Após quase quatro anos de prisão e negligência médica, o jornalista venezuelano relata como a fé e o legado de sua mãe o sustentaram no submundo do cárcere e o guiaram pelo caminho do perdão
Pe. Rodrigo Rios – Cidade do Vaticano Existem silêncios que gritam mais alto que qualquer discurso, e existem cicatrizes que se tornam pergaminhos onde a mão de Deus escreve histórias de sobrevivência. O jornalista venezuelano Ramón Centeno atravessou o seu próprio Getsêmani, tornando-se um símbolo da repressão política e da crise de direitos humanos em seu país. Sua trajetória é marcada por uma reviravolta trágica: de militante a prisioneiro do regime, terminando em uma cadeira de rodas devido à grave negligência médica sofrida no cárcere. Durante quase quatro anos, Ramón permaneceu detido em condições desumanas, vendo sua saúde desvanecer enquanto sua fé era provada no fogo. Se o mundo enxerga nele um homem limitado fisicamente e dependente de uma cadeira de rodas, o olhar cristão reconhece o testemunho vivo de uma via-sacra contemporânea. Ramón foi libertado em 14 de janeiro de 2026, em meio a um processo de anistia e liberação de presos políticos. No entanto, o cálice da dor ainda não estava vazio: apenas 12 dias após sua soltura, sua mãe, Omaira Navas, faleceu em decorrência de um AVC. Ela havia sido a principal voz na luta pela liberdade do filho, protocolando mais de 14 pedidos de medida humanitária que foram sistematicamente ignorados pelas autoridades. Nesta entrevista exclusiva ao Vatican News, Ramón fala sobre o submundo das prisões, o sacrifício de sua mãe e a força de um coração que se recusa a ser escravizado pelo ódio. Ramón, como jornalista você busca a verdade, mas como cristão sabe que a Verdade é uma Pessoa. No silêncio da cela e diante da imobilidade do seu corpo, como foi o seu encontro pessoal com o Cristo sofredor? O encontro com o Mestre Jesucristo foi algo belo e extraordinário. Quando me vi imobilizado e atado, recordei tudo o que Ele sofreu por nós; isso se revelava a mim em cada momento em que eu pensava que não suportaria. Recebi um alento diferente por meio de pessoas, de gestos de ajuda, de abraços e de palavras bíblicas. O Mestre esteve presente em todo o tempo e continua estando. Ele foi minha fonte de inspiração na prisão. Antes de dormir, eu o buscava em pensamento, eu o escutava. Foi esse encontro que me sustentou. Quando achei que não conseguiria, eu me entreguei: entendi que não eram as minhas forças, mas as d'Ele. Por isso saí com vida, porque Cristo estava comigo na aflição. Assim, Ele foi a verdade, a vida e a ressurreição. Muitos salmos falam do clamor do justo no fundo do poço. Houve algum momento de noite escura da alma em que sentiu o silêncio de Deus, ou Sua presença foi seu único refúgio contra o desespero? Deus foi exatamente o único que me manteve de pé; eu sabia que Ele estava ali. Ele era meu refúgio em todos os instantes. Quando eu estava prestes a sucumbir, lembrava-me do Sumo Criador. Minha fé nunca se quebrou, nunca foi morna e jamais tremeu. Pelo contrário, quanto mais duro me batiam no confinamento, mais eu confiava n’Ele. Eu dizia a mim mesmo que aquela provação serviria para o testemunho do que Deus queria de mim. Ele foi o meu único refúgio, realmente. Não teve outro mais. Ele foi o único capaz de me sustentar na borrasca, no poço e no fosso mais profundo. Eu sentia que estava no submundo, mas, ao tocar o fundo, compreendi que o próximo passo seria sair e avançar. Sua mãe, Omaira, foi como a Virgem Maria ao pé da Cruz: firme na dor até o fim. Como você integra na sua fé a partida dela, apenas 12 dias após sua libertação? Vê na morte dela