Claridade e a refundação da literatura cabo-Verdiana - Vatican News via Acervo Católico

  • Home
  • -
  • Notícias
  • -
  • Claridade e a refundação da literatura cabo-Verdiana - Vatican News via Acervo Católico
Claridade e a refundação da literatura cabo-Verdiana - Vatican News via Acervo Católico
Fonte: VATICANO

Há 90 anos, nascia em Cabo Verde, a revista de Artes e Letras “Claridade”. Iria dar à literatura cabo-verdiana um novo rumo, centrado nos problemas reais do arquipélago. A efeméride vai ser comemorada oficialmente no dia 23/3/26 na Universidade do Mindelo, onde será anunciada a criação da Cátedra Claridade na UNINT, em Roma. A Reitora, Mariagrazia Russo, explica as razões, enquanto que Filinto Elísio desvenda as raízes, o contexto e a orientação dos claridosos.

Dulce Araújo - Vatican News O 90º aniversário do surgimento da revista Claridade, que marcou uma viragem na literatura cabo-verdiana a partir dos anos 30 do século XX, foi o tema da emissão da Rádio Vaticano, “África em Clave Cultural: personagens e eventos” de 19-3-26. A emissão contou com uma entrevista à Professora Mariagrazia Russo, Reitora da UNINT (Universidade de Estudos Internacionais de Roma), instituição que vai passar a ter uma Cátedra Claridade; e com uma crónica do poeta, ensaísta e editor (Rosa de Porcelana Editora), Filinto Elísio. Ele conduz o leitor/ouvinte pelos caminhos dos claridosos através da revista por eles lançada em março de 1936. O anúncio da Cátedra Claridade vai acontecer na cerimónia de comemoração oficial dos 90 anos da Claridade, na Universidade do Mindelo, no próximo dia 23, como dá conta Filinto Elísio, na sua crónica. Na entrevista, a Reitora dá a conhecer a filosofia da UNINT, a sua internacionalidade, não só de nome, mas de facto, o seu relacionamento com o mundo de língua portuguesa, as outras Cátedras de que já dispõe, como a Cátedra Vasco da Gama, a Cátedra Fundação Agostinho Neto, intitulada a Eugénia Neto; o busto de Agostinho Neto num jardim de Roma em frente duma escola e ainda a Bolsa “Willy Monteiro” para jovens cabo-verdianos. Não faltam acenos àquilo que poderá vir estar na agenda da Cátedra Claridade a ser dedicada a estudos cabo-verdianos, a começar pelos claridosos, mas estendendo-se também a outros escritores que poderão ser igualmente traduzidos para o italiano. Por fim fala-se da viagem do Papa Leão XIV a Angola, “um farol” que atrairá a atenção das pessoas, criando, oxalá, a curiosidade nos italianos para a língua e literatura portuguesas, uma realidade que merece e que abrange várias áreas do mundo, sublinha a Professora Russo, cujas palavras podem-se aqui ouvir: Ccrónica Claridade e a Refundação da Literatura Cabo-Verdiana A celebração dos 90 anos da revista Claridade, ou revista de Arte e Letras, como era designada, acontece no dia 23 de março de 2026, com o epicentro das comemorações na Universidade do Mindelo que acolhe uma sessão oficial para celebrar a fundação da revista. A programação prevê um pronunciamento oficial do Presidente da República, José Maria Neves, uma conferência sobre “O Impacto da Claridade na Vida Cabo-verdiana” e o lançamento do livro "Para uma História das Ideias Cabo-verdianas", de Manuel Brito-Semedo. O ponto alto da celebração será o anúncio da criação de uma Cátedra Claridade na UNINT (Universidade de Estudos Internacionais de Roma) em parceria com o Instituto Isidoro Graça, através do Protocolo assinado entre a Reitora dessa instituição italiana de ensino superior, Professora Mariagrazia Russo, e o Presidente do Instituto Cabo-verdiano, Daniel Graça, no qual se enquadra a Universidade do Mindelo, de que é Reitor, Albertino Graça. A ideia da Cátedra nasce duma sugestão a Presidente da Associação de Amizade Cabo Verde-Itália, Kriolità, Maria Silva, e da Rosa de Porcelana Editora. A Claridade constituiu um momento de refundação estrutural, temporal e espacial da literatura cabo-verdiana, num notável percurso histórico que remonta ao século XVI. Na verdade, a Claridade reorienta o fazer literário, criando algo diferente, uma verdadeira mudança de paradigma, centrando o lócus e o nexo em questões cabo-verdianas. Uma centralização do foco literário-cultural, com propositura político-ideológico como pano de fundo.   