“Quem acredita sabe que nada é por acaso” diz o patriarca de Lisboa sublinhando a coincidência do internamento do Santo Padre a 13 de outubro, dia da 6ª aparição de Fátima. Recorda as orações feitas nesse dia no Santuário, em declarações feitas antes da cirurgia do Papa no Hospital Gemelli.
Rui Saraiva – Portugal “O Papa Leão XIV virá a Portugal para agradecer a Nossa Senhora de Fátima a recuperação”, era esta a esperança do patriarca de Lisboa em declarações antes da intervenção cirúrgica a que foi submetido o Papa na semana passada.
Orações em Fátima pelo Papa e esperança na sua visita Numa entrevista conjunta aos jornalistas Ângela Roque da Renascença e Octávio Carmo da Agência Ecclesia, D.
Rui Valério afirma ter uma convicção reforçada de que Leão XIV virá a Portugal. “Se eu até aqui tinha um pressentimento positivo relativamente à vinda do Santo Padre, em virtude deste acontecimento essa convicção saiu reforçada, porque façamos memória de que São João Paulo II, um ano depois do fatídico atentado na Praça de São Pedro, veio a Portugal para agradecer a Nossa Senhora a recuperação [13 de maio de 1982].
O Papa Leão XIV virá a Portugal para agradecer a Nossa Senhora de Fátima a recuperação – que foi maravilhosa, em que correu tudo bem e que lhe restituiu a saúde normal –, mas também para agradecer a toda a comunidade cristã por esta proximidade e pela comunhão que manifestou para com ele.
Há aqui diversas coincidências; quem acredita sabe que nada é por acaso.
Eu recordo-me, e tenho ainda muito vivo, o nosso sentimento no passado dia 13 de outubro, quando a Igreja, no Santuário de Fátima precisamente, estava unida ao Santo Padre para elevar ao alto orações de súplica, orações de petição: sentíamos que esta circunstância temporal encerrava em si uma mensagem positiva e de esperança.
E, portanto, sim, nada é por acaso, tudo tem um significado”, afirma o patriarca de Lisboa.
Missões: Papa fala com a sua experiência no terreno O patriarca de Lisboa, que também é presidente da Comissão Episcopal da Missão e Evangelização lembra a celebração neste mês de outubro do 100º Dia Mundial das Missões, sublinhando que o Papa na sua mensagem refere ter sido também ele missionário no Perú.
D.
Rui Valério assinala a importância desse facto pois o Santo Padre fala “de uma experiência vivida no terreno”. “Ganha um peso acrescido, porque ele fala não de cátedra, mas a partir de uma experiência vivida no terreno.
Esse apelo à união, que o Santo Padre, aliás, até colocou no lema e no título da mensagem, desafia-nos a refletir sobre a nossa casa comum, sobre o facto de que o ser humano é uma família única, em que, independentemente das tradições, do país e das nações, e da identidade própria de cada nacionalidade e de cada pessoa, a verdade é que há um momento, há uma essência em que todos nós somos um.
E o Santo Padre remete para a figura de Cristo exatamente a força desta unidade.
Mas, se me permite acrescentar um ponto que acho que não é irrelevante, o Santo Padre é fascinado pela unidade: não só pela unidade entre os povos, entre as pessoas, mas também pela unidade entre as diversas dimensões da vida.
A evangelização, para o Papa Leão XIV, significa o anúncio explícito de Jesus Cristo, a sua apresentação, levar o Evangelho, mas, ao mesmo tempo e paralelamente, a promoção da justiça, a acérrima defesa da paz”, salienta o presidente da Comissão Episcopal da Missão e Evangelização.
Evangelização: acolhimento, escuta, disponibilidade O patriarca de Lisboa considera que Portugal é hoje em dia uma terra de missão e evangelização porque de acolhimento de tantas nacionalidades.
E “a evangelização tem de começar por ser uma atitude: uma atitude de acolhimento, de escuta, de disponibilidade, uma atitude hospitaleira”, diz D.
Rui Valério. “Um dado histórico: nos anos 30 do século XX surgiu em França um livro que na época criou algumas observações menos positivas, cujo título era “França, terra de missão.
A sociedade estava habituada a dizer “França, terra de missionários”.
O mundo mudou de tal maneira que hoje o mundo inteiro está em cada cidade, em cada vila e em cada aldeia.
Conheço, por exemplo, instituições, nomeadamente empresas, onde de ou de um dia para o outro, começaram a ser frequentadas e a contar com a presença de várias nacionalidades, às vezes até chegando à dezena.
Pessoas oriundas de dez países diferentes que estão a trabalhar em empresas, em instituições onde tradicionalmente estavam apenas as pessoas ali da terra.
Mas Portugal tornou-se terra de missão antes de mais por este motivo e por esta razão.
Nós, internamente, estamos a ser habitados por pessoas oriundas de diversas geografias – repito, de diversas proveniências –, cada uma com a sua riqueza, com a sua identidade própria, e aqui a evangelização tem de começar por ser uma atitude: uma atitude de acolhimento, de escuta, de disponibilidade, uma atitude hospitaleira.
Sem esta etapa, tudo o resto é um edifício que não se ergue.
E, porque estamos a falar de missão num sentido religioso do termo, esta reafirmação em relação à dignidade do ser humano deve contemplar, em primeiro lugar, a sua abertura à transcendência.
Creio que um dos passos decisivos e importantes que será dado por esta relação missionária ao nível de cada localidade, ao nível de cada país, é reafirmar esta vocação à transcendência do próprio ser humano”, assinala D.
Rui Valério.
Habitação: Patriarcado e Cáritas procuram soluções Os jornalistas Ângela Roque e Octávio Carmo pedem também uma leitura do patriarca de Lisboa sobre a atual crise da habitação em Portugal, em particular, pedindo o estado da situação atual sobre o projeto do Patriarcado de Lisboa e da Cáritas Diocesana de reabilitar património e disponibilizá-lo para arrendamento acessível.
D.
Rui Valério diz que estão na fase de contactarem todas as paróquias. “Estou muito otimista, estou muito esperançoso”, afirma.
Neste momento estamos num ponto que é importante que é o de juntamente com a Cáritas, irmos a todas as paróquias para comunicar aos primeiros responsáveis de cada paróquia, que são os párocos, exatamente deste projeto e desta intenção.
Por aquilo que conheço do nosso Patriarcado, da nossa diocese, estou muito otimista, estou muito esperançoso.
As paróquias e outras instituições da Igreja por vezes têm edifícios cuja reabilitação, exatamente pela dificuldade de os recuperar, pelos custos e, às vezes até – temos de o dizer –, pelas burocracias que isto implica, nem sempre é fácil a sua reabilitação.
É que aqui há um ganho, digamos assim, em dois sentidos: antes de mais, para as pessoas, porque vai fazer com que estas habitações, depois, sejam de renda acessível; mas, ao mesmo tempo, é uma forma de valorizar o próprio património.
E, por isso, estou muito otimista por aquilo que conheço da nossa realidade diocesana.
Não é nossa intenção, com este gesto, estarmos a enviar mensagens ou ensinamentos para fora.
Aquilo que para nós é prioritário é oferecer às pessoas, ao ser humano, um lugar, uma casa.
Oferecer uma casa às pessoas.
E, falo por mim, se eu conseguisse fazer isso, podem acreditar que era o milagre que eu realizava”.
Laudetur Iesus Christus [ Audio Embed Oiça qui a reportagem e partilhe]