, a ajuda humanitária que chega à Ucrânia diminuiu. Vocês têm recursos suficientes para atender às necessidades das pessoas? A Cáritas faz parte de uma comunidade internacional que ajuda a Ucrânia com financiamento tanto privado quanto público. No entanto, estes fundos nunca são suficientes. Uma das nossas pequenas, mas importantes tarefas, é fazer com que os nossos agentes aceitem que não podemos ajudar a todos. Por isso, nos concentramos nas faixas mais vulneráveis da população, sem excluir ninguém, mas direcionando os recursos exatamente para onde são mais necessários. Por exemplo, com a crise energética em curso, os últimos bombardeios deixaram sem eletricidade grandes cidades como Zaporizhzhia e Dnipro, atingindo também os hospitais, incluindo as unidades de terapia intensiva. Sabemos que os mais frágeis, como as crianças pequenas ou as pessoas doentes em casa, são os que têm maior necessidade de ajuda. Em suma, os recursos não bastam e provavelmente nunca serão totalmente suficientes, porque quanto mais tempo dura a guerra, mais cresce o número de pessoas vulneráveis. O que significa viver hoje na Ucrânia, especialmente durante o frio? Além dos mais vulneráveis, também as pessoas comuns que vivem, por exemplo, em Kiev... É difícil de descrever. Frequentemente vou aos vilarejos perto da linha de frente e, lá, as pessoas vivem sem aquecimento; sofrem com o frio não apenas no inverno, mas também na primavera e no outono. Quando a temperatura dentro de casa fica entre 5 e 7 graus, por dias e noites seguidas, passam o tempo todo no frio. No inverno, então, quando ocorrem os bombardeios, que nunca param, muitos ficam sem teto, sem janelas, e tentam se aquecer como podem. Agora estou em Kiev, e aqui a situação também é difícil, com muita destruição. Ainda me impressiona, apesar de terem se passado anos de guerra, ver bairros inteiros devastados pelas bombas. Sei que é difícil para as pessoas, mas nas localidades pequenas a situação é ainda mais complicada, porque elas não têm recursos para encontrar um abrigo ou uma refeição quente. Neste momento, a possibilidade de comer comida quente é realmente preciosa. Quando chegam pessoas dos vilarejos próximos à linha de frente aos nossos centros de trânsito, muitas vezes choram de emoção por terem recebido uma refeição quente após semanas. Se não há gás e não há árvores para lenha — porque foram todas cortadas ou destruídas pelos bombardeios — as pessoas se adaptam como podem. Até mesmo um prato de macarrão instantâneo provoca grande emoção. O senhor encontrou muitas pessoas de diferentes regiões. O que pode dizer sobre o estado de espírito delas? Se nos referirmos às pessoas em dificuldade, a situação é muito dura. Vi pessoas deslocadas que, às vezes, não conseguiam nem sequer falar. Nesses casos, não faz sentido perguntar sobre suas necessidades: antes de tudo, é preciso aquecê-las, alimentá-las e dar-lhes um pouco de paz por alguns dias; só depois se pode falar com elas. São pessoas muito abaladas. Quanto às nossas organizações — penso, por exemplo, na Cáritas Kramatorsk, que hoje se ocupa das evacuações na região de Donetsk — quando perguntamos a eles quais seriam as perspectivas para 2026, a resposta foi: “Para nós bastaria conseguirmos chegar ao dia de amanhã”. Uma resposta óbvia, mas que me impressionou. É compreensível: enquanto muitos falam de estratégias e da reconstrução da Ucrânia, essas pessoas estão empenhadas na sobrevivência cotidiana, em tentar a cada dia permanecer vivas e manter um certo equilíbrio interior para poderem, então, ajudar os outros. Para mim, a Cáritas é feita de pessoas que também precisam de apoio, e isso é extraordinário. Cada vez que estou no leste da Ucrânia com nossas organizações locais, fico impressionado: pessoas maravilhosas, diretores (muitas vezes sacerdotes) incansáveis, que continuam a cuidar dos outros apesar de tudo. O que o senhor gostaria de dizer aos leitores e ouvintes de todo o mundo? Gostaria de expressar minha profunda gratidão a todos aqueles que ajudam a Ucrânia. Meu agradecimento de coração pela solidariedade. Sentir o apoio por meio de visitas, comunicações ou projetos é realmente maravilhoso. Faz você perceber que o mundo cristão é, de fato, um mundo de fraternidade, onde as pessoas apoiam umas às outras. Por isso, sou grato tanto aos homens quanto a Deus, que criou um mundo onde é possível perceber o que o cristianismo oferece às pessoas.