Na única aldeia palestina que permanece inteiramente cristã, Madees Khoury, gerente da cervejaria familiar, relata as dificuldades e esperanças do cotidiano em meio às restrições de movimento impostas pelos postos de controle israelenses e pela violência dos colonos: "Queremos viver em paz, dignidade e liberdade. Somos as pedras vivas originais da Terra Santa."
Beatrice Guarrera – Vatican News "Há três anos vivemos como se estivéssemos na prisão.
Desde janeiro de 2025, o Exército israelense construiu postos de controle militar em todas as cidades, povoados e aldeias palestinas na Cisjordânia, restringindo a liberdade de movimento dos palestinos.
Às vezes, você fica preso num posto de controle 'móvel', sem saber se conseguirá passar em dez minutos, quatro ou sete horas.
Torna-se impossível ir ao trabalho, à escola, ao hospital ou para casa." Madees Khoury, uma mulher cristã palestina e gerente da cervejaria da família, descreve esse cenário de dificuldades diárias. "Sou a primeira e única cervejeira do Oriente Médio", diz Khoury, que nasceu nos Estados Unidos, mas voltou ainda criança com a família para morar em Taybeh, um povoado conhecido por ser a última vila totalmente cristã na Cisjordânia, no Estado da Palestina.
Tenacidade e esperança "As pessoas são paradas nos postos de controle", explica ela. "Eles fecham os portões e você não pode se mover.
Muitos dormem em seus carros porque não conseguem voltar para casa.
Infelizmente, isso não é vida: você não pode planejar seu dia, marcar compromissos.
Vive-se um minuto de cada vez", diz Khoury.
Tudo isso acontece, argumenta ela, porque "estamos sob ocupação, e já faz décadas.
E nos últimos três anos, tornou-se ainda mais difícil, também devido à violência dos colonos que sofremos diariamente".
Mesmo assim, apesar das dificuldades, Khoury escolheu ficar e continuar o negócio da família. "O povo palestino é verdadeiramente tenaz", explica Khoury, quando questionada sobre como é possível seguir em frente numa situação tão cheia de obstáculos. "É incrível quanta paciência e esperança as pessoas têm por um futuro melhor e pacífico.
Acho que o amor e o senso de pertencimento à terra as ajudam a permanecer e enfrentar todos esses desafios, a violência e os ataques.
É assim para mim.
A Palestina é a minha casa." Uma casa que agora está fragmentada por todos os postos de controle e repleta de perigos. "Tudo o que entra e sai do país é controlado pelos israelenses, até mesmo a quantidade de água necessária para produzir cerveja", observa Khoury.
Um trajeto de uma hora leva três dias Portanto, fazer negócios na Palestina é uma experiência verdadeiramente exigente, assim como produzir cerveja num país árabe, mas a família não se deixa desanimar, continuando a vender localmente e a exportar para 17 países.
O processo é extremamente complicado, explica a mulher: "Para chegar ao porto, temos que passar por postos de controle comerciais específicos, porque não temos nossas próprias fronteiras.
Se você vir o nome da vila e o porto de Haifa no mapa, saberá que fica a cerca de uma hora e meia de distância.
Mas o transporte de cerveja para Haifa leva pelo menos três dias." Uma corrida contra o tempo que começa no momento em que os israelenses concedem uma autorização para utilizar um posto de controle comercial, tendo em vista a data de partida de um navio cargueiro.
Primeiro, porém, um caminhão palestino deve chegar a tempo — passando por postos de controle em terra — para carregar os paletes (porque o carregamento de contêineres diretamente na cervejaria não é permitido).
Em seguida, ele deve passar por um posto de controle comercial, onde um caminhão israelense deve estar estacionado simultaneamente para verificações de segurança e documentação.
Esses procedimentos são demorados e, às vezes, é impossível chegar ao porto a tempo da partida do navio cargueiro, o que os obriga a tentar novamente no dia seguinte.
Esse longo processo também impõe um fardo financeiro à cervejaria. "Temos 15 funcionários de Taybeh e das aldeias vizinhas", diz Khoury. "Ainda temos a equipe completa, embora a produção e as vendas tenham diminuído nos últimos três anos.
Mas continuamos trabalhando e planejando um futuro melhor." Viver com medo O contexto local, porém, continua difícil, afirma a cervejeira: "Os episódios de violência por parte dos colonos nos últimos três anos se intensificaram.
Tudo começou quando os colonos atearam fogo atrás de uma igreja bizantina, entre as ruínas do século V; depois, deixaram as vacas pastarem no pátio da igreja e, posteriormente, começaram a incendiar carros.
Em seguida, surgiram grafites em hebraico nas paredes com frases como ‘Morte aos árabes!’, ‘Vamos nos vingar’.
E eles agrediram os agricultores durante a colheita das azeitonas”.
Taybeh está agora cercada por sete postos avançados, considerados ilegais pelas Nações Unidas, dos quais colonos armados realizam ações de provocação. "Viver em Taybeh tornou-se tão assustador que as pessoas têm medo até mesmo de andar na rua", observa ela.
No entanto, o desejo de Madees Khoury, assim como o de tantos palestinos, é simples: "Queremos viver em paz, com dignidade e liberdade.
Somos as pedras vivas originárias da Terra Santa.
Continuaremos a perseverar o máximo possível e não temos intenção de ir para lugar nenhum.
Esta é a nossa pátria.
Queremos apenas levar uma vida normal, como todas as pessoas do mundo".