Na sequência da catequese do Papa Leão XIV na audiência geral da última quarta-feira, dedicada à Constituição dogmática conciliar, o presidente da Associação Bíblica Italiana reflete sobre o significado mais profundo do documento: “O texto permite compreender a perspectiva correta através da qual a Igreja repensou sua missão no mundo”
Eugenio Bonanata – Vatican News A primazia da história, a leitura dos textos sagrados, a relação de amizade com o Senhor, a oração. São numerosos os temas abordados pela constituição dogmática Dei Verbum que o Papa Leão XIV colocou no centro da catequese da audiência geral da quarta-feira (14/01), na Sala Paulo VI, no âmbito do novo ciclo dedicado à redescoberta dos documentos do Concílio Vaticano II. “A Dei Verbum esclarece qual é o significado e a maneira pela qual Deus se revela aos homens”, afirma padre Maurizio Girolami, presidente da Associação Bíblica Italiana. E “é significativo – acrescenta – que o Papa tenha querido começar justamente pela introdução deste documento, onde se define o diálogo entre Deus e os homens como um diálogo que ocorre em uma relação de amizade”. Uma longa gestação “Deus se revela em primeiro lugar através de palavras autênticas”, acrescenta padre Girolami, lembrando como, a esse respeito, o Papa destacou “a diferença” entre a palavra e a conversa de circunstância, bem como a importância de se dedicar à oração. “Deus se revela também através de eventos intimamente relacionados”, sublinha o sacerdote, que convida a considerar a longa gestação que teve a Dei Verbum, texto aprovado em 18 de novembro de 1965, poucas semanas antes do encerramento da assembleia, em 8 de dezembro. “Na verdade, porém, foi um dos primeiros textos a ser apresentado pela comissão preparatória”. O contexto histórico-cultural Qual é o motivo desse longo processo? “Os padres conciliares – explica o sacerdote – precisavam chegar a um acordo sobre como entender a revelação cristã: se apenas como palavras, verdades reveladas, ou se, como ensina a Sagrada Escritura, havia uma história a ser acolhida, composta tanto de palavras quanto de eventos”. O contexto cultural, teológico e filosófico da época, ainda marcado pelo iluminismo e pelo positivismo, bem como pela grande controvérsia com a reforma protestante, estimulou essa reflexão que levou a colocar a história no centro do mistério da revelação divina. “Não se trata apenas de ter textos – afirma padre Girolami –, o cristianismo não é a religião do livro, mas, como também nos disse o Papa Bento XVI, é em primeiro lugar o encontro com Jesus, do qual certamente a Sagrada Escritura é a testemunha privilegiada, mas não sem o leito que a transporta, ou seja, a tradição e a vida da Igreja”. O olhar sobre a realidade Padre Girolami também cita a recente carta apostólica do Papa Leão, Uma fidelidade que gera futuro, divulgada em 22 de dezembro passado, por ocasião do sexagésimo aniversário dos decretos conciliares Optatam totius e Presbyterorum Ordinis. Os dois documentos sobre a formação sacerdotal estão em plena sintonia com o espírito da Dei Verbum. “Os padres conciliares – explica ele – pediam uma revisão profunda dos estudos de teologia, porque obviamente não se tratava mais de estudar as verdades reveladas, como se Deus quisesse revelar algo de si mesmo de forma abstrata, como se fosse uma filosofia a ser aprendida, mas era preciso voltar ao contexto da história, sabendo ouvir a história”. “A Bíblia – continua padre Girolami – nos diz que é através de rostos, encontros e pessoas que Deus revela seu plano de salvação”. E é justamente aí que reside o poder da constituição dogmática, que convida todos os fiéis – não apenas os especialistas – a ler a Sagrada Escritura e a alimentar a familiaridade com os Textos Sagrados. “É graças à Dei Verbum – sublinha ainda o presidente da Associação Bíblica Italiana – que hoje podemos dizer que o Senhor continua a acompanhar a sua Igreja e a revelar o seu rosto através da vida da Igreja. A nossa catequese, o nosso ensino teológico já não é uma repetição de fórmulas pré-fabricadas, por mais corretas que sejam, mas que correm o risco de não comunicar nada. Em vez disso, é a Igreja que se questiona continuamente sobre como anunciar o Evangelho eterno de Jesus Cristo na história, no hoje, com a linguagem do homem contemporâneo”. O processo de renovação O documento, portanto, ofereceu a estrutura teológica para todo o Concílio Vaticano II. “A Dei Verbum nos permite compreender qual foi o espírito e a perspectiva correta com a qual a Igreja repensou a si mesma, sua missão no mundo, o sentido da Sagrada Escritura e da tradição, e como viver a experiência cristã hoje, dando primazia e valor à história e a este mundo amado por Deus”. Segundo padre Maurizio Girolami, além disso, a intuição teológica da constituição dogmática está na base de todo o processo de renovação estabelecido pelo Concílio: da liturgia à linguagem, até às estruturas e instituições. “Provavelmente – conclui – se não tivesse havido a Dei Verbum, toda a vida da Igreja, a nova evangelização de todos os últimos Pontífices, não teria tido a profundidade teológica que teve”.