um sacrifício final pela sua vida? Minha mãe sofreu muitíssimo; choramos muitas lágrimas juntos. Tenho a certeza de que nos reencontraremos, pois creio na ressurreição. Agradeço imensamente a Deus por ter me dado uma mãe linda, que me ensinou a ter fé e a crer no Todo-Poderoso. Ela tinha uma frase muito eloquente: "Deus nunca vai nos abandonar, filho. Confia. Amanhã é um novo dia, não se aflija, porque o Mestre está conosco e não vai nos acontecer nada". Ela dormia com a Bíblia ao lado, orava de joelhos todos os dias e me ensinou essa disciplina. Vejo na partida dela uma fé que renasce em mim, uma espiritualidade que me conduz e ilumina. Recordo-me dela como um ser especial que Deus me deu. E estou muito em júbilo, esse é o termo, de ter tido uma mestra como Omaira Navas. A cadeira de rodas é agora sua nova forma de caminhar pelo mundo. O que essa fragilidade física lhe ensinou sobre a verdadeira força que vem do Espírito? Exatamente isso. A fortaleza está no espírito. E eu tenho o meu espírito hoje mais forte que nunca. Na prisão, mesmo prostrado em uma cama, os companheiros de cela me diziam que onde eu estava era o espaço da paz. Quando sentia que algum companheiro caía ou tentava cair, eu o levantava e dizia: "Aqui está Deus conosco, Ele nos acompanha, nos faz fortes, porque o mal nunca vai triunfar". É assim que sinto meu corpo hoje: o meu espírito me conduz, me fortalece e me anima. Foi por isso que, ao ganhar a liberdade, decidi visitar outras prisões para acompanhar as mães que clamam pelos seus filhos. Não é uma perna ou um braço que nos move, mas o Espírito Santo que se manifesta em nós. O perdão é o mandato mais difícil do Evangelho. Como seu coração trabalha o perdão em relação àqueles que lhe tiraram a saúde e o convívio com sua família? Perdoo, eu hoje perdoo os meus carcereiros. Dentro daquelas masmorras, preparei-me diariamente porque sabia que todo aquele dano poderia me transformar em um homem cheio de ódio e vingança. Mas saí da prisão sem essas amarras, sem essas correntes, pois Deus me libertou. E Deus perdoa; nos deu Seu Filho para o perdão, para reconhecer o perdão, um perdão de verdade. Me apego a isso. Hoje essas cicatrizes vão se curando porque sou mais espiritual, definitivamente. Não hesitaria em abraçar os juízes ou promotores, pois foi isso que minha mãe me ensinou: perdoar quantas vezes for necessário. Eu nunca me fixo em uma discussão, nunca permito ir para casa sem resolver isso, e assim aconteceu comigo com eles. Deus é quem decide em todo momento; a gente é o Seu instrumento. A Venezuela vive uma longa via-sacra. Que mensagem de esperança você deixa aos irmãos que ainda carregam sua cruz nas prisões ou na pobreza extrema? É, de fato, uma via-sacra. Levamos uma cruz grandíssima e pesada, mas aí está: eu sou um exemplo. Muitos pensaram que eu não sairia vivo. Eu pensei, quando tive o acidente de trânsito e abri os olhos, eu disse: "Obrigado, Pai, pela vida". Foi outro milagre. E depois, em 14 de janeiro, saí... o que era difícil. Aos olhos humanos era impossível, mas mantive meu coração e meus sentidos voltados para o espiritual. Dizia a todos: vamos sair desta porque somos filhos, somos os guerreiros de Papai do Céu. Precisamos aguentar um pouco mais e nos transformar em agentes de mudança, com dignidade e fortaleza. Sim, sou um sobrevivente, um sobrevivente que conseguiu. Conseguiu, e cada um com a oração... quando acharmos que não aguentamos mais, oremos! A oração derruba muros; os primeiros muros são os da mente, que às vezes jogam conosco da maneira mais adversa. Então, é isso: encorajar a nossa sociedade, porque isso está mudando e vai mudar.