O Fundo das Nações Unidas para a Infância denuncia o custo humano da guerra: centenas de milhares de crianças sem lar e sem segurança: “Quase todas as crianças precisam de algum tipo de apoio psicológico para se recuperarem”
[ Audio Embed Ouça e compartilhe] Vatican News Um novo relatório do Unicef retrata a imagem dramática de uma infância em Gaza destruída pela guerra, de uma geração privada não apenas da segurança e do carinho, mas também do direito de crescer, aprender, brincar e imaginar seu próprio futuro.
Em Gaza, centenas de milhares de crianças continuam vivendo em condições desesperadoras: uma emergência que o cessar-fogo não eliminou e que corre o risco de deixar feridas profundas e duradouras.
Cerca de 800.000 crianças ainda estão deslocadas, forçadas a buscar abrigo em barracas improvisadas, prédios danificados pelos bombardeios e estruturas precárias, muitas vezes incapazes de garantir uma proteção mínima.
Para muitas delas, a palavra “lar” perdeu todo o significado concreto.
Em seu lugar, há abrigos frágeis, espaços superlotados e noites passadas no medo, sem a certeza de poder enfrentar o dia seguinte em condições dignas.
Perdas familiares [ Read Also ] Ainda mais comovente é o balanço das perdas familiares.
Estima-se que 60 mil crianças em Gaza tenham visto um ou ambos os pais serem mortos durante a guerra ou após a trégua.
A guerra destruiu não apenas prédios e bairros, mas também laços essenciais, deixando milhares de crianças a lidar com o luto, a solidão e a incerteza. “Quase todas as crianças — relata o UNICEF — precisam de apoio psicológico” para enfrentar os traumas sofridos e tentar recuperar o equilíbrio emocional.
O medo dos bombardeios, a perda de familiares, os deslocamentos repetidos e a privação de qualquer normalidade deixaram marcas profundas.
São feridas invisíveis que podem comprometer o sono, a aprendizagem e os relacionamentos, acompanhando as crianças por anos.
Sem intervenções adequadas, a emergência atual corre o risco de se transformar em uma crise psicológica e social destinada a durar muito além do fim das hostilidades.
Mais mortes Apesar do cessar-fogo, no entanto, as crianças continuam morrendo.
Segundo o Unicef, nas últimas duas semanas, 5 meninos e 2 meninas foram mortos e pelo menos 33 crianças ficaram gravemente feridas, enquanto outros dois meninos morreram devido a ferimentos sofridos anteriormente.
Além disso, foi noticiado no domingo que duas crianças teriam morrido devido a disparos das forças israelenses em diferentes áreas da Faixa de Gaza.
Pouco mais de um ano após o anúncio da trégua, o número total de menores mortos ultrapassa 340.
Mais uma temporada de privações [ Read Also ] Com a aproximação do inverno, começa mais uma temporada de privações para as crianças de Gaza.
É o quarto ano de dificuldades extremas para uma população infantil forçada a sobreviver em condições que nenhuma criança deveria ter de enfrentar.
As barracas estão danificadas, os banheiros são escassos e famílias inteiras estão amontoadas em abrigos improvisados.
O frio, a chuva e a umidade correm o risco de agravar ainda mais a situação, sobretudo para os mais pequeninos, que já estão expostos à desnutrição, às doenças e a condições de vida insustentáveis.
A emergência ainda não acabou O cessar-fogo permitiu a entrada na Faixa de Gaza de mais ajuda humanitária e suprimentos comerciais, contribuindo para melhorar a situação de segurança alimentar.
Trata-se de avanços importantes, mas insuficientes para eliminar as consequências de uma guerra que devastou as infraestruturas, abalou as comunidades e comprometeu o acesso a serviços essenciais.
A emergência ainda não acabou: a ajuda deve chegar de forma contínua àqueles que mais precisam, enquanto são necessários recursos para reconstruir o que foi destruído.
Para as crianças, de fato, a guerra continua permeando todos os aspectos da vida cotidiana: o lugar onde dormem, a comida que conseguem encontrar, a água com que se lavam, a possibilidade de frequentar a escola e de brincar em um espaço seguro.
Mas, acima de tudo, pesa a ausência de entes queridos, a perda dos pais e o medo de que até mesmo o pouco que resta possa desaparecer.
Uma responsabilidade que não pode ser adiada [ Read Also ] Salvar as crianças de Gaza significa proteger não apenas suas vidas, mas também seu futuro.
São necessários abrigos adequados antes do inverno, água potável, saneamento básico, assistência médica, apoio psicológico e acesso à educação.
É preciso garantir a proteção das crianças contra a violência e o respeito aos seus direitos em todas as circunstâncias.
O alerta lançado pelo Unicef exorta a comunidade internacional a assumir uma responsabilidade que não pode mais ser adiada.
Por trás de cada número há uma criança a quem foi tirado algo que ela nunca deveria perder: a família, a segurança, a serenidade e a esperança.
Nenhum cessar-fogo poderá ser considerado verdadeiramente suficiente enquanto centenas de milhares de crianças continuarem vivendo sem um abrigo seguro, carregando o fardo de perdas irreparáveis e crescendo privadas das condições essenciais para imaginar um futuro.
A tragédia de Gaza não se mede apenas pelo que a guerra já destruiu, mas também por tudo o que corre o risco de se perder para sempre se a dor não for seguida de proteção, solidariedade e ações concretas.