A revista surge na cidade do Mindelo, Cabo Verde, em março de 1936, ano em que na ilha de Santiago, também se inaugura a Colónia Penal do Tarrafal. Em torno dela, instala-se e ganha corpo, em plena noite colonial, o movimento claridoso que preconizava o "fincar os pés no chão crioulo", procurando uma identidade própria, orientada para a realidade social, cultural e política das ilhas, ao tempo marcado pela estiagem, fomes, pobreza extrema e emigração. Com nove números publicados até 1960, a revista, impulsionada por Baltasar Lopes, Manuel Lopes, Jorge Barbosa e João Lopes, em seu núcleo central, propugna romper com o academicismo colonial e criar a Caboverdianidade, corolário da tomada de consciência dos intelectuais das ilhas e assunção de um diferencial de autenticidade crioula dentro do espaço colonial português. Não foi fenómeno que aconteceu de uma geração espontânea. Há antecedentes a formatarem caminhos que desembocaram no anúncio do 1º número da revista. Não estaria distante do ideário claridoso, a publicação pretérita do livro de poemas de António Pedro, Diário (em 1929); os debates geracionais ocorridos na Praia e no Mindelo, com figuras como Jaime de Figueiredo, João Lopes e a presença de alguns escritores portugueses, próximos da revista coimbrã Presença, publicada em 1927, as tertúlias com Augusto Casimiro e José Osório de Oliveira, e as correspondências de Baltazar Lopes da Silva e de Jorge Barbosa com escritores modernistas brasileiros, de feição do Movimento Regionalismo, na sequência de um vasto e diverso movimento cultural matricial, que foi a Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922. Igualmente, vemos na publicação do livro de Jorge Barbosa, Arquipélago (em 1935), o ato mais próximo da consubstanciação do modernismo das letras crioulas. Ao nível político e ideológico, o livro de Jorge Barbosa já se afastava do cânone português, procurando refletir a consciência coletiva cabo-verdiana e chamar a atenção para elementos da vida cabo-verdiana. Esse histórico primeiro número apresentava textos poéticos da tradição oral em língua crioula e textos ensaísticos da antropologia cultural cabo-verdiana. O segundo número, por exemplo, contou com a morna “Vénus" do são-vicentino Francisco Xavier da Cruz, o B.Léza; para além de outros aspetos culturais e literários também em português. Os restantes números, sempre privilegiando o folclore, conto, romance, poesia, crítica social, antropologia cultural, filologia e etnografia, recentravam-se no arquipélago e nos dramas de Cabo Verde, sendo a estiagem, a fome, a evasão e a emigração como temas intermitentes. Ao longo dos anos e em períodos sucessivos, várias foram as figuras das letras que participaram na Revista Claridade, nomeadamente Pedro Corsino de Azevedo e José Osório de Oliveira, nos primeiros números; depois, Henrique Teixeira de Sousa, Félix Monteiro, Nuno Miranda,  Abílio Duarte, Arnaldo França, Luís Romano, Tomás Martins, Virgílio Avelino Pires, Onésimo Silveira, Francisco Xavier da Cruz, Corsino Fortes, Artur Augusto, Sérgio Frusoni e  Virgílio de Melo, entre outros, nos nove números publicados, entre 1936 e 1960. Em 1986, no âmbito do Simpósio Comemorativo do Cinquentenário da Revista de Artes e Letras "Claridade", na cidade do Mindelo, o então Presidente da República de Cabo Verde, Aristides Pereira, classificara Claridade como a independência literária de Cabo Verde. De facto, não se pode perspetivar a modernidade cabo-verdiana e o processo de conscientização cultural e literária no arquipélago sem um olhar demorado sobre a Claridade. Filinto Elísio Se desejar, pelo contrário, ouvir a emissão “África em Clave Cultural: personagens e eventos, é aqui:    

Apoiar este projeto

Ajude a manter esse conteúdo livre para todos 🙏

Donate
Apoiar este projeto

Ajude a manter esse conteúdo livre para todos 🙏

Donate

Siga-nos

Acervo Católico

© 2024 - 2026 Acervo Católico. Todos os direitos reservados.